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Busca por envelhecer bem multiplica por 17 a oferta de livros sobre longevidade no Brasil

Interesse vai além do público 60+, e novos títulos ensinam a prevenir, com o manual ganhando espaço sobre o ensaio

Mercado editorial sobre longevidade: guias sobre saúde e menopausa puxam o avanço e miram quem quer se preparar para envelhecer bem. (Freepik)

Mercado editorial sobre longevidade: guias sobre saúde e menopausa puxam o avanço e miram quem quer se preparar para envelhecer bem. (Freepik)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 30 de setembro de 2026 às 12h10.

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Quase todo brasileiro diz se interessar por longevidade, mas pouquíssimos se prepararam para ela.

Segundo o Indicador de Longevidade Pessoal (ILP), feito pela Edelman para o Grupo Bradesco Seguros, 97% da população demonstra algum interesse pelo tema.

Em outra pesquisa, da Neura, especializada em estudos comportamentais, só 4% dos entrevistados afirmaram ter se planejado sempre para envelhecer.

Entre um dado e outro existe uma demanda por orientação que as editoras passaram a atender, e os lançamentos anuais de não ficção sobre envelhecimento, longevidade e temas correlatos foram de quatro, no fim dos anos 2000, para 67 desde 2025, multiplicando-se por 17.

A conta é de Layla Vallias, pesquisadora de transição demográfica e cofundadora do Data8, hub de pesquisa sobre longevidade. Ela mapeou 456 títulos em português disponíveis na Amazon e classificou cada um por tema, formato e dimensão.

A aceleração é recente, já que 2025 e os meses até agora transcorridos de 2026 somam 133 lançamentos, quase os 156 de todo o período entre 2020 e 2024.

O salto acompanha um interesse que, ao contrário do que o tema costumava sugerir, está longe de se limitar a quem já passou dos 60 anos.

Prevenção no carrinho dos mais jovens

Feito com 4.400 entrevistados a partir de 18 anos, o ILP mostra que 84% dos brasileiros consideram a longevidade prioridade ou se importam muito com ela, e apenas 17% enxergam o envelhecimento de forma negativa.

A curiosidade aparece também nas buscas pelo termo "longevidade" no Google entre junho de 2025 e maio de 2026, das quais as mulheres responderam por 56,5%.

O retrato brasileiro se aproxima do que pesquisas internacionais registram entre consumidores de diferentes gerações.

Na análise Future of Wellness, da McKinsey, até 60% dos consumidores dos países observados tratam envelhecer com saúde como prioridade máxima ou muito importante.

Enquanto os mais velhos buscam estender a vida, e os mais jovens procuram soluções preventivas.

Nos Estados Unidos, a geração Z representa 36% da população adulta, mas responde por 41% dos gastos anuais com bem-estar.

E parte desse dinheiro foi parar nas livrarias. "Outlive", do médico americano Peter Attia, que promete ensinar a adiar as doenças do envelhecimento, passou dos três milhões de exemplares vendidos desde 2023.

Em 2025, as vendas de autoajuda impressa nos EUA cresceram 14,7%, enquanto o mercado total avançou 0,3%, segundo a Circana BookScan.

Na França, o balanço da NielsenIQ BookData publicado pela Livres Hebdo registrou 128 mil exemplares de "Os Quatro Compromissos", de Don Miguel Ruiz, entre os livros práticos do ano.

Menos ensaio, mais protocolo

No Brasil, a disposição de aprender sobre o assunto ainda caminha à frente da prática, e a distância fica mais evidente na saúde. Na primeira edição do ILP, 52% dos jovens de 18 a 29 anos disseram procurar atendimento médico apenas diante de muito incômodo ou problemas graves.

O preço aparece décadas depois. Estudo publicado na The Lancet Public Health estima que o brasileiro passa, em média, 12,5 anos da vida com doenças ou limitações, ante 10,4 anos em 1990, e que as mulheres convivem com algum grau de incapacidade por 12,1 anos, contra 9,3 entre os homens.

É esse descompasso que o catálogo brasileiro passou a disputar. Até 2022, os ensaios respondiam por 61% dos lançamentos mapeados por Vallias, e os guias práticos, por 6,6%.

De 2023 em diante, a fatia ensaística caiu para 51%, e a dos guias subiu para 23%, mudança que a pesquisadora descreve como a passagem do leitor do "me explica" para o "me ensina". As novidades das grandes editoras mostram para quem esses manuais vêm sendo escritos.

A Intrínseca, por exemplo, que publicou "Outlive" no Brasil em 2023, tem apostado em títulos voltados a mulheres na meia-idade.

Em novembro de 2025, lançou "Perimenoquê?", em que Isabela Fortes, especialista em longevidade feminina, trata a perimenopausa, período de cerca de sete anos que antecede a menopausa, como uma "segunda adolescência".

Em agosto deste ano, chegou às livrarias "Indestrutível", da pesquisadora americana Vonda Wright, com um protocolo de seis semanas para ganhar massa muscular e fortalecer ossos e articulações.

A autora parte do dado de que mais de 70% das mulheres sentem dor nas juntas e perdem músculo e densidade óssea nessa transição.

São obras para leitoras que costumam estar na faixa dos 40 e 50 anos, longe da velhice, e que formam o público mais relevante do mercado editorial.

"Fica evidente que a mulher é o motor para esse setor girar", afirmou Mariana Bueno, economista da Nielsen BookData, em painel da Bienal do Livro de São Paulo.

Esses guias, porém, falam com uma leitora de cada vez, e é nesse ponto que o mapeamento revela sua principal lacuna.

Longevidade ainda contada no singular

Das 456 obras da base, 230 tratam a longevidade do ponto de vista de quem envelhece, 173 têm enfoque contextual ou geral e 48 abordam o assunto de forma sistêmica. O consumo aparece em apenas cinco, pouco mais de 1% do total.

É uma fatia mínima diante de um mercado de bem-estar que a McKinsey estima em US$ 2 trilhões globalmente, com o envelhecimento saudável entre as seis frentes de maior crescimento.

As exceções ajudam a medir essa lacuna. Em "A revolução da longevidade", lançado em outubro de 2025 pela Vestígio, o médico Alexandre Kalache, que dirigiu o programa de envelhecimento da OMS entre 1995 e 2008 e hoje preside o International Longevity Centre Brazil, discute por que o país envelhece mais rápido e de forma mais desigual que as nações ricas.

O livro se dirige explicitamente a jovens e adultos e trata o preconceito etário e a desigualdade como obstáculos coletivos, abordagem rara num catálogo dominado pelo cuidado individual.

O recorte individual se acentua nos títulos sobre carreira. O Relatório Global sobre Etarismo, publicado pela OMS em 2021, estimou que uma em cada duas pessoas no mundo tem atitudes discriminatórias em relação à idade.

Ainda assim, nenhum livro brasileiro sobre etarismo, carreira e recolocação depois dos 50 havia sido publicado até 2022.

Desde 2023 surgiram 11 títulos, nove deles nos últimos 18 meses, a maioria dirigida a quem sofre a discriminação. "Mas ainda são poucos os que falam com quem contrata", observa Vallias.

A pesquisadora reconhece os limites da base, que retrata o que está disponível hoje e mede oferta, não venda. Como 2026 ainda não terminou, a média do período pode e tende a subir.

Os dados de comportamento, por sua vez, revelam um público formado por quem tem 30, 40 ou 50 anos e já quer saber como chegar bem aos 80.

Para atendê-lo por inteiro, falta ao mercado editorial olhar também para as empresas, as marcas e os empregadores que vão definir como esses anos serão vividos.

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