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'Compreender o Brasil é antecipar o futuro', diz diretora global da L'Oréal

Ezgi Barcenas, diretora global de responsabilidade corporativa, conta como a aposta da fabricante de cosméticos no país vai muito além das vendas — e já influencia o mundo

Brasil para o mundo: L'Oréal usa diversidade, clima e pesquisa local para desenvolver tecnologias que depois são levadas ao mercado internacional

Brasil para o mundo: L'Oréal usa diversidade, clima e pesquisa local para desenvolver tecnologias que depois são levadas ao mercado internacional

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 3 de agosto de 2026 às 05h00.

RIO DE JANEIRO* - Dos 66 tons de pele encontrados ao redor do mundo, 55 estão no Brasil. Entre os oito tipos de curvaturas para cabelo, todos são parte da nossa cultura. Os dados ajudam a explicar porque a fabricante de cosméticos L'Oréal coloca o país no centro da sua estratégia de crescimento.

"Se pensarmos também nos diferentes climas do Brasil, com seis zonas climáticas, isso amplia nossa capacidade de compreender profundamente o papel cultural que a beleza desempenha em um país tão diverso e de dimensões continentais", conta Ezgi Barcenas, Chief Corporate Responsibility Officer (Diretora Global de Responsabilidade Corporativa) da L'Oréal, em entrevista à EXAME.

A executiva integra a diretoria global da companhia desde 2024, após 10 anos na AB InBev, na qual ocupou o cargo de Chief Sustainability Officer por três anos. É a principal voz do L'Oréal para o Futuro, programa global lançado em 2020 que visa acelerar a trajetória da fabricante pela sustentabilidade até 2030 e que conecta as iniciativas de ESG da empresa.

O Brasil também vem influenciando a visão da companhia para a sustentabilidade — seja em clima, natureza, circularidade ou comunidades. De acordo com a executiva, o papel do Brasil como catalisador de soluções sustentáveis e diversas já impacta o trabalho no exterior: parte das tecnologias criadas com foco na pele daqui já são exportadas para demais mercados.

Barcenas explica que a linha de hidratantes da Garnier, chamada Toque Seco, foi desenvolvida no Brasil com foco nos tipos de pele encontrados aqui: mais de 50% da população conta com pele oleosa, característica que colabora com as condições de clima quente e da alta umidade. O trabalho das equipes de Pesquisa e Inovação deu tão certo que a solução já foi exportada para mais de 30 países ao redor do mundo.

"É essa compreensão profunda dos consumidores e das comunidades brasileiras que nos permite não apenas inovar para o mercado local, mas também levar essas soluções para o restante do mundo", conta.

Barcenas visitou as instalações da L'Oréal no Rio de Janeiro em julho e conversou com a EXAME sobre o papel do país para o crescimento da empresa, além das oportunidades de inovação sustentável.

Centro de inovação de L'Oréal Paris, no Rio de Janeiro: Brasil é centro da estratégia de inovação sustentável (L'Oréal/Divulgação)

'Compreender o Brasil é antecipar o mundo'

Barcenas conta que espera trabalhar por muitas anos ao lado das equipes brasileiras de desenvolvimento, inovação e pesquisa. "Assim, permanecemos próximos do consumidor do país, entendendo-o cada vez mais profundamente", conta.

"Porque, para nós, compreender o Brasil é também uma forma de compreender e antecipar o futuro do mundo", diz. Ela conta que, além da diversidade, a experiência brasileira com a matriz energética majoritariamente renovável também é uma oportunidade para a descarbonização em outros mercados estratégicos.

A L'Oréal já chegou a 100% de fábricas e centros de distribuição ao redor do mundo abastecidos com energia proveniente de fontes renováveis, o que reduz fortemente as emissões nos escopos 1 e 2. No entanto, o trabalho com a cadeia de fornecedores ainda é um grande peso para a redução de emissões na operação— e de boa parte das indústrias de beleza ao redor do mundo.

Parte do trabalho para acelerar a responsabilidade ambiental entre parceiros inclui levar o conhecimento da companhia para a cadeia de valor e parceiros. "Por isso, trabalhamos muito de perto com nossos parceiros, tanto global quanto localmente, para ajudá-los a avançar e acelerar sua própria transformação", explica.

Segundo a Diretora Global de Responsabilidade Corporativa, as mudanças do clima entram fortemente no trabalho com os fornecedores e parceiros. Afinal, em um setor em que o consumo de água é um tema crítico, a L'Oréal trabalha com os parceiros as formas para melhorar a gestão hídrica e garantir a eficiência no uso desse recurso.

"Quando olhamos para os consumidores, percebemos que o número de países sujeitos ao estresse hídrico está aumentando. Isso influencia diretamente nossa estratégia de inovação", diz. Hoje, a fabricante já desenvolve soluções de higiene e beleza que exigem menos água para enxaguar (ou nenhuma água) já pensando nas condições de disponibilidade hídrica do futuro. Essas soluções já são pensadas dentro dos setores de cabelos, coloração, limpeza facial e outras categorias.

O esforço inclui ainda o desenvolvimento de tecnologias que reduzam o consumo de recursos naturais. Uma das inovaççoes chama L'Oréal Water Saver, criado com a startup de inovação ambiental Gjosa, que reduz o consumo de água em até 80% durante a lavagem dos fios em salões de beleza.

A medida vem sendo implementada em salões pela Europa, ajudando a reduzir o consumo hídrico e os gastos com energia elétrica. "Não buscamos apenas soluções para os desafios ambientais, mas também para as dimensões sociais e econômicas da sustentabilidade", conta. "É assim que estamos abordando toda a cadeia de valor e a transformação necessária."

Laboratório a céu aberto: centro de pesquisa identificou no Brasil todos os oito tipos de cabelos que existem no mundo (Rogerio Resende/R2Foto/Divulgação)

'Dupla excelência', em ESG e finanças

De acordo com Barcenas, o motor da estratégia de sustentabilidade do Grupo L'Oréal é a dupla excelência: ao mesmo passo que a fabricante de cosméticos trabalha para entregar resultados financeiros crescentes, também adota práticas para gerar impacto positivo nas áreas ambiental e social.

"Esses dois motores funcionam em harmonia. Quando você é líder da indústria global de beleza, entendemos que não temos apenas uma responsabilidade, mas também uma oportunidade", diz a executiva.

O fato de o tema já estar inserido há anos na estratégia da companhia é que, segundo Barcenas, permitiu a aceleração nos objetivos de transformação, enquanto parte das empresas internacionais passava por um momento de retrocesso no ESG. "A pergunta passou a ser: Como aceleramos essa transformação? Como continuamos à frente? Como fazemos as perguntas difíceis? Como criamos os modelos de parceria certos para acelerar não apenas a nossa transformação, mas também a transformação de todo o nosso ecossistema?", conta.

A companhia lançou no último ano o L'Oréal Accelerator (ou L'AcceleratOR), programa de aceleração de inovação sustentável. A fabricante mapeou cerca de 70 desafios para a sua operação, como materiais alternativos para embalagens e matérias-primas sustentáveis para o futuro, e publicou online, com inscrições abertas.

Mais de 950 organizações de mais de 100 países se inscreveram para responder essas e outras questões. "Ficamos muito animados porque isso confirmou algo em que acreditávamos: a inovação sustentável existe", afirma. Ao todo, 13 startups foram selecionadas para desenvolver projetos-piloto e, futuramente, criar soluções escaláveis para a beleza e higiene ao redor do mundo.

O programa conta com investimento de 100 milhões de euros ao longo de cinco anos focado na aceleração das soluções.

Ezgi Barcenas: "Quando você é líder da indústria global de beleza, entendemos que não temos apenas uma responsabilidade, mas uma oportunidade"

Consumidor mais consciente?

Na avaliação de Barcenas, o consumidor está mais aberto para temas de ESG, o que também é uma oportunidade para a L'Oréal. Conhecer os valores das marcas é também um dos mecanismos das companhias para oferecer produtos com mais transparência e garantir uma vantagem competitiva entre outras fabricantes do setor.

"Para nós, isso representa também uma oportunidade de diálogo e educação. E nós continuamos incorporando essas expectativas às nossas criações. É exatamente por isso que nossas equipes de Pesquisa & Inovação, de desenvolvimento de embalagens e de marketing trabalham de forma integrada", disse.

O público brasileiro também desempenha um papel nesse âmbito. Por conta da sua biodiversidade, diversidade e as dimensões continentais, atender ao consumidor brasileiro e levar ao restante do mundo as inovações que nascem aqui é "justamente o papel estratégico que esse mercado desempenha e no qual nossas equipes trabalham diariamente", diz.

No fim das contas, o trabalho da L'Oréal em meio às mudanças climáticas passa por uma jornada de transformação no setor da beleza. "Isso envolve levar esses produtos ao mercado, criar os modelos certos de parceria e inovar também na forma como construímos relacionamentos ao longo de toda a cadeia de valor e com as comunidades", como conta Barcenas, em meio ao desafio de produzir embalagens mais sustentáveis, apoiar as comunidades próximas às operações e a cadeia de valor, enquanto lidam com mudanças climáticas cada vez mais frequentes e intensas.

*A repórter viajou a partir de convite da L'Oréal.

Acompanhe tudo sobre:L'OréalBelezaSustentabilidade

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