Repórter
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 08h00.
Os maiores clubes brasileiros bateram recordes de faturamento e endividamento em 2025. As 20 equipes com maior receita somaram R$ 15 bilhões, avanço de 36% em relação ao ano anterior. No mesmo período, as dívidas chegaram a R$ 16 bilhões, também o maior valor da série, segundo levantamento da Sports Value, consultoria de negócios esportivos.
O contraste expõe um dos principais desafios do futebol brasileiro: transformar o crescimento das receitas em geração de caixa e equilíbrio financeiro. É nesse cenário que a reforma tributária acrescenta uma variável às decisões de presidentes, investidores e executivos, com possíveis efeitos sobre contratos, custos e recursos disponíveis para a operação.
A mudança ocorre em meio à expansão das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), que ampliou a presença de investidores no setor e reforçou o debate sobre governança, retorno sobre o capital e avaliação dos negócios.
Cinco anos da Lei da SAF: o que mudou de fato no futebol brasileiro?Para Ulisses Brondi, CEO da ASIS Tax Tech, a dificuldade financeira dos clubes não se resume à capacidade de aumentar o faturamento.
“O problema não é efetivamente a receita. A raiz disso está na administração dos clubes, principalmente no que diz respeito à governança. À medida que o clube tem governança, passa a ter mais sustentação de caixa e consegue diminuir a antecipação de receitas, que hoje é um modelo muito comum, principalmente com direitos esportivos”, explica, em entrevista à EXAME.
Amir Somoggi, diretor-geral da Sports Value e especialista em marketing esportivo e valuation, também aponta a necessidade de conciliar expansão das receitas e controle financeiro. Segundo ele, a pressão por resultados esportivos leva parte dos clubes a recorrer a empréstimos e antecipações, sem garantia de retorno.
“Existem bons exemplos de clubes que seguem esse padrão, com equilíbrio ajustado entre receita e dívida. Mas, há muitos casos de SAFs que são pessimamente geridas do ponto de vista financeiro. Isso gerou uma bolha de empréstimos, antecipações e alavancagem com juros altíssimos. E como resultado, os clubes pagam despesas financeiras monstruosas só para ficar em dia, e muitas vezes nem assim conseguem ser campeões”.
Nesse ambiente, nem mesmo as premiações por títulos asseguram um resultado positivo no balanço.
“É comum um clube ser campeão da Libertadores ou do Brasileiro, faturar alto em premiações, e mesmo assim fechar no vermelho. Porque nunca é suficiente. Enquanto não houver regulação séria para controlar as despesas dos clubes — especialmente com salários — teremos essa discrepância entre crescimento absurdo de receita e descontrole financeiro total”, afirma Somoggi.
A dimensão das receitas envolvidas ajuda a explicar a preocupação com as mudanças tributárias. Em 2025, as transferências de jogadores superaram R$ 4 bilhões entre os 20 maiores clubes brasileiros. Os direitos de transmissão somaram R$ 4,8 bilhões, enquanto as receitas de marketing chegaram a R$ 3,2 bilhões, segundo a Sports Value.
Essas fontes de recursos estão entre as operações que, de acordo com Brondi, precisarão ser reavaliadas durante a implementação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços).
Isso não significa, porém, que todas as receitas terão o mesmo tratamento ou que os efeitos serão iguais para SAFs e associações. A análise precisa considerar o regime de cada organização, a natureza da operação e a etapa da transição.
Brondi pondera que também não é possível concluir, de maneira generalizada, que todos os clubes terão aumento da carga efetiva.
“Tecnicamente, não podemos afirmar que os clubes vão pagar mais tributos. Há novas receitas que serão tributadas, mas também despesas que podem gerar créditos”, esclarece.
A possibilidade de compensação mencionada pelo executivo exige uma ressalva: não deve ser presumida para qualquer despesa ou aplicada indistintamente aos diferentes modelos de clube. Antes de projetar uma redução no imposto a pagar, será necessário verificar quais créditos são permitidos no regime correspondente.
Para Brondi, o risco está em manter contratos e estruturas financeiras desenhados sob as regras anteriores sem calcular os efeitos das mudanças.
A revisão ganha importância porque boa parte das relações comerciais do futebol é estabelecida por contratos de longo prazo. Acordos de patrocínio, transmissão, licenciamento e fornecimento podem atravessar diferentes etapas da transição tributária.
Um contrato assinado hoje pode, portanto, continuar em vigor sob condições distintas das consideradas na negociação. Os clubes precisarão avaliar como essas mudanças afetam os valores a receber, os pagamentos e a distribuição de custos entre as partes.
“Os clubes vão ter que olhar contrato a contrato, fornecedor a fornecedor”, afirma Brondi.
Na avaliação do executivo, essa análise também deve alcançar as condições das contratações. Nos casos em que o regime permitir o aproveitamento de créditos, o tratamento tributário da operação pode influenciar seu custo efetivo.
Isso não torna a troca de fornecedor uma consequência automática da reforma. A decisão precisa considerar o conjunto da contratação, incluindo preço, qualidade, condições de pagamento e eventuais créditos permitidos.
Na prática, a gestão tributária passa a exigir maior integração entre os departamentos financeiro, fiscal, de marketing, recursos humanos e compras, além das áreas responsáveis pelas operações do futebol.
As mudanças também podem influenciar o valuation, ou seja, o valor atribuído ao negócio. Segundo Brondi, a combinação de dívida elevada e baixa geração de caixa já dificulta a atração de investidores. Uma eventual pressão adicional sobre os recursos disponíveis precisa entrar nas projeções financeiras.
“Se tenho uma equação econômica para fazer um investimento e meu caixa já é curto, com a Reforma Tributária ele pode se tornar ainda mais negativo. Automaticamente, o valuation dessa empresa pode diminuir.”
A preocupação não se limita ao valor do imposto. Brondi também chama atenção para o momento do recolhimento e para seus efeitos sobre o capital de giro.
Na avaliação dele, mecanismos que separem o tributo dos recursos recebidos pelo vendedor, quando implementados e aplicáveis à operação, podem reduzir a disponibilidade temporária de dinheiro para financiar as atividades do clube. Esse efeito, contudo, não deve ser apresentado como uma mudança imediata e uniforme em todos os recebimentos.
“No futebol, não é mais apenas quanto o clube fatura. É quanto dessa receita efetivamente se transforma em caixa e resultado.”
Somoggi acrescenta que a dificuldade de alcançar o equilíbrio financeiro também aparece entre as SAFs, que podem depender de novos aportes para sustentar suas operações. Segundo os dados citados pelo executivo, as principais SAFs brasileiras acumularam prejuízo de R$ 1,5 bilhão em 2025 e de R$ 3,3 bilhões nos últimos quatro anos.
“O problema não é apenas o modelo empresarial. É um padrão que já se repetiu em vários momentos do futebol brasileiro: clubes se endividando na tentativa de ser campeões, de fortalecer o time para gerar receita, que na verdade não chega, porque o equilíbrio financeiro nunca se concretiza.”
A reforma acrescenta um componente ao debate sobre a transformação de clubes associativos em empresas. Além de endividamento, acesso a capital e governança, a decisão passa pela comparação dos efeitos tributários sobre cada estrutura.
Brondi e Somoggi avaliam que esse fator pode ampliar o interesse pelo modelo de SAF. A hipótese, porém, não significa que a migração será financeiramente vantajosa para qualquer clube: essa conclusão depende das receitas, das despesas e das regras aplicáveis a cada caso.
“Virar SAF pode até se tornar o último incentivo que faltava para os clubes migrarem para esse modelo”, afirma Somoggi.
Mesmo quando houver uma vantagem tributária, a adoção do formato empresarial não resolve, por si só, os problemas financeiros. Os prejuízos observados em parte das SAFs mostram que a sustentabilidade continua dependente da gestão de despesas, investimentos e dívidas.
Somoggi também vê o risco de diferenças tributárias afetarem a capacidade de competir, ao alterarem os recursos disponíveis para contratar atletas e manter os elencos.
“Pode haver desequilíbrio esportivo por razões puramente tributárias.”
Na avaliação dele, esse possível efeito se soma às diferenças de acesso a investidores e financiamento, aumentando a pressão sobre associações que já enfrentam dificuldades financeiras.
O mercado de transferências é outro ponto de atenção. Para clubes que dependem da negociação de atletas para equilibrar as contas, eventuais mudanças na tributação precisam entrar no cálculo do valor líquido recebido.
Brondi não espera uma redução significativa do volume de negócios, mas considera possível que determinadas operações se tornem mais caras. Trata-se de uma projeção do executivo, e não de um efeito uniforme sobre todas as transferências.
A análise deve levar em conta as características da negociação e o regime tributário do clube. A possibilidade de compensar um custo adicional com um preço de venda maior também depende das condições do mercado e do poder de negociação das partes.
Somoggi destaca uma dificuldade adicional para o planejamento: “As receitas de transferência não são previsíveis”.
Isso limita a capacidade de contar antecipadamente com esses recursos para cobrir despesas e compromissos. Em outras fontes de receita, como patrocínios e bilheteria, eventuais reajustes também não são automáticos: dependem dos contratos, da demanda e do espaço comercial para repassar custos.
Nem todos os clubes chegam à transição nas mesmas condições. Brondi identifica três grupos mais vulneráveis: os que têm dificuldade de gerar caixa, os que carregam elevado endividamento tributário e os que mantêm estruturas frágeis de governança e compliance.
“Clubes com dificuldade de caixa são os primeiros que podem sentir os impactos. Depois, colocaria aqueles com alto endividamento tributário, que vão conviver com tributos não pagos no passado e com uma nova jornada daqui para frente. E, em terceiro, os clubes que não têm compliance ou governança.”
Para essas organizações, o risco não está apenas em um eventual aumento de custos. A falta de controles também dificulta antecipar os efeitos das mudanças e adaptar contratos e processos.
Somoggi concorda que clubes com margens apertadas ou prejuízos terão menos espaço para absorver pressões adicionais. Na avaliação dele, organizações com maior disponibilidade de caixa e melhores condições de negociação de atletas tendem a ter mais capacidade de adaptação.
Já os clubes muito endividados precisam conciliar o financiamento da operação com juros e outras despesas financeiras. Se houver aumento da carga efetiva, a pressão se somará a compromissos que já consomem parte das receitas.
Para Brondi, o principal erro seria esperar a transição avançar para só então adaptar a gestão. A recomendação é organizar uma estrutura responsável por avaliar os efeitos da reforma em toda a operação.
“O primeiro passo é criar um comitê da Reforma Tributária. Esse comitê precisa ter representantes de marketing, financeiro, fiscal, RH e dos demais departamentos para medir o impacto da reforma em cada área.”
O trabalho envolve revisar contratos, mapear fornecedores, projetar efeitos sobre o caixa e identificar possibilidades de aproveitamento de créditos, quando previstas no regime aplicável. Também exige acompanhar a regulamentação e as diferentes etapas da implementação.
“Todos os contratos atuais, tanto pela ótica do fornecedor quanto pelo pagamento de tributos e pelo caixa, vão exigir revisão. Não dá para virar de 2026 para 2027 entendendo que o que eu vou receber ou pagar de tributo será a mesma coisa”, diz Brondi.
O alerta é para a necessidade de preparação, não para a conclusão de que todos os efeitos da Reforma Tributária ocorrerão de uma só vez.
Na avaliação do executivo, esse esforço pode estimular a profissionalização administrativa, independentemente do modelo jurídico adotado pelo clube.
“A partir do momento em que você olha para um clube como empresa, muda completamente o aspecto tributário, administrativo e de compliance. A maior maturidade dos clubes e a departamentalização podem nos aproximar dos modelos internacionais.”
Em um setor marcado pelo crescimento simultâneo de receitas e dívidas, a reforma reforça uma necessidade anterior à mudança dos impostos: planejar quanto entra, quanto sai e quanto permanece disponível. Para clubes e investidores, o desafio continuará sendo transformar faturamento em capacidade de financiar o futebol sem comprometer as contas futuras.