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Queda de consumo e super El Niño: os riscos à crescente safra de cana

O Brasil deve recuperar a produtividade da cana em 2026/27, mas clima, produção e consumo ainda desafiam o setor sucroenergético global

Colheita de cana-de-açúcar no interior de São Paulo: aumento na produção será desafiado por El Niño mais forte (Paulo Fridman/Corbis/Getty Images)

Colheita de cana-de-açúcar no interior de São Paulo: aumento na produção será desafiado por El Niño mais forte (Paulo Fridman/Corbis/Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 27 de maio de 2026 às 06h00.

Um sentimento misto toma conta do setor sucroenergético na safra 2026/27. Se, por um lado, a produção brasileira de cana-de-açúcar deve atingir 709 milhões de toneladas — um aumento de 5,4% em relação à temporada anterior, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) —, em outra ponta, o clima, com um El Niño forte no radar, e a queda do consumo mundial de açúcar impõem um horizonte mais incerto para as usinas.

A alta na nova safra vem após dois anos difíceis para o setor, marcados por secas e incêndios que reduziram a produtividade dos canaviais.

“A produção brasileira terá, sobretudo, recuperação da produtividade agrícola nas áreas afetadas pelos incêndios e pela seca em 2024. Essas áreas estarão em melhores condições neste ano do que no anterior”, afirma Bruno Wanderley, economista-sênior da Datagro.

No Centro-Sul, principal região produtora do país — responsável por cerca de 90% da produção nacional e que abrange estados do Sul, Sudeste (exceto o norte de Minas Gerais) e Centro-Oeste —, a Datagro projeta uma moagem de 642 milhões de toneladas, um avanço de cerca de 5% em relação à safra 2025/26.

Ainda assim, Wanderley pondera que o crescimento não configura um novo recorde histórico.

Esse cenário de recuperação produtiva será desafiado pelo clima — o El Niño é a variável mais importante. Os modelos da Agência Espacial dos Estados Unidos (Nasa) e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) apontam para um fenômeno climático forte“Os efeitos disso sobre a produção brasileira são complexos de cravar”, diz José Guilherme Nogueira, presidente da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana).

Em regiões como norte do Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás, a tendência é de seca. Já em outras áreas, o excesso de chuvas pode predominar. O problema é que os dois cenários prejudicam a produção. “Se chover muito, você não consegue colher. E, se tiver seca, perde biomassa ou aumenta o risco de incêndios”, afirma Nogueira. 

Enquanto o Brasil tenta consolidar a recuperação, o mercado internacional dá sinais de aperto. A expectativa é de um déficit global de açúcar de cerca de 3 milhões de toneladas, segundo estimativa da Datagro — o terceiro pior resultado em cinco anos —, influenciado pela redução do plantio em regiões como União Europeia e Tailândia. No bloco europeu, a produção tem como base a beterraba, enquanto na Ásia pesam também os riscos climáticos. “Devemos voltar para uma condição de déficit. No caso do bloco europeu, o recuo deve ocorrer em razão da menor área plantada. Na Tailândia, é uma questão de preços”, diz Wanderley. Mesmo com uma produção maior em relação à safra passada, o Brasil não consegue reverter, sozinho, o aperto na oferta.

Do lado da demanda, a mudança é estrutural. O consumo global de açúcar perdeu ritmo nas últimas décadas, pressionado por políticas públicas e mudanças de hábitos, e está estagnado, avalia Wanderley. “Diferentemente do início dos anos 2000, quando o consumo avançava a taxas superiores a 1% ao ano, hoje ele praticamente estagnou. A tendência  é de desaceleração no longo prazo”, afirma. Para Lívea Coda, coordenadora de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets, a estagnação no consumo não é homogênea. Segundo a coordenadora, enquanto regiões como Europa e Tailândia apresentam consumo mais estável — influenciadas por impostos e maturidade econômica —, mercados como o norte da África e o sul da Ásia ainda sustentam o crescimento. Para ela, nos próximos anos, o principal motor do consumo de açúcar continuará sendo o crescimento da renda, especialmente em países em desenvolvimento. “Qualquer aumento de renda acaba gerando maior consumo de açúcar, que ainda é uma fonte de energia barata”, diz. Entre clima imprevisível e demanda mais contida, o setor sucroenergético entra na nova safra maior — mas não necessariamente mais doce.

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