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Florestas tropicais guardam até US$ 1,2 trilhão em medicamentos ainda não descobertos

Análise estima que a destruição de ecossistemas desde 2001 já pode ter eliminado US$ 86 bilhões em valor comercial ligado a compostos naturais

Biodiversidade na indústria farmacêutica: apesar da dependência de plantas, fungos e microrganismos, apenas duas das 15 maiores farmacêuticas anunciaram aportes específicos para biodiversidade (Mario Tama/Getty Images)

Biodiversidade na indústria farmacêutica: apesar da dependência de plantas, fungos e microrganismos, apenas duas das 15 maiores farmacêuticas anunciaram aportes específicos para biodiversidade (Mario Tama/Getty Images)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 3 de agosto de 2026 às 12h55.

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As florestas tropicais podem abrigar até US$ 1,2 trilhão em valor farmacêutico associado a medicamentos que ainda não foram descobertos. A estimativa é de uma análise da Zero Carbon Analytics, grupo internacional de pesquisa sobre clima, natureza e transição energética.

O levantamento calcula ainda que os compostos preservados nesses ecossistemas poderiam gerar cerca de US$ 7 trilhões em benefícios sociais para a saúde, considerando o impacto de futuros tratamentos sobre pacientes e sistemas de saúde.

A Bacia Amazônica aparece entre as regiões de maior potencial, com aproximadamente US$ 214,7 bilhões vinculados à possível descoberta de novos medicamentos. Parte desse valor, porém, pode já ter sido comprometida pelo desmatamento.

Segundo o estudo, entre US$ 12 bilhões e US$ 36 bilhões do potencial farmacêutico da Amazônia podem ter sido colocados em risco desde 2001. O intervalo corresponde a cerca de 10% do valor estimado para a região.

O cálculo transforma a biodiversidade em uma medida econômica do risco imposto pela perda de florestas. A lógica é que plantas, fungos e microrganismos carregam estruturas químicas e informações genéticas que podem servir de base para o desenvolvimento de medicamentos. Quando uma área é destruída antes que essas características sejam estudadas, parte desse material pode deixar de estar disponível para a pesquisa.

Desde 2001, o desmatamento tropical pode ter eliminado cerca de US$ 86 bilhões em valor comercial farmacêutico, dentro de um intervalo estimado entre US$ 46 bilhões e US$ 142 bilhões. Em valor social para a saúde, a perda calculada chega a US$ 860 bilhões.

Os autores comparam o potencial ainda preservado nas florestas ao custo da resposta global à pandemia de Covid-19, estimado em US$ 246,2 bilhões. O valor comercial dos possíveis medicamentos seria quase cinco vezes superior.

A análise considera apenas compostos presentes em plantas de florestas tropicais e subtropicais. Organismos marinhos, ecossistemas de água doce, fungos e outros ambientes terrestres não entraram no cálculo, o que, segundo os pesquisadores, torna a estimativa conservadora diante da diversidade biológica ainda não quantificada.

Medicamentos e biodiversidade

A relação entre biodiversidade e indústria farmacêutica não é apenas potencial. Parte dos medicamentos já disponíveis foi desenvolvida a partir de plantas ou de estruturas químicas identificadas em espécies nativas de diferentes ecossistemas.

A pilocarpina, utilizada no tratamento do glaucoma e da xerostomia, a boca seca que pode atingir pacientes submetidos à radioterapia, é extraída das folhas do jaborandi, planta nativa das florestas tropicais brasileiras.

O paclitaxel, conhecido comercialmente como Taxol e usado contra o câncer, foi originalmente isolado do teixo-do-Pacífico. Segundo os dados reunidos pelo estudo, o medicamento já tratou mais de 1 milhão de pacientes e registrou vendas de US$ 1,7 bilhão em 2025.

A vincristina e a vimblastina, derivadas da vinca-de-Madagascar, continuam sendo utilizadas na quimioterapia da leucemia infantil e do linfoma de Hodgkin. Já a quinina, obtida da casca de árvores do gênero Cinchona, nativas das florestas dos Andes, foi o primeiro tratamento eficaz contra a malária e serviu de base para medicamentos sintéticos posteriores.

Outros tratamentos não utilizam necessariamente o composto natural de forma direta, mas foram desenvolvidos a partir de sua estrutura molecular. É o caso de medicamentos oncológicos como o Kadcyla e o Enhertu, citados pelo levantamento como exemplos de inovações associadas a substâncias inicialmente identificadas em plantas.

Dependência não se traduz em financiamento

Apesar dessa ligação histórica, o estudo aponta uma distância entre a dependência da indústria farmacêutica em relação à natureza e o volume de recursos destinados à conservação.

Entre as 15 maiores empresas farmacêuticas do mundo analisadas, apenas AstraZeneca e Novo Nordisk Foundation anunciaram investimentos financeiros específicos voltados à biodiversidade. Os valores informados foram de US$ 400 milhões e de US$ 25 milhões a US$ 30 milhões, respectivamente.

As demais empresas fazem declarações sobre financiamento da natureza, mas não apresentam, segundo a análise, compromissos financeiros concretos. A lista inclui Bayer, Novartis, Sanofi, GSK, Johnson & Johnson, Merck, Roche, Takeda, AbbVie, Bristol Myers Squibb, Amgen, Pfizer e Eli Lilly.

O contraste ocorre em uma indústria que movimentou US$ 1,7 trilhão em 2025 e depende da biodiversidade para identificar produtos naturais e informações de sequências digitais, conhecidas pela sigla DSI. Essas informações correspondem a dados genéticos digitalizados e armazenados em bancos públicos ou privados, que podem ser utilizados em pesquisas sem a coleta direta do material biológico.

“O desenvolvimento farmacêutico depende há décadas dos recursos genéticos das florestas tropicais, mas houve muito pouco investimento correspondente para conservar a biodiversidade da qual essas descobertas dependem”, afirmou Jo Bentley-McKune, principal autora do estudo.

Para a pesquisadora, a destruição das florestas pode impedir que compostos com potencial terapêutico sejam identificados antes mesmo de entrarem em processos de pesquisa.

Risco pode crescer até 2050

A manutenção das atuais taxas de desmatamento pode provocar uma perda adicional de até US$ 145 bilhões em potencial farmacêutico até 2050. O intervalo estimado pelos pesquisadores varia de US$ 47 bilhões a US$ 145 bilhões.

Em outro cenário, interromper a perda de florestas até 2030 limitaria as perdas comerciais adicionais a cerca de US$ 9 bilhões, dentro de uma faixa de US$ 5 bilhões a US$ 15 bilhões.

Com isso, seriam preservados aproximadamente US$ 79 bilhões em valor comercial privado e US$ 800 bilhões em valor social para a saúde até 2050. Segundo a análise, interromper o desmatamento até o fim da década protegeria um valor cerca de dez vezes superior ao montante que seria perdido no mesmo período.

A meta de deter e reverter a perda de florestas até 2030 foi assumida por mais de 140 países durante a COP26, conferência climática das Nações Unidas realizada em Glasgow.

Além da Amazônia, o Sudeste Asiático e a Bacia do Congo estão entre as regiões mais expostas. Mais da metade do valor comercial estimado pelo estudo, ou 54%, está concentrada nessas três áreas.

No Sudeste Asiático, até US$ 40 bilhões em potencial farmacêutico podem ter sido colocados em risco desde 2001, o equivalente a cerca de um quarto do total calculado para a região. Na Bacia do Congo, a perda potencial chega a US$ 6 bilhões.

Benefícios concentrados no Norte Global

O levantamento também aponta uma desigualdade na distribuição dos benefícios econômicos relacionados à biodiversidade.

A maior parte do valor natural analisado está concentrada no Sul Global, em áreas preservadas por países, povos indígenas e comunidades locais. As 15 maiores empresas farmacêuticas, porém, estão sediadas na Europa, nos Estados Unidos e no Japão.

O avanço dos bancos de dados genéticos ampliou essa assimetria. Empresas farmacêuticas e de biotecnologia passaram a acessar informações genéticas digitalmente, sem a necessidade de coletar amostras diretamente nos territórios de origem.

O mercado global de sequenciamento de DNA deve alcançar US$ 21,3 bilhões até 2031, segundo os números apresentados pela análise. Os custos da conservação dos ecossistemas que geram essas informações, no entanto, permanecem concentrados nos países e nas populações que vivem nessas áreas.

Uma tentativa de organizar a repartição desses benefícios é o Fundo Cali, criado durante a COP16 da Convenção sobre Diversidade Biológica. O mecanismo prevê que empresas que comercializam informações de sequências digitais contribuam com 1% de seus lucros globais ou 0,1% de sua receita.

Metade dos recursos arrecadados deverá ser destinada a Povos Indígenas e comunidades locais. Até o momento considerado pelo estudo, porém, apenas US$ 1.000 haviam sido comprometidos com o fundo.

O financiamento da biodiversidade e a definição das regras para o uso de informações genéticas estarão entre os temas da sétima reunião do Órgão Subsidiário de Implementação da Convenção sobre Diversidade Biológica, a SBI-7, realizada entre 4 e 12 de agosto de 2026, em Nairóbi, no Quênia.

As propostas discutidas na reunião, incluindo as taxas de contribuição empresarial e a própria definição de DSI, deverão ser encaminhadas para a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, prevista para outubro, na Armênia.

Cálculo depende de compostos insubstituíveis

Para estimar o valor farmacêutico das florestas, a Zero Carbon Analytics partiu de uma projeção do número de medicamentos que esses ecossistemas podem abrigar. A cada possível tratamento foi atribuído um valor presente líquido ajustado ao risco, método usado pela indústria para calcular o retorno provável de um medicamento em desenvolvimento.

Os pesquisadores distribuíram esse valor entre as regiões tropicais com base na diversidade de plantas e sobrepuseram o resultado a dados de satélite sobre desmatamento.

O modelo foi executado diversas vezes, com variações nos parâmetros utilizados. O relatório apresenta uma estimativa central e um intervalo no qual os autores afirmam ter 90% de confiança de que esteja o valor real.

Há, no entanto, uma premissa que amplia o efeito atribuído à perda florestal. O cálculo considera cada composto insubstituível. Assim, quando a área onde ele ocorre é desmatada, o modelo trata a substância como perdida, sem considerar a possibilidade de que também exista em outra região.

Os valores comerciais também levam em conta apenas o período de proteção por patente. Benefícios posteriores para pacientes e sistemas de saúde são contabilizados separadamente no cálculo de valor social.

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