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Estudos mostram benefícios dos GLP-1 contra doenças que encurtam a vida, enquanto a ciência investiga possíveis efeitos sobre o envelhecimento (Imagem gerada por IA/EXAME)
Repórter de ESG
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 14h05.
Última atualização em 29 de setembro de 2026 às 17h54.
“Não é sobre viver 150 anos, mas talvez seja algo mais simples e grandioso: fazer com que o tempo que vivamos seja melhor”, afirma Pedro Saddi, endocrinologista e coordenador médico do Fleury Lifecare. A ideia resume o novo debate em torno das populares canetinhas emagrecedoras.
Conhecidos inicialmente pelo potencial de perda de peso, os medicamentos da classe dos GLP-1, como a semaglutida, passaram a ocupar uma nova fronteira na medicina: entender o papel dessas terapias na prevenção de doenças associadas ao envelhecimento e na busca por uma vida mais saudável.
O movimento acontece em meio a um mercado bilionário: os reguladores de apetite já movimentam cerca de R$ 10 bilhões e podem chegar a R$ 50 bilhões até 2030, com uma estimativa de 15 milhões de usuários, segundo dados apresentados pelo Fleury.
A expansão das canetas abriu uma nova pergunta para pesquisadores, médicos e empresas: esses medicamentos podem ajudar na longevidade?
Por enquanto, a resposta é mais complexa do que simplesmente utilizar a medicação e viver mais. O que a ciência já comprovou está principalmente ligado à redução de doenças que encurtam a vida. Ou seja, de forma indireta.
Já a possibilidade de que os GLP-1 atuem diretamente sobre o processo de envelhecimento ainda está em investigação.
À EXAME, especialistas destacam que a discussão sobre essas terapias vai além da perda de peso e envolve uma mudança na forma como a medicina encara a longevidade: menos sobre prolongar a vida a qualquer custo e mais sobre preservar autonomia, saúde e qualidade dos anos vividos.
Para Hélio Rodrigues, biomédico que atua com medicina regenerativa e envelhecimento saudável, essa mudança passa por olhar não apenas para a quantidade de anos, mas para as condições em que as pessoas chegam às fases mais avançadas.
“A grande questão é como e em que condições você chega lá”, destaca.
Essa percepção também é observada pela indústria farmacêutica. Para Andréa Frazão, diretora de Prescrição Médica da Eurofarma, o debate sobre essas terapias precisa se afastar da ideia de que elas são apenas uma ferramenta estética.
“Quando falamos em longevidade, estamos falando de viver melhor e com menor risco de desenvolver doenças que podem comprometer a saúde ao longo do tempo”, acrescenta.
A relação mais bem estabelecida entre GLP-1 e longevidade passa pelo combate a doenças crônicas.
Em pessoas com obesidade, diabetes tipo 2 e maior risco cardiovascular, grandes estudos clínicos mostram que medicamentos como a semaglutida reduzem em cerca de 20% o risco de morte e de eventos cardiovasculares, como infarto e AVC.
Na prática, isso significa que essas terapias podem contribuir para mais anos de vida ao reduzir problemas que estão entre as principais causas de mortalidade da população brasileira.
“Para pessoas que já vivem com condições crônicas, essas medicações diminuem as mortes porque tratam justamente essas causas”, destaca Saddi.
Em pacientes com diabetes tipo 2, estudos também associam o uso desses medicamentos a menor mortalidade, menor ocorrência de insuficiência cardíaca e menor progressão de doença renal, condições que têm relação direta com envelhecimento e perda de qualidade de vida.
Mas é preciso ter cautela, a atuação é diferente da de uma droga antienvelhecimento: os GLP-1 não necessariamente desaceleram o envelhecimento, mas ajudam a controlar doenças que fazem as pessoas envelhecerem com mais limitações.
“Fora desse contexto ainda não há estudos definitivos”, diz Saddi. “Ainda não dá para afirmar uma relação direta com a longevidade".
A próxima etapa da ciência é entender se esses medicamentos têm efeitos que vão além do controle metabólico.
Em análises com animais, os resultados abriram uma nova possibilidade. Pesquisas com camundongos idosos indicaram que o uso tardio de semaglutida melhora funções físicas, metabólicas e cognitivas, reduz marcadores biológicos associados ao envelhecimento, como inflamação e senescência celular, e aumenta a sobrevida mediana dos animais em cerca de 12%.
Os resultados sugerem que os medicamentos podem interferir em mecanismos relacionados ao envelhecimento, e não apenas na perda de peso. Mas a transposição desses achados para humanos ainda é uma hipótese em aberto.
Em pessoas, uma das linhas de investigação envolve os chamados relógios epigenéticos, ferramentas que medem alterações no DNA associadas à idade biológica.
Um ensaio clínico com adultos com HIV e lipodistrofia indicou que oito meses de uso de semaglutida desaceleraram esses marcadores epigenéticos no sangue. O resultado chamou atenção por sugerir uma possível modulação molecular do envelhecimento, mas ainda está longe de significar que a pessoa viverá mais.
“Neste caso, pessoas saudáveis usaram as medicações e isso mostraria uma diminuição da idade biológica”, explica o especialista do Fleury.
O interesse pelos GLP-1 ocorre em um momento em que o Brasil passa por uma rápida transformação demográfica.
Segundo dados, a população brasileira com 65 anos ou mais deve passar de 7% em 2010 para 23% em 2050. A expectativa de vida, por sua vez, deve chegar a 81 anos no mesmo período.
O envelhecimento também muda o perfil epidemiológico do país. O Fleury aponta que a prevalência média das principais doenças crônicas não transmissíveis é 119% maior entre idosos.
Nesse cenário, a empresa de medicina diagnóstica defende uma visão mais ampla de longevidade saudável, que combina prevenção, monitoramento e acompanhamento contínuo da saúde.
O conceito envolve pilares como alimentação saudável, atividade física, sono, gerenciamento de estresse, conexão social e acompanhamento de biomarcadores.
A mudança de percepção sobre as canetas também alterou a estratégia das empresas do setor de saúde.
Para a Eurofarma, que entrou nesse mercado por meio de uma parceria com a Novo Nordisk para comercialização da semaglutida biológica original no Brasil, o debate precisa ir além da estética.
Segundo a diretora de Prescrição Médica da Eurofarma, a obesidade e o diabetes tipo 2 são condições diretamente relacionadas ao envelhecimento saudável.
“O uso da semaglutida biológica original foi desenvolvido pensando na saúde da população, auxiliando na prevenção e no controle de diversas condições", afirma Andréa.
Além da ampliação do acesso ao tratamento, a empresa também aposta em programas de suporte aos pacientes.
Lançado em 2026, o EuroCuida oferece acompanhamento e condições diferenciadas para ajudar na adesão ao tratamento. Segundo a Eurofarma, já são mais de 600 mil pacientes cadastrados.
A expansão dos medicamentos GLP-1 também trouxe um novo desafio para o mercado: transformar uma terapia que ficou conhecida pelo alto custo em uma ferramenta de saúde mais acessível para pacientes com indicação médica.
Durante o boom das canetinhas emagrecedoras, o acesso ficou concentrado principalmente entre consumidores com maior poder aquisitivo, já que o tratamento exige uso contínuo e acompanhamento médico.
Agora, com o amadurecimento do mercado, farmacêuticas passaram a investir em programas de suporte e redução de barreiras financeiras.
A Eurofarma afirma ter mantido a liderança entre as novas canetas de semaglutida lançadas no país após a chegada dos primeiros medicamentos da classe, como Ozempic e Wegovy. A aposta é no Poviztra, indicado para tratamento da obesidade, e Extensior, voltado ao diabetes tipo 2.
Segundo a empresa, cerca de 80 mil médicos já prescrevem seus medicamentos, um movimento que ganha relevância com a chegada de novos concorrentes após a perda da patente da semaglutida, em março de 2026.
Uma das iniciativas nessa direção é o programa EuroCuida, lançado em 2026, que já conta com mais de 600 mil pacientes cadastrados e oferece suporte durante a jornada de tratamento.
Outra estratégia é a redução de preços nas doses de manutenção, com descontos de até 39% para a apresentação de 1,7 mg e 29% para a de 2,4 mg.
Apesar do entusiasmo em torno dos GLP-1, especialistas evitam classificar essas terapias como medicamentos de longevidade ou antienvelhecimento.
O consenso é que essas drogas já têm um papel relevante ao reduzir doenças que encurtam a vida em pacientes com indicação clínica, especialmente pessoas com obesidade, diabetes ou alto risco cardiovascular.
A próxima fronteira será entender se os benefícios observados nesses grupos podem se transformar, no futuro, em efeitos diretos sobre o envelhecimento.
Para Saddi, esse caminho passa por uma medicina mais personalizada, em que o paciente participe das decisões sobre seu próprio cuidado.
“O paciente sempre deve estar no centro, participando ativamente das decisões. A equipe de saúde deve informá-lo, disponibilizar o que existe de mais moderno e ajudá-lo na implementação", conclui.