Patrocinado por:
Robô humanoide: corrida agora é pelos IPOs das empresas ( HECTOR RETAMAL/Getty Images)
Repórter
Publicado em 11 de julho de 2026 às 06h59.
Em 10 de novembro de 2025, um robô humanoide de 1,3 metro caminhou pelo salão da Bolsa de Valores de Nova York, entre operadores de terno e telas piscando cotações.
Era o G1, da chinesa Unitree, que custa cerca de US$ 16 mil (R$ 88 mil, na cotação atual) — e a cena, mais do que um golpe de marketing, foi um aperitivo do que está por vir: os robôs humanoides estão prestes a deixar os palcos de demonstração e entrar, de fato, no mercado de ações.
A largada parece ser chinesa. A Unitree, maior fabricante de humanoides do mundo em número de unidades vendidas, entregou mais de 5.500 robôs em 2025 — cerca de 32,4% do mercado global, segundo o prospecto da empresa —, recebeu aval do regulador para abrir capital na Bolsa de Xangai e pode estrear já no fim de julho, na primeira grande oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) de uma companhia dedicada a essa tecnologia.
A companhia pretende levantar cerca de 4,2 bilhões de yuans, o equivalente a aproximadamente US$ 620 milhões, com uma fatia mínima de 10% de suas ações, o que implicaria um valor de mercado em torno de US$ 6 bilhões. Os recursos, de acordo com a empresa, irão para pesquisa, desenvolvimento e expansão da capacidade de fabricação.
O que diferencia a Unitree da maioria das rivais é um detalhe raro no setor: ela dá lucro.
Fundada em 2016, em Hangzhou, a empresa teve o primeiro ano lucrativo em 2025, com lucro líquido ajustado de cerca de US$ 90 milhões — alta de 674% sobre o ano anterior — e receita de aproximadamente US$ 250 milhões, mais que o triplo de 2024.
A aposta da empresa é o preço. Enquanto as americanas trabalham com humanoides que devem custar dezenas de milhares de dólares, a Unitree vende seu modelo G1 por cerca de US$ 16 mil e chega a oferecer versões de torso a partir de US$ 4.290.
É a mesma estratégia que a China usou em painéis solares, carros elétricos e drones, ao derrubar o custo até que a escala se tornasse inevitável.
A Unitree não está sozinha na corrida ao pregão. A UBTech, também chinesa, foi a primeira empresa de humanoides a abrir capital, em 2023, e negocia em Hong Kong.
Outras compatriotas avançam na mesma direção. A Dobot busca uma dupla listagem, enquanto Leju Robotics e Deep Robotics preparam ofertas em Shenzhen e Xangai.
Do lado americano, o nome mais aguardado é a Figure AI, avaliada em cerca de US$ 39 bilhões e apoiada por Nvidia, Microsoft, OpenAI e Jeff Bezos.
A empresa, porém, ainda não protocolou pedido de abertura e deve levar anos até a bolsa — sua fundação é de 2022, e a comercialização mal começou.
Já o Optimus, da Tesla, não é uma empresa separada, mas uma linha de produto dentro da montadora de Elon Musk, que promete iniciar as vendas até o fim de 2027.
O apetite dos investidores por robôs é real, mas vem carregado de cautela.
A estreia da Unitree é vista no setor como um termômetro: o primeiro teste de quanto o mercado está disposto a pagar por uma tecnologia que ainda quase não trabalha. Mais de 70% dos humanoides que a Unitree vendeu no último ano foram para pesquisa e educação, não para linhas de produção.
Analistas alertam para uma consolidação à frente. Segundo Ethan Qi, diretor associado da consultoria Counterpoint Research, existem hoje mais de 100 empresas de humanoides na China, número que deve encolher para algumas dezenas depois da primeira leva de aberturas de capital.
E há sinais de pressão mesmo sobre a líder. A Unitree teria registrado queda de 52% no lucro do primeiro trimestre de 2026, sufocada pela própria guerra de preços que ajudou a criar.
O que sustenta o entusiasmo são projeções vertiginosas de longo prazo.
O banco Morgan Stanley estima que o mercado de humanoides pode movimentar US$ 5 trilhões até 2050, com 1 bilhão de robôs em circulação. Números que explicam por que investidores se apressam em entrar antes de a tecnologia amadurecer.
Por ora, porém, o descompasso é grande entre a promessa e a realidade: em 2025, foram entregues cerca de 16 mil humanoides no mundo todo, a maioria de fabricantes chinesas.