O que está acontecendo com os fundos ESG na Europa?

Gestoras de recursos enfrentam onda de rebaixamento e podem ter de reclassificar centenas de fundos baseados em padrões socioambientais
 (NicoElNino/Getty Images)
(NicoElNino/Getty Images)
B
BloombergPublicado em 16/09/2022 às 06:00.

Gestoras de recursos em toda a Europa podem ter que reclassificar centenas de fundos com padrões ambientais, sociais e de governança (ESG) nos próximos meses.

Revisões de empresas de pesquisas, entre elas a Morningstar, mostram que apenas uma pequena parcela dos fundos registrados como Artigo 9 – a categoria ESG mais rigorosa da União Europeia – realmente atende ao nível de investimentos sustentáveis exigido pelas regras da região.

Advogados que assessoram o setor agora alertam que muitas gestoras de fundos podem ter pouca escolha a não ser mudar suas designações oficiais de ESG. Como resultado, clientes que pensavam ter investido no produto ESG mais limpo da UE podem ter uma surpresa.

“Posso imaginar que haverá muitas reclassificações do Artigo 9” para uma designação ESG menos rígida, conhecida como Artigo 8, disse Rahul Manvatkar, sócio de fundos de investimento da Linklaters, em Londres. “Por mais que não queiram, essa provavelmente será a trajetória à medida que participantes do mercado se familiarizam com as regras.”

A UE adotou o conjunto de regras mais ambicioso do mundo para investimentos ESG em março de 2021.

Mas a escala total dos desafios apresentados por esse marco - o Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis, ou SFDR na sigla em inglês - só agora vem à tona.

Gestores de ativos dizem que não têm dados suficientes para cumprir com as regras, e o SFDR tem sido continuamente ajustado à medida que reguladores reconhecem as lacunas. A Comissão da UE disse que um fundo do Artigo 9 “pode investir em uma ampla gama” de ativos “desde que esses ativos subjacentes sejam qualificados como investimentos sustentáveis”, ao mesmo tempo que permite atender às necessidades de liquidez e de hedge.

Em outras palavras, as autoridades da UE “deixaram claro que os fundos do Artigo 9 devem se comprometer a investir quase exclusivamente em investimentos sustentáveis”, disse Hugo Gallagher, consultor sênior de políticas do Fórum Europeu de Investimentos Sustentáveis (Eurosif), cujos membros representam cerca de US$ 20 trilhões em ativos sob gestão.

“Claramente, uma proporção significativa de fundos classificados como Artigo 9 está muito aquém de atingir esse limite”, disse.

A Morningstar estima que os fundos do Artigo 9 representem atualmente cerca de 470 bilhões de euros (US$ 472 bilhões) em ativos sob gestão.

Mais de 300 fundos do Artigo 9 informaram um nível mínimo de investimentos sustentáveis inferior a 90%, colocando-os em risco de perder a designação, disse o provedor de dados FE fundinfo à Bloomberg. Muitos outros não forneceram qualquer indicação de suas metas de sustentabilidade, um indício de que o número pode ser significativamente maior que 300.