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Anthropic: empresa pode ter perdido dinheiro após suspensão do Fable (NurPhoto / Colaborador/Getty Images)
Repórter
Publicado em 22 de junho de 2026 às 05h02.
O contrato que precifica as ações da Anthropic antes de sua esperada oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) caiu 3,7% no fim de semana em que o governo dos Estados Unidos ordenou a suspensão dos modelos mais avançados da empresa.
O movimento é a primeira evidência concreta, em dinheiro, de que a crise entre a dona do Claude e a Casa Branca já afeta a forma como o mercado avalia a companhia.
O contrato perpétuo da Anthropic na corretora de criptoativos Hyperliquid — instrumento que reflete a expectativa dos investidores sobre o preço da ação da empresa quando ela for a público — recuou de cerca de US$ 1.800 para US$ 1.627 no sábado, 13, um dia depois de o governo determinar a suspensão do Claude Fable 5 e do Claude Mythos 5 para usuários estrangeiros.
O contrato vinha de máximas históricas, negociado acima de US$ 1.800 nos dias seguintes ao lançamento do Fable 5, em 9 de junho.
O volume em aberto do contrato soma cerca de US$ 8,6 milhões, uma fração do volume negociado em ativos como o contrato perpétuo da SpaceX, que também estreou recentemente nesse tipo de mercado.
Ainda assim, o tamanho relativamente pequeno não impediu uma reação imediata: o mercado de cripto passou a precificar a suspensão como um fator negativo para as chances de sucesso do IPO da Anthropic, segundo a CoinDesk.
A queda ocorreu horas depois de a Anthropic anunciar, em comunicado, que havia recebido a diretiva do governo às 17h21, no horário de Brasília, de sexta-feira, 12 de junho, e que precisaria desativar imediatamente os dois modelos para todos os usuários — não apenas estrangeiros — por não conseguir aplicar a restrição de forma seletiva em tempo real.
O episódio chega num momento delicado para a trajetória de receita da empresa.
Segundo a consultoria FutureSearch, a Anthropic vinha registrando avanço de cerca de US$ 96 milhões em receita anualizada por dia antes da suspensão — ritmo que projetava receita entre US$ 58 bilhões e US$ 149 bilhões até maio de 2027, com cenário central em US$ 93 bilhões.
A consultoria estimou que a suspensão deve ampliar os prazos e os riscos de praticamente todas as projeções para a empresa, mesmo sem alterar de forma significativa o núcleo comercial do negócio: o Claude Code, principal motor de receita da Anthropic, roda sobre os modelos Opus e Sonnet, que não foram afetados pela ordem do governo.
A FutureSearch projeta que os modelos suspensos sejam restabelecidos em uma data mediana de 22 de julho de 2026, com cenário mais otimista ainda em junho e mais pessimista se estendendo até janeiro de 2027, uma faixa de incerteza que, segundo a consultoria, é o principal fator de risco hoje para o calendário do IPO, estimado para dezembro.
A queda no contrato perpétuo se soma a um debate mais amplo sobre o tamanho da avaliação da Anthropic. A empresa havia sido avaliada em US$ 965 bilhões em maio, após uma rodada Série H de US$ 65 bilhões — superando, pela primeira vez, a avaliação da OpenAI, de US$ 852 bilhões.
Mesmo nesse patamar, analistas da PitchBook consideravam o múltiplo da Anthropic (cerca de 20 vezes a receita anualizada) moderado para os padrões do setor, dado o crescimento de cinco vezes em cinco meses registrado pela empresa.
Mas o caso Fable 5 expõe um risco que vai além do múltiplo: a dependência da Anthropic de uma relação estável com o governo americano para operar seus produtos mais avançados.
Segundo a própria Anthropic, aplicar o padrão usado pelo governo para justificar a suspensão "praticamente paralisaria todos os lançamentos de novos modelos para todos os provedores de IA de fronteira" — um argumento que, se levado a sério pelo mercado, sugere que o risco regulatório passou a fazer parte do cálculo de valuation da empresa, não apenas de sua operação do dia a dia.