(Imagem gerada por IA/Wikimedia Commons)
Repórter
Publicado em 15 de junho de 2026 às 13h03.
Em 29 de setembro de 1916, os jornais americanos estamparam na primeira página uma notícia inédita: a valorização das ações da Standard Oil havia tornado John D. Rockefeller o primeiro bilionário confirmado da história.
Sua fortuna foi estimada em US$ 1 bilhão — uma cifra tão absurda para a época que parecia ficção científica. Exatamente 110 anos depois, Elon Musk tornou-se o primeiro trilionário da história.
A distância entre os dois marcos resume uma das transformações mais radicais já ocorridas na economia global.
A comparação direta é que Musk é 1.200 vezes mais rico do que Rockefeller era quando se tornou o primeiro bilionário do mundo. Mas essa conta é enganosa. E a história por trás dela é mais complexa e mais reveladora do que o número sugere.
John Davison Rockefeller nasceu em 1839 numa família modesta em Richford, Nova York.
Filho de um viajante vendedor e de uma mãe religiosa que lhe ensinou disciplina financeira desde cedo, Rockefeller desenvolveu desde adolescente um talento incomum para aritmética e organização. Começou como contador, economizou cada centavo e, aos 26 anos, fundou a Standard Oil Company em Cleveland, em 1870.
O que veio a seguir foi uma das maiores concentrações de poder econômico da história americana.
Em menos de duas décadas, a Standard Oil controlava cerca de 90% de todo o refino de petróleo dos Estados Unidos, por meio de acordos secretos com ferrovias, aquisições agressivas de concorrentes e práticas que o governo federal acabaria classificando como monopólio ilegal.
Em 1911, a Suprema Corte americana ordenou o desmembramento da empresa em 34 companhias menores.
Mesmo com o desmembramento, Rockefeller continuou sendo o maior acionista de todas as empresas resultantes.
Em 29 de setembro de 1916, a valorização das ações empurrou sua fortuna para além de US$ 1 bilhão, tornando-o o primeiro bilionário confirmado da história. Ele tinha 77 anos. No pico de sua riqueza, acumulou US$ 1,4 bilhão, equivalente a cerca de 1,5% do PIB americano da época.
Ajustado pela inflação, o US$ 1 bilhão de Rockefeller em 1916 equivale a aproximadamente US$ 30 bilhões em valores atuais.
É uma fortuna expressiva, mas colocaria Rockefeller na faixa dos 30 americanos mais ricos de hoje, não no topo da lista.
A comparação mais reveladora é proporcional. Rockefeller controlava cerca de 1,5% a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) americano no auge de sua riqueza. Musk, com US$ 1,2 trilhão, representa aproximadamente 4,1% do PIB americano atual — estimado em cerca de US$ 29 trilhões em 2026. Em termos proporcionais, Musk é hoje mais de duas vezes mais rico do que Rockefeller era em seu momento de maior riqueza.
As histórias dos dois homens têm paralelos surpreendentes. Rockefeller identificou cedo que o petróleo seria o combustível que moveria o mundo industrial, e construiu sua fortuna não produzindo petróleo, mas controlando sua distribuição e refino.
Musk identificou que o acesso à órbita terrestre seria a infraestrutura crítica da próxima era, e construiu a SpaceX não para fazer ciência, mas para reduzir o custo de lançamento a ponto de tornar viável um ecossistema comercial inteiro de serviços espaciais.
Rockefeller tinha a Standard Oil. Musk tem o Starlink — que em 2025 gerou US$ 11,4 bilhões em receita com margem EBITDA de 63%, segundo o prospecto S-1 da SpaceX arquivado na SEC. Os dois construíram fortunas sobre infraestruturas que ninguém mais controlava.
Há também diferenças estruturais importantes. A fortuna de Rockefeller estava ancorada em ativos físicos, refinarias, oleodutos, terras, participações em ferrovias.
A de Musk está majoritariamente em ações, ativos que podem valorizar ou desvalorizar dezenas de bilhões de dólares num único pregão.
Em 2022, Musk perdeu mais de US$ 200 bilhões em patrimônio em poucos meses quando as ações da Tesla despencaram. Rockefeller nunca enfrentou uma oscilação desse tipo.
Rockefeller levou cerca de 46 anos para construir sua fortuna de US$ 1 bilhão — da fundação da Standard Oil em 1870 ao marco de 1916. Musk levou menos de cinco anos para ir de US$ 25 bilhões, em 2020, para US$ 1,2 trilhão em 2026.
Em termos absolutos, ele adicionou mais riqueza em seis anos do que Rockefeller acumulou em toda a vida.
A velocidade reflete uma diferença estrutural entre as duas eras. Rockefeller construiu sua fortuna num mundo em que riqueza era criada principalmente pelo controle de ativos físicos e pela eficiência operacional.
Musk construiu a sua num mundo em que mercados de capitais globais podem precificar décadas de crescimento futuro numa única tarde de pregão.
Rockefeller doou mais de US$ 500 milhões em vida, financiou a Universidade de Chicago, criou o Instituto Rockefeller de Pesquisa Médica, que mais tarde se tornou a Universidade Rockefeller, e fundou a Rockefeller Foundation em 1913, que existe até hoje.
Ele morreu em 1937, aos 97 anos, com fortuna estimada em US$ 1,4 bilhão.
Musk ainda está no meio do jogo. Sua fortuna pode crescer mais, ou desaparecer parcialmente num mercado adverso. O que já está registrado é o marco: 110 anos após Rockefeller se tornar o primeiro bilionário, Musk se tornou o primeiro trilionário.
O intervalo entre um marco e o outro foi de um século. O intervalo entre US$ 1 bilhão e US$ 1 trilhão foi de 1.000 vezes. A questão que ninguém ainda consegue responder é quanto tempo vai levar para o próximo marco — e quem vai chegar lá primeiro.