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IPO de US$ 2 trilhões da Anthropic expõe a conta bilionária para manter o Claude

Com US$ 518 bilhões comprometidos em chips e nuvem, prospecto de IPO revela o custo real para manter a infraestrutura e a evolução do Claude

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 29 de setembro de 2026 às 10h59.

Última atualização em 29 de setembro de 2026 às 16h52.

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A Anthropic prepara uma oferta pública inicial (IPO) que pode avaliar a empresa em mais de US$ 2 trilhões, mas o prospecto revela o desafio central da inteligência artificial: transformar crescimento acelerado em um negócio sustentável. A dona do Claude registrou receita de US$ 4,59 bilhões em 2025, mas gastou US$ 7,33 bilhões com servidores e chips e prevê US$ 518 bilhões em compromissos futuros de infraestrutura. A disputa pelo mercado passa por reduzir o custo por tarefa, equilibrar margens e competir com modelos chineses mais baratos.

Há uma linha tênue entre a expectativa e a realidade — e a indústria de inteligência artificial (IA) está prestes a descobrir se isso também se aplica a ela. Na madrugada desta terça-feira, 29, a Reuters divulgou o prospecto da oferta pública inicial (IPO) da Anthropic, que pode avaliar a empresa em mais de US$ 2 trilhões, o que a tornaria a maior abertura de mercado. No documento, em vez de falar só dos números, a dona do Claude também repetiu os alertas de que a IA pode representar um risco existencial para a humanidade.

O prospecto, o documento que a empresa entrega à SEC, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, para abrir capital, é o retrato mais detalhado até agora de uma companhia cujo crescimento vertiginoso vinha alimentando expectativas de todo o mercado. O que o documento mostra é que essa espera tem um custo, e que ele está sobretudo nos chips e na energia que fazem o Claude funcionar.

Em 2025, a Anthropic reduziu o peso da computação sobre a receita e, para cada US$ 1 recebido, gastou US$ 1,60 com infraestrutura, contra mais de US$ 6 no ano anterior. Ainda assim, a empresa encerrou o período no vermelho e prevê US$ 518 bilhões em obrigações futuras com nuvem, computação e infraestrutura.

A receita chegou a US$ 4,59 bilhões em 2025, quase 12 vezes acima do ano anterior, enquanto os custos de servidores e chips cresceram para US$ 7,33 bilhões. O prejuízo líquido de quase US$ 42 bilhões foi influenciado por US$ 34 bilhões em efeitos contábeis, segundo a Reuters, enquanto o prejuízo operacional subiu de US$ 2,98 bilhões para US$ 8,06 bilhões.

Em 2026, a receita acelerou. No segundo trimestre, alcançou US$ 11,5 bilhões, acima do faturamento de todo o ano anterior, e a receita anualizada passou de US$ 65 bilhões em julho, com projeção de superar US$ 100 bilhões no ano.

A tese que o prospecto sustenta é que a IA de ponta — os modelos mais avançados do mercado — é, antes de tudo, um negócio de infraestrutura. A receita cresce rápido, mas cada token vendido depende de chips e energia contratados com anos de antecedência e de um preço que os rivais chineses pressionam.

A versão que a agência viu é confidencial, e a Anthropic não comentou o assunto até o momento.

Quanto vale um token?

A Anthropic cobra por milhão de tokens, os pedaços de texto, palavras ou partes delas, que o modelo lê e escreve. O Sonnet 5.5 custa US$ 2 na entrada e US$ 10 na saída, e o Opus 5, US$ 5 e US$ 25. Cerca de 86% da receita de 2025 devia vir da venda de modelos a empresas por API, e o restante, de assinaturas do chatbot, segundo estimativa do The Information.

A conta por token melhorou, mas ainda deixa pouco espaço. A margem bruta, o que sobra da receita depois do custo de rodar os modelos para os clientes, a chamada inferência, era negativa em 94% em 2024, segundo o The Information.

A empresa projetava cerca de 40% para 2025, dez pontos abaixo da meta, porque a inferência em servidores de Google e Amazon custou 23% mais que o previsto, e a meta é chegar a 77% em 2028. A consultoria SemiAnalysis estima cerca de 60% em 2026.

Nem todo mundo acredita que a proporção continue melhorando. "Os custos nesta indústria crescem com a receita, e os balanços de todas as empresas de IA que vi mostram a mesma coisa. Você cresce para perdas maiores, não para fora delas", diz o perfil Hedgie Markets (@HedgieMarkets), que comenta o mercado no X (antigo Twitter).

O token é, ao mesmo tempo, o motor e a armadilha. Quanto mais o cliente usa, mais a Anthropic fatura, mas cada token consome chips e energia, e agentes como o Claude Code tendem a gastar muito mais tokens por tarefa do que em uma conversa. Por isso, Anthropic e OpenAI vêm migrando clientes corporativos de assinaturas de valor fixo para cobrança por consumo, e algumas empresas responderam impondo tetos de gasto.

SAN FRANCISCO, CALIFÓRNIA - 15 DE SETEMBRO: O CEO da Anthropic, Dario Amodei, discursa durante a palestra de abertura na conferência Dreamforce da Salesforce, no Moscone Center, em 15 de setembro de 2026, em São Francisco, Califórnia. A Dreamforce é um evento anual que destaca as tecnologias da empresa e incentiva o networking profissional. Benjamin Fanjoy/Getty Images/AFP (Foto de Benjamin Fanjoy / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)

Dario Amodei, da Anthropic (Benjamin Fanjoy / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images /AFP)

A concorrência aperta o outro lado da conta. Os preços dos principais laboratórios americanos caíram quase um quarto desde meados de julho, segundo o índice de preços de tokens da Silicon Data, e os modelos chineses já respondiam por cerca de 61% dos tokens processados no OpenRouter, plataforma que reúne modelos de vários laboratórios.

O Qwen Plus, da Alibaba, cobra US$ 0,40 por milhão de tokens de entrada, contra US$ 5 do Claude Opus, cerca de 12,5 vezes menos. A DoorDash delegou "tarefas de nível inferior" ao Kimi, da Moonshot, e reservou o Fable, da Anthropic, para as mais complexas, segundo o Financial Times.

A resposta da Anthropic é mudar a unidade da disputa, do preço por token para o custo por tarefa. O Sonnet 5.5 manteve o preço por token, mas usa menos tokens para o mesmo trabalho e custa até 30% menos por tarefa, e o Opus 5.5 custa 40% menos para rodar que o Opus 5 em usos típicos, segundo a empresa. Pela consultoria Artificial Analysis, o Opus 5, em esforço médio, entregou desempenho e custo por tarefa semelhantes aos do Kimi K3 em esforço máximo.

O modelo se sustenta enquanto o custo de rodar cada token cair mais rápido que o preço, o volume crescer o suficiente para diluir compromissos como os US$ 518 bilhões e os clientes aceitarem pagar mais que os rivais chineses pela qualidade. Nenhuma das três condições está garantida.

Esse compromisso equivale a mais de 25 vezes o caixa de US$ 20,28 bilhões que a empresa tinha em 31 de dezembro. O valor é quase igual à estimativa de US$ 517 bilhões do The Information para os contratos de computação fechados em 11 meses, mas as reportagens não dizem que sejam a mesma conta.

O risco está no descompasso. Do lado dos fornecedores, os compromissos são longos, embora nem todos sejam rígidos: o contrato com a SpaceX, que vai até maio de 2029, pode ser cancelado com 90 dias de aviso, segundo o The Information. Do lado dos clientes, quase um quarto da receita de 2025 veio de apenas dois, e muitos dos maiores não têm contratos de longo prazo e podem reduzir ou interromper os gastos, segundo a Reuters. Ou seja, a Anthropic tem custos que vencem em anos e receita que pode sair em meses.

Os capítulos do prospecto

No prospecto, cerca de 80 das 261 páginas são voltadas para os riscos da empresa, contra 48 sobre o negócio, segundo a Reuters — algo que não é muito comum no mercado.

O da SpaceX, por exemplo, dedicou cerca de 38 de 277 páginas a riscos. "Já li muitos prospectos de IPO. Nunca vi um em que a empresa dedicasse mais páginas ao que pode dar errado do que ao que o negócio faz", diz o Hedgie Markets.

O capítulo serve a dois propósitos. Um é jurídico: como em qualquer prospecto, a empresa avisa o investidor do que pode dar errado, de modelos que resistem ao desligamento, ocultam informações ou agem de forma parecida com chantagem a testes controlados em que sistemas autônomos sabotaram código, segundo a Reuters. O outro é técnico.

"A possível percepção dos modelos sobre nossos esforços de avaliação cria uma limitação significativa para avaliar a segurança dos modelos", diz o prospecto, segundo a agência.

O alarme também vem de dentro. Evan Hubinger, que lidera pesquisas de alinhamento na Anthropic, estimou neste mês em mais de 10% a chance de a IA matar todos os humanos na próxima década, e disse que o risco dos modelos atuais é baixo. "Acredito que a Anthropic está se esforçando ao máximo, mas ainda não temos um plano para resolver o alinhamento para a superinteligência, e não estamos claramente no caminho para isso", afirma.

Ele respondia a Jacob Coxon, pesquisador que deixou a Anthropic no dia 8, dois meses antes de suas ações serem liberadas, e escreveu que as pessoas que constroem IA "acreditam, sinceramente, que ela pode nos matar a todos até o fim da década".

A cautela tem custo. A empresa diz ter optado por não desenvolver ofertas rentáveis, como modelos de imagem e vídeo, para direcionar a computação à pesquisa e à segurança, e não informou quanto investe em pesquisa de segurança, segundo a Reuters.

Em Wall Street, a conta é feita sobre o valor. A rodada de maio avaliou a empresa em US$ 965 bilhões, e o IPO pode chegar a mais de US$ 2 trilhões, segundo a Reuters. A esse valor, a Anthropic valeria cerca de 31 vezes a receita anualizada de US$ 65 bilhões de julho, ou cerca de 20 vezes os US$ 100 bilhões projetados, conta aproximada que compara valor de mercado com faturamento projetado para 12 meses.

É possível parar?

Para parte do mercado, a empresa não tem como frear. "É preciso ter proteções do ponto de vista da segurança, mas, se Anthropic e OpenAI desacelerassem, a China simplesmente aceleraria e venceria, e acho que parte desse atoleiro é que existe alguma captura regulatória em curso. Há definitivamente um jogo de pôquer, mas a Anthropic tem de continuar pisando no acelerador", diz Dan Ives, analista da Wedbush, em declaração à CNBC. Captura regulatória é a situação em que empresas moldam as regras a seu favor.

Quem comprar ações comprará participação numa empresa cujo controle não estará à venda. Sete cofundadores formarão a Founder LLC, que controlará uma ação especial com 50,1% do poder de voto em temas centrais, e o Long-Term Benefit Trust, comitê criado para zelar pela missão da empresa, escolherá os outros quatro conselheiros, segundo a Reuters. Os investidores comuns terão ações classe A, com um voto por ação.

Os trechos divulgados até agora deixam quatro perguntas em aberto: a margem bruta, a divisão do gasto de computação entre treinar modelos e atender clientes, a forma como é contabilizada a receita vendida por Amazon, Google e Microsoft e a identidade dos dois maiores clientes. A versão pública precisa ser arquivada ao menos 15 dias antes do início da apresentação a investidores, e a estreia deve ficar para depois das eleições legislativas de novembro.

O IPO da Anthropic será o teste público de uma tese que ainda precisa ser comprovada: a de que uma empresa de inteligência artificial consegue transformar uma demanda crescente por computação em um negócio sustentável antes que a infraestrutura limite a expansão.

Perguntas frequentes

Quanto pode valer a Anthropic em um IPO?

A Anthropic pode ser avaliada em mais de US$ 2 trilhões em sua oferta pública inicial, segundo informações divulgadas pela Reuters. A esse valor, a empresa seria uma das maiores aberturas de capital já registradas.

Quanto a Anthropic faturou em 2025?

A Anthropic registrou receita de US$ 4,59 bilhões em 2025, quase 12 vezes acima do ano anterior. No mesmo período, os custos de servidores e chips chegaram a US$ 7,33 bilhões.

Por que a Anthropic ainda tem prejuízo mesmo com crescimento da receita?

O crescimento da inteligência artificial exige altos investimentos em infraestrutura. A Anthropic precisa contratar capacidade de computação, chips e energia para operar modelos como o Claude, o que mantém os custos elevados mesmo com a expansão das vendas.

O que são tokens no modelo de negócios da Anthropic?

Tokens são unidades de texto processadas pelos modelos de inteligência artificial. A Anthropic cobra clientes pelo volume de tokens utilizados, mas cada token consumido também gera custos de processamento em servidores.

Qual é o principal desafio financeiro da Anthropic?

O desafio é fazer o custo de operação dos modelos cair mais rápido que o preço cobrado dos clientes. A empresa precisa aumentar a eficiência da computação, expandir o uso dos modelos e manter clientes dispostos a pagar por seus serviços.

Quanto a Anthropic pretende gastar com infraestrutura?

Segundo o prospecto divulgado, a empresa prevê US$ 518 bilhões em obrigações futuras relacionadas a nuvem, computação e infraestrutura.

Quem são os principais concorrentes da Anthropic?

A Anthropic disputa o mercado de inteligência artificial com empresas como OpenAI, Google e laboratórios chineses, incluindo Alibaba e Moonshot. A concorrência envolve desempenho dos modelos, preço por uso e custo de operação.

Por que a Anthropic dedica tantas páginas do prospecto aos riscos?

Segundo a Reuters, cerca de 80 das 261 páginas do prospecto são dedicadas a riscos. A empresa descreve desafios jurídicos, técnicos e de segurança relacionados ao desenvolvimento de modelos avançados de inteligência artificial.

O que está em jogo no IPO da Anthropic?

A oferta pública será um teste para a tese de que empresas de inteligência artificial conseguem transformar uma demanda crescente por computação em negócios sustentáveis, equilibrando receita, custos de infraestrutura e investimentos de longo prazo.

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