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‘Todo mundo odeia a IA’: por que o uso cresce junto com a rejeição

Pesquisas mostram que a desconfiança cresce mesmo entre os usuários mais frequentes de chatbots

IA: tecnologia é odiada justamente por quem mais usa (Imagem gerada por IA/Exame)

IA: tecnologia é odiada justamente por quem mais usa (Imagem gerada por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 30 de junho de 2026 às 06h01.

Última atualização em 30 de junho de 2026 às 09h51.

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Quando o ex-presidente-executivo do Google, Eric Schmidt, subiu ao palco de uma formatura recente para saudar a chegada da inteligência artificial (IA), a reação da plateia foi, para dizer o mínimo, o avesso do que esperava o veterano da tecnologia. Naquele dia, e quase todas as vezes que outros executivos tentaram o mesmo tipo de abordagem em universidades, vaias barulhentas tomam conta do ambiente.

A cena, anedótica, é também o retrato de um sentimento cada vez mais difundido: a IA nunca foi tão usada — e, ao mesmo tempo, tão malvista.

A desconfiança, mostram as pesquisas, cresce justamente entre quem mais convive com a tecnologia. O ceticismo deixou de ser a reação de quem não entende a novidade e virou um sentimento dominante, que contraria o otimismo com que os americanos costumavam receber cada avanço tecnológico.

Segundo uma pesquisa do Pew Research Center, feita com 5.119 adultos americanos em fevereiro deste ano, apenas 16% acreditam que a IA terá um impacto positivo na sociedade nas próximas duas décadas, contra 40% que esperam um impacto negativo.

Outros 31% apostam num efeito neutro. A balança pende para o lado pessimista em todas as faixas etárias, mesmo com metade dos adultos americanos já usando chatbots, e um quarto deles todos os dias.

O dado mais contraintuitivo do levantamento está no recorte por idade. Os jovens de 18 a 29 anos são, ao mesmo tempo, o grupo que mais usa IA, 66% recorrem a chatbots, e o que mais desconfia dela: 48% esperam um impacto negativo na sociedade, a maior taxa entre todas as faixas. Apenas 14% desse grupo enxergam impacto positivo.

O ritmo do avanço assusta

Outro dado relevante aponta que cerca de dois terços dos americanos acham que a IA avança rápido demais, e 71% acreditam que ela vai deixar seus dados pessoais menos seguros.

A confiança institucional também é baixa: 67% têm pouca ou nenhuma confiança de que o governo americano consiga regular a tecnologia, e 59% duvidam que as próprias empresas a desenvolvam de forma responsável.

O ceticismo se estende às capacidades humanas. Em outra pesquisa do Pew, de 2025, 53% dos americanos disseram acreditar que a IA vai piorar a capacidade das pessoas de pensar de forma criativa, e 50% temem que ela prejudique a habilidade de formar relações significativas.

A percepção de risco supera a de benefício: 57% classificam como altos os riscos da IA para a sociedade, contra 25% que dizem o mesmo dos benefícios.

O medo que as próprias empresas venderam

Parte da explicação para essa rejeição, segundo o economista Paul Krugman, ganhador do Prêmio Nobel, é irônica.

Para ele, as pessoas temem a IA porque as empresas que a vendem disseram que ela faria coisas terríveis. Ele lembra que o presidente-executivo da Anthropic, Dario Amodei, chegou a afirmar, em 2025, que a tecnologia poderia eliminar metade dos empregos de escritório de nível inicial e elevar o desemprego a 20% em poucos anos.

Para Krugman, executivos promoveram visões apocalípticas para impressionar o mercado financeiro e pressionar empresas a adotarem IA com medo de ficar para trás — e só perceberam tarde demais que o discurso geraria reação contrária.

Até dentro da indústria há quem recue: o presidente-executivo da Microsoft, Satya Nadella, vem se distanciando do tom catastrofista. "Não dá para dizer que todos os empregos de escritório vão acabar", afirmou Nadella ao Wall Street Journal.

O exemplo mais citado é o do próprio Google, que passou a exibir resumos gerados por IA no topo das buscas sem oferecer uma opção clara de desativar. Segundo o Pew, 60% dos americanos dizem ler esses resumos, e, em grande parte das vezes, sem terem escolhido vê-los.

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