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Congresso Nacional: distribuição de comissões e relatorias, em fevereiro, será o primeiro teste da nova bancada. (Freepik)
Editora ESG
Publicado em 7 de outubro de 2026 às 16h34.
O Brasil saiu das urnas, no domingo, 4, com o Congresso mais feminino de sua história.
A Câmara terá 109 deputadas, ante 90 eleitas em 2022, segundo o TSE, o que leva a participação delas de 17,5% para 21,2% das cadeiras. No Senado, 12 mulheres conquistaram uma das 54 vagas em disputa, e a bancada feminina passará de 15 para 18 senadoras.
O número mede quantas mulheres chegaram. Não dimensiona, contudo, o que o Congresso fará com os direitos delas - e a diferença entre as duas coisas raramente foi tão grande.
Nesta eleição, candidaturas femininas representaram 36,8% de quem concorreu a deputado federal, mas elas ficaram com somente 21,2% das vagas.
Na prática, de cada 26 candidatas, apenas uma se elegeu, enquanto entre os homens a proporção foi de um para cada 12, o dobro de chance. A explicação está menos nas urnas que no caminho até elas.
A lei obriga os partidos a reservar 30% das candidaturas para as mulheres e a mesma fatia do fundo eleitoral, mas são as direções partidárias, majoritariamente masculinas, que escolhem quais nomes recebem dinheiro, estrutura e espaço na propaganda.
A cota, portanto, tem garantido a elas um lugar na cédula, mas não as condições para vencer.
O avanço tampouco se estendeu a outros recortes de grupos minorizados. Enquanto o número de deputadas cresceu, o de parlamentares que se declaram negros caiu de 139 para 135, e o de brancos subiu de 366 para 374.
Todos esses dados dizem respeito ao tamanho da bancada. A questão mais delicada, porém, independe de quantas cadeiras as mulheres ocupam.
Para respondê-la, é preciso remontar às votações dos últimos quatro anos para entender como o Congresso se comportou quando os direitos femininos estiveram em pauta, e o que isso antecipa para a próxima legislatura.
Seria simplista dizer que o Parlamento eleito é contra as mulheres. O que os registros da Câmara mostram é uma divisão mais precisa, que separa o bolso do corpo.
Quando a pauta é econômica, há consenso. Em maio de 2023, a lei da igualdade salarial foi aprovada na Câmara por 325 votos a 36. O princípio base não era novidade: salário igual para trabalho igual está na CLT desde 1943 e na Constituição desde 1988.
O que o projeto, enviado pelo Executivo, acrescentou foi um mecanismo de cobrança, ao obrigar empresas com cem ou mais funcionários a publicar relatórios de transparência salarial e prever multa para as que discriminam.
Dois anos depois, os dados do Ministério do Trabalho mostram que, nas empresas obrigadas a divulgar os relatórios, as mulheres ainda recebem 21% menos que os homens.
Já em relação a direitos reprodutivos, por exemplo, a maioria muda de lado.
Em novembro de 2025, o projeto que derrubou a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) sobre o aborto legal de meninas vítimas de estupro teve 317 votos a favor e 111 contra.
São nove a mais do que os 308 exigidos para alterar a Constituição, obtidos em uma Câmara na qual o PL tinha 98 deputados. A partir de 2027, o partido, de onde saíram 26 dos 36 votos contrários à igualdade salarial, terá 121.
Parte significativa da oposição veio das próprias deputadas. Elas eram 17,5% da Câmara quando o projeto foi a plenário, mas responderam por dez dos 36 votos contrários à igualdade salarial, quase 28%
No PL 1904, que equipara o aborto após 22 semanas ao homicídio, inclusive em caso de estupro, a proporção foi ainda maior. Dos 33 signatários, 11 eram mulheres.
Proporcionalmente, portanto, havia mais mulheres entre os opositores dessas pautas do que na própria Câmara.
Ter uma mulher como autora ou relatora dá a esses projetos um escudo político: fica mais difícil sustentar que a decisão foi tomada sem elas.
E não foram poucas as parlamentares que, ao cumprir esse papel, saíram fortalecidas das urnas. Caroline de Toni (PL-SC), que votou contra a igualdade salarial, chega ao Senado com 2,7 milhões de votos, a maior votação do estado.
Sua conterrânea Julia Zanatta (PL), outro voto contrário à lei e signatária do PL 1904, foi a deputada federal mais votada de Santa Catarina, com 560 mil votos, quase o triplo da segunda colocada, a petista Ana Paula Lima.
Reeleita no último domingo, Chris Tonietto (PL-RJ) é autora do projeto que derrubou a resolução do Conanda. Foi também relatora da PEC 164, que inscreve na Constituição o direito à vida "desde a concepção" - o que, na prática, abre caminho para proibir o aborto nas três hipóteses hoje permitidas por lei.
A proposta foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça em novembro de 2024, por 35 a 15, em sessão presidida por De Toni. Relatora e presidente eram, portanto, duas mulheres.
Quem preside uma comissão decide o que entra em pauta, e quem relata escreve o texto. Assim, uma única deputada no comando da CCJ tem mais influência sobre o destino de um projeto do que dezenas de votos no plenário.
Além de De Toni, estreiam no Senado pelo PL a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, que, enquanto deputada federal, votou contra a lei de igualdade salarial e assinou o PL 1904.
Com Damares Alves (Republicanos), cujo mandato vai até 2031, o Distrito Federal passará a ter três senadoras - caso único no país -, todas do campo conservador.
O primeiro teste da nova composição do Congresso virá em fevereiro, na distribuição de presidências de comissão, relatorias e lideranças na Câmara e no Senado.
Na Câmara, eleitas por partidos que votam em sentidos opostos, as 109 deputadas dificilmente atuarão como uma bancada única, e a influência de cada grupo dependerá dos cargos que conseguir ocupar.
No Senado, o que está em jogo vai além das comissões. Foi a Casa que, em junho, confirmou a derrubada da resolução do Conanda, em texto relatado por Damares.
E são os senadores que sabatinam os indicados ao STF, onde a ação sobre a descriminalização do aborto está parada desde outubro de 2025, com dois votos favoráveis.
O avanço dessas parlamentares não é um acidente eleitoral. Como mostrou a pesquisa do movimento Confia Nelas, feita pela Voga com o Instituto Ideia, só 17% dos brasileiros se declaram feministas.
Candidatas conservadoras, portanto, representam um eleitorado que existe, e tratá-las como desvio seria repetir o erro de supor que mulheres votam em bloco.
O mesmo levantamento mostra, contudo, que esse eleitorado não endossa tudo o que foi votado em seu nome. A igualdade salarial para a mesma função, rejeitada por dez deputadas em 2023, tem o apoio de 84% dos brasileiros.
E, quando a pesquisa pergunta quais temas mais importam às mulheres, as respostas passam longe da pauta de costumes. Lideram o combate à violência (40%), ao assédio no trabalho (36%) e a própria igualdade salarial (32%).
São prioridades que não dependem de campo político. E é em torno delas que as bancadas de deputadas e senadoras teriam condições de votar junta, ainda que o histórico recente sugira que parte das eleitas não o fará.
Resta saber quem poderá servir de contrapeso. O que depende, em boa medida, do segundo turno, no dia 25, já que cabe ao presidente sancionar ou vetar os projetos de lei que o Congresso aprova.
Passada a eleição, três movimentos dirão mais do que o recorde: a distribuição das comissões em fevereiro, a instalação, ou não, da comissão especial da PEC 164 e a próxima indicação ao Supremo que chegar ao Senado.