Parceiro institucional:
Longevidade: aos 60, brasileiras têm mais 24 anos de vida pela frente, mas acumulam menos anos de contribuição ao INSS. (Freepik)
Editora ESG
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 16h23.
A brasileira que completa 60 anos tem, em média, mais 24,2 anos de vida, segundo o IBGE. É um período maior que os 15 anos de contribuição mínima que o INSS exige para aposentá-la por idade.
Nos Estados Unidos, esse descompasso entre tempo de vida e dinheiro disponível ganhou nome entre atuários e planejadores financeiros: risco de longevidade, a chance de a pessoa viver mais do que suas reservas.
A base dessa preocupação está em dados como os de uma pesquisa da Society of Actuaries, publicada em maio deste ano, que mostrou que 59% dos aposentados americanos pararam de trabalhar antes do planejado - muitos deles, por problemas de saúde ou perda do emprego.
Em contextos como esses, parar antes do previsto significa poupar por menos anos e começar a sacar mais cedo, com uma reserva que precisa durar mais tempo.
E a incerteza aparece também entre quem ainda está na ativa: em abril, o Gallup registrou que 69% dos americanos empregados temem não ter dinheiro suficiente na aposentadoria.
No Brasil, o mesmo risco pesa ainda mais. A poupança para a aposentadoria é baixa, boa parte dos trabalhadores não contribui para a Previdência e o cuidado com os idosos fica a cargo das famílias, quase sempre das mulheres.
A expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, a maior da série do IBGE, iniciada em 1940.
Para a aposentadoria, porém, pesa mais o tempo que resta a quem já chegou aos 60: 22,6 anos, em média, contra 13,2 em 1940.
A reforma da Previdência de 2019 respondeu a esse alongamento elevando a idade mínima para 62 anos, no caso das mulheres, e 65, no dos homens. A ideia era estender a vida contributiva na mesma direção da vida.
Contudo, o mercado de trabalho não acompanhou essa premissa. Das vagas com carteira abertas em 2024, 90% ficaram com jovens de até 24 anos, enquanto os trabalhadores acima dos 50 perderam quase 160 mil postos, segundo dados do Caged.
O resultado é um intervalo que a regra não prevê, o de quem é desligado aos 55 ou 57 anos, não volta ao emprego formal e ainda não cumpre os requisitos para se aposentar.
Para parte desses trabalhadores, a saída é abrir o próprio negócio. Dados do IBGE mostram que 1,7 milhão de pessoas que se tornaram microempreendedoras individuais (MEI) em 2022 tinham sido desligadas de um emprego com carteira.
A formalização mantém o vínculo com o INSS, mas com limite. Quem contribui como MEI, com 5% do salário mínimo, tem direito apenas à aposentadoria por idade no valor do piso.
A formalização mantém o vínculo com o INSS, mas com limite: quem contribui como MEI, com 5% do salário mínimo, tem direito apenas à aposentadoria por idade no valor do piso.
Logo, a informalidade tira anos de contribuição muito antes dos 50.
No trimestre encerrado em agosto, o país tinha 38,8 milhões de trabalhadores informais no trimestre encerrado em janeiro, 37,5% dos ocupados, segundo a Pnad Contínua divulgada nesta terça-feira (29) pelo IBGE.
Descontados os que recolhem por conta própria, cerca de um terço dos ocupados segue fora da Previdência, segundo o Ibre/FGV.
Entre as trabalhadoras domésticas, categoria formada majoritariamente por mulheres negras, 65% não contribuem. Justamente o grupo que tende a viver mais e, ao mesmo tempo, a acumular menos anos registrados no INSS.
Por fim, os cuidado de familiares amplia essa perda. Quando pai ou mãe passa a depender de ajuda, é comum que uma filha, uma nora ou a esposa reduza a jornada ou deixe o emprego. Cada ano nessa condição é um ano a menos de contribuição.
O INSS paga o que, nos EUA, se compra de seguradoras sob o nome de anuidade: uma renda vitalícia, reajustada todo ano. A diferença está no valor, e ele depende diretamente dos anos acumulados.
O cálculo parte de 60% da média salarial e soma dois pontos percentuais por ano de contribuição acima de 15, no caso das mulheres, ou de 20, no dos homens.
Assim, uma mulher que se aposenta com 25 anos de contribuição recebe 80% da média salarial. Com 30 anos, receberia 90%, por um período que pode passar de duas décadas.
Para a maioria, porém, a fórmula termina no piso. Cerca de seis em cada dez benefícios do regime geral equivalem a um salário mínimo, R$ 1.621 em 2026, valor abaixo do qual o INSS não paga. O teto, de R$ 8.475,55, fica distante de quase todos.
Complementar essa renda com poupança própria está ao alcance de poucos. Apenas 11,2 milhões de brasileiros, perto de 7% dos adultos, têm plano de previdência privada aberta, segundo a Fenaprevi.
O setor encolheu depois que, em 2025, o governo passou a cobrar IOF sobre aportes em VGBL, a diferença entre o que entrou e o que foi resgatado caiu 93,5%, para R$ 4 bilhões, o pior resultado em anos.
E mesmo quem acumula reserva raramente a transforma em renda para a vida toda, justamente o produto que, nos EUA, é vendido como proteção contra o risco de longevidade.
O mais comum é resgatar o saldo de uma vez ou recebê-lo por prazo determinado.
O cuidado de familiares é outra via de perda. Quando pai ou mãe passa a depender de ajuda, é comum que uma filha, uma nora ou a esposa reduza a jornada ou deixe o emprego — e cada ano nessa condição é um ano a menos de contribuição.
Um fenômeno que não é só brasileiro. Nos EUA, a pesquisa da SOA mostra que 16% dos aposentados cuidam de um familiar e quase 20% dos que ainda trabalham sustentam pais ou sogros, o que diminui a capacidade de poupar para a própria velhice.
No Brasil, a resposta pública ganhou base legal há menos de dois anos. A Lei 15.069, de dezembro de 2024, instituiu a Política Nacional de Cuidados e incluiu entre os públicos prioritários tanto os idosos que dependem de ajuda nas atividades diárias quanto as cuidadoras, remuneradas ou não.
Chamado Brasil que Cuida, o Plano Nacional de Cuidados foi detalhado em dezembro de 2025, com 79 ações, e a adesão de estados e capitais começou no mesmo mês.
Até 2070, a população com 60 anos ou mais deve passar de 33 milhões para 75,3 milhões, 37,8% dos brasileiros, segundo o IBGE.
Nessa escala, o risco de longevidade depende menos do planejamento individual do que de política públixa: emprego para quem tem mais de 50 anos, contribuição para os informais e uma rede de cuidado que não se apoie no trabalho não pago das mulheres.
Sem isso, os 24 anos que a brasileira tem pela frente ao completar 60 continuarão financiados por menos anos de contribuição.