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Consumidor come seis vezes mais frango que na década de 1960 — e o clima paga a conta

Relatório da FAO mostra que oferta global de carne quadruplicou em 60 anos e emissões da agricultura devem crescer 7,6% na próxima década, com pecuária liderando a alta

Frango é a proteína cuja oferta mais cresceu no mundo nas últimas seis décadas (Freepik)

Frango é a proteína cuja oferta mais cresceu no mundo nas últimas seis décadas (Freepik)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 5 de junho de 2026 às 11h54.

Última atualização em 5 de junho de 2026 às 12h08.

O consumidor médio hoje come seis vezes mais frango e o dobro de carne de porco do que a geração de seus avós.

Os números são de um novo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e revelam uma transformação nos hábitos alimentares globais e com consequências diretas para o clima.

O fornecimento de aves saltou de menos de 3 kg por pessoa em 1961 para 17 kg em 2022. No mesmo período, a oferta de carne suína dobrou, chegando a 15 kg per capita.

Já a carne bovina, disparada a mais poluente das três, ficou estável em 9 kg. No total, a oferta média mundial de carne passou de 25 kg por pessoa para 47 kg em seis décadas.

A tendência não dá sinais de que parar por aí e a expectativa é de crescimento contínuo na produção e no consumo de proteína animal em todo mundo, segundo a pesquisa.

A agricultura é o segundo setor mais poluente da economia global, e suas emissões devem aumentar 7,6% na próxima década. A pecuária responde por cerca de 80% dessa alta projetada e já é apontada como uma das principais causas da perda de biodiversidade, além de ser responsável por entre 12% e 20% das emissões globais de gases de efeito estufa.

No Brasil, o peso do setor é ainda maior: o setor responde por cerca de 74% a 76% das emissões nacionais — o que a torna, ao mesmo tempo, o maior desafio climático e a maior oportunidade de descabonização do país.

Leia mais: Coalizão Brasil apresenta 10 propostas para descarbonizar setor do uso da terra rumo à COP30

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já identificou a transição para dietas com menos carne como uma das ações mais eficazes para combater a crise climática em curso.

A FAO, no entanto, não chega a essa recomendação e é justamente nesse ponto que o documento tem gerado críticas da comunidade científica.

"Este relatório documenta o problema claramente, mas fica muito aquém dessa conclusão", afirmou Cleo Verkuijl, cientista sênior do Instituto Ambiental de Estocolmo. Para a pesquisadora, recomendar a redução do consumo pode ser equivocado para populações em situação de insegurança alimentar, mas é a premissa correta para nações ricas, onde os argumentos de saúde e ambientais apontam na mesma direção.

Desigualdade no prato

Se o consumo de carne explodiu em escala global, a distribuição desse crescimento está longe de ser uniforme. Nos países de baixa e média renda, onde a insegurança alimentar é mais prevalente, os alimentos de origem animal ainda são proporcionalmente muito mais caros em relação à renda do que nos países ricos.

"A distribuição e o acesso regionais ainda são muito desiguais", disse Daniela Battaglia, oficial de desenvolvimento pecuário da FAO e coautora do estudo.

++ Leia mais: Como o setor privado acorda para combater a insegurança alimentar no Brasil? 

Enquanto os países de alta renda têm um consumo bastante alto e estável, os de baixa renda ainda são limitados pela acessibilidade.

Outro dado chama a atenção: cerca de 14% da carne e do leite produzidos globalmente se perdem durante a produção ou são desperdiçados antes mesmo de chegar ao consumidor final. No Brasil, segundo dados anteriores da ONU, o volume desperdiçado seria suficiente para alimentar um quarto da população que passa fome no país.

Segundo a organização, um segundo relatório específico para sustentabilidade ambiental na pecuária será publicado ainda este ano.

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