Patrocinado por:
Dario Amodei: o que explica crise entre o CEO da Anthropic e governo dos EUA (Chance Yeh / Correspondente autônomo/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 21 de junho de 2026 às 13h54.
Em 2021, Dario Amodei deixou o cargo de vice-presidente de pesquisa da OpenAI, levou a irmã Daniela e mais seis colegas, e fundou uma empresa com uma promessa simples: construir inteligência artificial de um jeito mais seguro do que o antigo empregador.
Por mais de dois anos, a Anthropic viveu na sombra da rival — lançou o Claude pouco depois do ChatGPT, mas foi a OpenAI quem dominou as manchetes. Cinco anos depois, a Anthropic vale mais do que a empresa que a originou, e o governo dos Estados Unidos a tratou, na semana passada, como ameaça à própria segurança nacional.
A virada não foi acidental. Em vez de competir no mercado de consumidores, onde a maioria dos usuários não paga nada e a monetização depende de assinatura ou publicidade, a Anthropic apostou tudo em clientes corporativos — ferramentas de programação e produtividade que geram receita recorrente e, segundo a própria empresa, já são boas o suficiente para ajudar a melhorar a si mesmas.
A aposta funcionou. Hoje, 80% da receita da Anthropic vem de empresas, contra cerca de 40% na OpenAI.
A trajetória financeira não tem precedentes em métricas de mercado.
A receita anualizada da Anthropic era de cerca de US$ 10 milhões em 2022, passou de US$ 100 milhões em 2023 e superou US$ 1 bilhão em dezembro de 2024.
Em 2026, a curva ficou ainda mais vertical: US$ 14 bilhões em fevereiro, US$ 19 bilhões em março, US$ 30 bilhões em abril e US$ 47 bilhões em maio — um crescimento de cinco vezes em cinco meses.
Para comparação, a AWS levou 13 anos para chegar a US$ 35 bilhões em receita anual; a Anthropic fez o equivalente a partir do zero em menos de três.
O motor desse salto tem nome. O Claude Code, ferramenta de programação por IA lançada em maio de 2025, viu sua receita anualizada isolada superar US$ 1 bilhão em seis meses e chegou a US$ 2,5 bilhões em fevereiro deste ano.
O número de clientes que gastam mais de US$ 1 milhão por ano com a empresa dobrou — de 500 para mais de 1.000 — em menos de dois meses. Oito das dez maiores empresas do mundo pelo ranking da Fortune são clientes do Claude.
A avaliação de mercado acompanhou o ritmo: US$ 18 bilhões em janeiro de 2024, US$ 61,5 bilhões em março de 2025, US$ 183 bilhões em setembro do mesmo ano, US$ 380 bilhões em fevereiro de 2026 e, por fim, US$ 965 bilhões em maio — superando, pela primeira vez, a própria OpenAI, avaliada em US$ 852 bilhões em março.
Segundo a The Economist, mesmo nesse patamar, a Anthropic é negociada a cerca de 20 vezes sua receita anualizada — uma fração do múltiplo de mais de 90 vezes aplicado ao IPO recente da SpaceX. "Não é necessariamente barato, mas, nesse ritmo de crescimento, não é uma loucura", disse à publicação Harrison Rolfes, da consultoria PitchBook.
O sucesso comercial da Anthropic correu em paralelo com o discurso público de Amodei sobre os riscos da própria tecnologia que ele constrói.
O executivo publica regularmente textos defendendo regulação federal mais rígida para IA — o mais recente pedia ao governo americano que estabelecesse "regulação séria e vinculante" sobre o setor.
Enquanto rivais como a OpenAI adotaram abertamente a postura "aceleracionista" da Casa Branca em relação à IA, Amodei foi uma das vozes mais ativas defendendo mais controle estatal e estadual sobre a tecnologia.
Essa postura não foi bem recebida pelo governo Trump. David Sacks, conselheiro da Casa Branca para IA, acusou a Anthropic de praticar uma "estratégia sofisticada de captura regulatória baseada em alarmismo".
Em fevereiro, a relação já havia se rompido publicamente: a Anthropic e o Departamento de Guerra entraram em disputa sobre o uso do Claude para vigilância doméstica em massa e armas autônomas, com a empresa argumentando que as leis vigentes eram insuficientes para regular esse tipo de uso.
Trump chegou a determinar que agências federais cortassem laços com a Anthropic, cujos líderes classificou como "esquerdistas malucos".
Sacks recentemente alertou que, se o crescimento "exponencial" da Anthropic continuasse, a empresa poderia obter "controle sem precedentes sobre a tecnologia mais importante de nossa era" — em uma comparação direta ao domínio de John D. Rockefeller sobre a indústria do petróleo no século 19.
A crise mais recente nasceu de uma cooperação, não de um confronto. A Anthropic vinha trabalhando com o governo no desenvolvimento do primeiro modelo Mythos (extremamente capaz de identificar falhas de software) e permitiu que um número limitado de clientes, previamente avaliados pelas próprias autoridades, tivesse acesso à tecnologia.
Depois, criou o Fable, uma versão com salvaguardas adicionais, e a distribuiu de forma mais ampla.
O problema surgiu quando a Amazon — gigante do varejo que também é uma das principais investidoras da Anthropic — informou ao governo ter encontrado falhas de segurança no Fable capazes de contornar suas proteções.
Sacks, em publicação nas redes sociais, acusou Amodei de se recusar a corrigir a brecha. Uma fonte próxima à Anthropic nega qualquer recusa: a empresa diz ter entregado os modelos ao governo para testes semanas antes do lançamento do Fable e contesta a gravidade real do problema, argumentando que não existe controle de segurança totalmente à prova de falhas para um modelo de IA.
No centro do impasse está um vácuo regulatório genuíno.
Adam Thierer, do R Street Institute, descreve o episódio como o estopim de uma disputa interna no governo sobre se modelos como o Mythos já representam ameaça suficiente para exigir aprovação prévia antes do lançamento.
Em vez de criar uma agência reguladora dedicada — ideia que chegou a ser discutida —, Trump assinou no início do mês um decreto criando um framework voluntário de cooperação entre laboratórios de IA e o governo antes do lançamento de novos modelos. O mecanismo, porém, ainda não está em operação.
Sem essas regras, o governo recorreu às ferramentas que tinha à mão: classificar a Anthropic como "risco à cadeia de suprimentos" durante a disputa com o Pentágono, e exigir, agora, licença de exportação especial para cada venda a entidades estrangeiras, uma exigência que a própria empresa não conseguia cumprir de forma seletiva, levando ao desligamento total dos modelos.
Dean Ball, ex-funcionário do governo Trump hoje na Foundation for American Innovation, resume o risco. Para ele, sem regras claras, os Estados Unidos correm o perigo de acabar com "domínio do governo sobre a IA", em vez de "domínio americano em IA".
A tensão, no fundo, é estrutural. Faz sentido a Anthropic querer distribuir um modelo poderoso da forma mais ampla possível — é bom para o negócio, atende a uma demanda real (criminosos já usam IA para tornar ataques cibernéticos mais eficazes), e também é compreensível que o aparato de segurança nacional queira controlar uma tecnologia dessa magnitude, tanto para fins defensivos quanto ofensivos. "O aparato de segurança nacional está em modo de controle", resume Ball.
Amodei defende um modelo de regulação técnica, inspirado em agências como a aviação civil americana, com testes padronizados para modelos de fronteira.
Mas mesmo ele reconhece que a IA se tornará a "principal fonte de poder militar e econômico" à medida que os modelos avançarem, o que garante à Casa Branca, e a qualquer governo que vier depois, um interesse direto e duradouro em ter controle sobre essa tecnologia, inclusive sobre a própria Anthropic.
Nenhum dos lados saiu ganhando dessa rodada.
O governo, ao suspender abruptamente o acesso a um modelo comercial usado por centenas de milhões de pessoas, irritou usuários no mundo inteiro e expôs a fragilidade de não ter regras claras sobre IA. A Anthropic, por sua vez, ficou paralisada num momento crítico — às vésperas do próprio IPO, avaliado em torno de US$ 1 trilhão, com investidores agora atentos ao risco de que a relação turbulenta com o governo volte a gerar disrupções como essa.