Leicester: vitoriosos improváveis em 2016, o time gastou além do que podia e entrou em um espiral (Eddie Keogh Livepic)
Redação Exame
Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 15h04.
Na Premier League de 2016, a história do campeão daquela edição do torneio cativou torcedores de todo o Reino Unido. O Leicester City desafiou todas as probabilidades e conquistou o título inglês pela primeira vez em seus 142 anos de história.
A história inspiradora pode remeter o torcedor brasileiro à trajetória do Mirassol no Brasileirão de 2025, quando estreou na Série A e terminou o Campeonato como o 4° colocado, garantindo uma vaga na fase de grupos da Libertadores de 2026.
Porém, na Inglaterra, o otimismo dos antigos campeões já acabou.
Em 2 de maio de 2026, dez anos após terem levantado a taça da Premier League, o Leicester entra em campo contra o Blackburn com o futuro ameaçado no Championship, a segunda divisão inglesa. Há o risco real de rebaixamento do time cair para a terceira divisão do futebol inglês.
Esse tombo é resultado de uma combinação de punições financeiras, gestão arriscada e desempenho esportivo abaixo do esperado.
O clube foi punido com a perda de seis pontos por violar as regras de lucro e sustentabilidade (Profit and Sustainability Rules, P&S), sanção que o arrastou para a beira da zona de rebaixamento, permanecendo fora apenas no saldo de gols.
A situação se agravou com a sequência recente de resultados: o Leicester somou apenas um ponto nos últimos quatro jogos do Championship.
O King Power International Group, proprietário do clube desde 2010, classifica a punição como “desproporcional”, mas a comissão rejeitou o argumento de cooperação excepcional apresentado pela diretoria.
A trajetória descendente contrasta com o período de ouro vivido após o título da Premier League de 2016. Além da conquista histórica, o Leicester venceu a Copa da Inglaterra em 2021, disputou a Liga dos Campeões e participou de duas edições da Liga Europa.
Na temporada 2021-22, chegou à semifinal da Conference League, quando foi eliminado pela Roma.
Os bons resultados levaram a diretoria a acreditar que o clube havia se consolidado entre os principais do Reino Unido, e o time gastou como tal.
“Tentamos jogar com os grandes e não conseguimos”, afirmou Lynn Wyeth, presidente do Foxes’ Trust, fundo de apoio ao Leicester City, à BBC Sport. Segundo ela, o modelo adotado não condizia com o tamanho nem com o orçamento do clube, o que deu início a uma “espiral descendente”.
Entre as temporadas 2021-22 e 2022-23, o Leicester gastou pouco mais de 100 milhões de libras na contratação de seis jogadores.
O problema não se limitou às taxas de transferência: a folha salarial disparou e chegou a 206 milhões de libras. Também à BBC Sport, o especialista em finanças do futebol, Kieran Maguire, disse que o clube “orçou como se fosse, no mínimo, um time de top-8”, sem considerar cenários negativos.
Outro agravante foi a ausência de cláusulas de redução salarial em caso de rebaixamento, comuns em contratos da Premier League.
Na temporada 2022-23, que terminou com o rebaixamento do Leicester, o time gastou 116% de sua receita apenas com salários. Em 2023-24, esse índice ainda era de 102%, com uma folha de 107 milhões de libras, considerada por Maguire “sem precedentes para um clube da segunda divisão”.
Comparativamente, Leeds e Southampton, também rebaixados anteriormente, tinham folhas salariais de 84 milhões e 80 milhões de libras, respectivamente, enquanto a média da competição era de 29 milhões.
O excesso de gastos levou a um estouro do limite das regras financeiras em 20,8 milhões de libras, fator determinante para a atual punição.
Apesar das dificuldades e do custo foi elevado, o time conquistou o título do Championship em 2024. Com isso, o Leicester estava de volta à Premier League para a próxima temporada.
Os problemas financeiros do time persistiram mesmo após o retorno à elite. A partir desse momento, o clube passou a depender da venda de jogadores para equilibrar as contas, estratégia que, a longo prazo, comprometeu seu rendimento dentro de campo.
Com uma campanha ruim no campeonato mais rico do mundo, o Leicester caiu novamente para o Championship na temporada seguinte.
Fora de campo, o clima também é de instabilidade. Protestos da torcida se intensificaram, incluindo boicotes e manifestações contra a falta de transparência.
Atualmente, o Leicester está sem técnico efetivo após a demissão de Marti Cifuentes (com apenas seis meses no cargo), nem diretor-executivo ou diretor técnico permanentes.
O Leicester só disputou a terceira divisão uma vez em sua história, na temporada 2008-09, quando foi campeão e conseguiu o acesso ao Championship.