Inteligência Artificial

Patrocinado por:

logo-totvs-preto

Brasil está atrás na corrida por uma IA própria, diz diretora do CEIA

Para Telma Woerle de Lima Soares, maior centro de pesquisa aplicada em IA do país, faltam infraestrutura e dados — mas há espaço para o Brasil liderar em IAs soberanas de nichos como saúde e biodiversidade

Telma Woerle de Lima Soares: professora é diretora executiva do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) (CEIA/Reprodução)

Telma Woerle de Lima Soares: professora é diretora executiva do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) (CEIA/Reprodução)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 14 de julho de 2026 às 05h01.

Criar um modelo de inteligência artificial (IA) 100% brasileiro não é um problema só financeiro. Para Telma Woerle de Lima Soares, diretora executiva do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), da Universidade Federal de Goiás (UFG), a criação esbarra hoje em dois obstáculos que, sozinho, o dinheiro não resolve: a falta de infraestrutura computacional e a escassez de dados em português.

"Do ponto de vista técnico, essa é uma corrida em que o Brasil, para um modelo de linguagem puramente brasileiro, está atrás", afirma Telma em entrevista à EXAME. "E não sei se a gente consegue alcançar."

O principal entrave, na avaliação de Telma, é a infraestrutura. Construir um modelo de linguagem do porte dos que existem no exterior, como o ChatGPT ou o Claude, exige um poder computacional que o Brasil ainda não tem.

Segundo ela, mesmo somando todo o investimento previsto em supercomputadores no país, o resultado seria uma estrutura competitiva, mas não equivalente à das gigantes internacionais.

O segundo obstáculo são os dados. A diretora explica que os conjuntos de dados públicos em português disponíveis hoje não são suficientes para treinar um modelo de linguagem de ponta apenas com material nacional.

"Precisamos olhar a quantidade de dados que você precisa para treinar esses modelos. Hoje, o que temos disponível publicamente não é o suficiente", diz. "Seria preciso fazer essa junção com dados de outras línguas para poder fazer esse treinamento — o que inviabilizaria uma IA soberana."

Onde o Brasil pode se destacar

Segundo a pesquisadora, apesar do Brasil ter chegado atrasado à disputa pelos grandes modelos de linguagem, ainda pode ganhar a corrida em outro terreno.

"Poderíamos atuar em áreas como saúde, questões ambientais... Aqui que o Brasil poderia desenvolver uma inteligência artificial soberana", diz.

Para ela, um modelo voltado à biodiversidade brasileira, por exemplo, resolveria um problema regional com dados que só o país tem — e ainda poderia ser exportado.

A limitação, segundo Telma, continua sendo o poder computacional, mas a escala do desafio é menor do que a de um modelo de linguagem generalista.

Um centro que nasceu de política pública

O CEIA foi criado em 2019, quando o governo de Goiás, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (FAPEG), procurou os professores Telma e Anderson Soares — que já desenvolviam projetos com empresas desde 2014 — para estruturar uma política pública de centros de excelência. Em 2020, o centro se tornou uma unidade da Embrapii, o que permitiu dividir com as empresas o risco de investir em inovação.

Desde então, cresceu até virar referência nacional.

Hoje mantém parcerias com mais de 60 empresas, reúne centenas de pesquisadores e criou o bacharelado em inteligência artificial da UFG, que se tornou um dos cursos mais concorridos da universidade.

Uma das metas iniciais era captar R$ 50 milhões em projetos com a iniciativa privada.

Dos robôs de entrega ao agro

Com cerca de 90 projetos em execução, o portfólio do CEIA se espalha por quase todas as áreas.

Entre eles está a navegação autônoma do robô de entrega da Synkar, startup sócia do iFood que atua na primeira e na última milha das entregas, além de projetos em saúde, agentes conversacionais, agronegócio, sistemas contábeis e na cadeia de reparo automotivo.

Para Telma, desenvolver essas soluções no Brasil é uma vantagem, não uma limitação.

"O país oferece uma diversidade de dados e de problemas que enriquece as soluções — e muitas delas, uma vez resolvidas aqui, podem ser exportadas", afirma.

A própria Synkar, segundo ela, já mira o mercado internacional. "Quem resolve a navegação autônoma no caos das ruas brasileiras, pode colocar o robô para andar em quase qualquer lugar do mundo", diz.

Acompanhe tudo sobre:GoiásFaculdades e universidades

Mais de Inteligência Artificial

Claude terá marca d’água em textos e arquivos gerados por inteligência artificial

Nvidia fecha parceria para financiar US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA

Prompt chaining: a técnica que melhora as respostas da IA e reduz erros em tarefas complexas

Como fazer benchmarking de concorrentes com IA e obter insights estratégicos em menos tempo