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De câmeras a joaninhas: como gigantes florestais inovam para proteger animais

Empresas de papel, celulose e florestas contam à EXAME como investem em tecnologia e monitoramento para equilibrar produção e conservação da biodiversidade

As medidas para evitar efeitos aos habitats incluem desde treinamento de equipes até o uso de tecnologias (Martin Ruegner/Getty Images)

As medidas para evitar efeitos aos habitats incluem desde treinamento de equipes até o uso de tecnologias (Martin Ruegner/Getty Images)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 05h30.

Última atualização em 7 de janeiro de 2026 às 11h21.

Da onça-parda aos pequenos anfíbios noturnos, passando por jacupembas e tamanduás-bandeira, as florestas de eucalipto no Brasil têm se tornado refúgio para centenas de espécies — muitas delas ameaçadas de extinção. Em um país onde a pressão sobre habitats naturais é crescente, as áreas de manejo florestal certificadas estão desempenhando um papel cada vez mais relevante na conservação da fauna silvestre, aliando a produção industrial à proteção ambiental.

O monitoramento da biodiversidade nessas áreas revela números expressivos. A Dexco, por exemplo, já registrou mais de 2.600 espécies de fauna e flora em suas florestas desde a década de 1970. A Suzano contabiliza mais de 4.500 espécies identificadas desde 1989, incluindo 190 ameaçadas e 180 endêmicas. A Klabin chegou a 1.971 espécies de flora e 946 de fauna até 2024, sendo 70 ameaçadas de extinção. Já a Eucatex registrou 355 espécies da fauna, com 55 endêmicas da Mata Atlântica.

"Dentro dos princípios e critérios do FSC, a conservação da biodiversidade dos ambientes associados às florestas plantadas é essencial e já está dentro dos requisitos", explica Elson Fernandes de Lima, diretor-executivo da FSC Brasil. "Uma empresa que possui áreas de floresta plantada deve identificar dentro da sua base produtiva quais os locais que são relevantes para a conservação da fauna."

Tecnologia a serviço da natureza

O avanço tecnológico tem sido fundamental para ampliar a capacidade de monitoramento. Câmeras trap com sensores de movimento e temperatura, gravadores autônomos de áudio, drones equipados com câmeras e até análise de DNA ambiental fazem parte do arsenal utilizado pelas empresas para identificar e acompanhar espécies — inclusive aquelas de difícil visualização, como animais noturnos e insetos.

"Há alguns anos, tornou-se mais popular o uso de câmeras, que passaram a registrar mamíferos, por exemplo. E isso fez com que pudesse se aumentar o esforço em campo, como se cada câmera fosse um pesquisador em tempo integral observando aquele ponto", afirma Lima.

A Klabin utiliza inteligência artificial para processar e triar os grandes volumes de informação coletados. Darlon Orlamunder de Souza, diretor de P&D+I, Sustentabilidade e Estratégia&Mercado da empresa, explica que a tecnologia acelera a organização de imagens e áudios, apoiando a identificação preliminar de espécies, mas sempre com validação final por profissionais especializados.

Na Suzano, a parceria com a Universidade Federal de Viçosa resultou no uso de drones com sensores termais para localizar grupos de primatas e monitorar seus hábitos de deslocamento. Giordano Automare, gerente executivo de Sustentabilidade da empresa, explica. "Essas tecnologias ampliam nossa capacidade de gerar informações científicas, apoiar decisões de manejo e garantir que nossas operações sejam cada vez mais alinhadas à proteção da biodiversidade", conta.

Mosaicos e corredores ecológicos

A estratégia de manejo em mosaico — que intercala áreas de produção com fragmentos de vegetação nativa em diferentes idades — tem sido adotada pelas principais empresas do setor. Esse modelo aumenta a conectividade entre ambientes e favorece a circulação da fauna.

A Klabin é uma das companhias a adotar esta prática, como explica Orlamunder de Souza. "O modelo cria corredores ecológicos que conectam áreas nativas e plantadas e favorecem a circulação da fauna", afirma. A companhia mantém 911 mil hectares de área total, sendo 41% de áreas nativas conservadas.

A Suzano preserva cerca de 1,1 milhão de hectares de vegetação nativa — aproximadamente 40% de sua área total — e mantém 72 Áreas de Alto Valor de Conservação. "Trabalhamos com bacias hidrográficas como unidade de planejamento, pois entendemos que a vida se organiza a partir da água e que essa escala é essencial para garantir equilíbrio ecológico", afirma Automare.

Espécies ameaçadas encontram refúgio

O monitoramento contínuo tem revelado a presença de espécies ameaçadas de extinção nas áreas florestais. A Eucatex registrou 34 espécies com algum grau de ameaça, incluindo onça-parda, jaguatirica, tamanduá-bandeira e cateto. "Nos levantamentos, tais espécies continuam ocorrendo nas áreas e não foi identificado impacto negativo do manejo florestal da Eucatex na conservação", afirma Naiara Carvalho, gerente de Tecnologia, Meio Ambiente e ESG da empresa.

A Dexco, que realiza estudos sobre biodiversidade desde os anos 1970, destaca a atuação em casos específicos. Um exemplo é uma área em Minas Gerais onde está presente uma espécie de anfíbio endêmica do Triângulo Mineiro. "Nesse caso, além do monitoramento populacional, também é acompanhada a qualidade da água, recurso essencial para a manutenção da espécie", explica Lennon Franciel, especialista em Sustentabilidade da companhia.

Lima, do FSC Brasil, ressalta que há casos de retorno de espécies, mesmo as de grande porte, como a onça-pintada. "A partir desse momento, se destacam atividades para conservação e para compreensão da ocorrência dessas espécies", diz.

Prevenção de impactos

As medidas para evitar efeitos aos habitats incluem desde treinamento de equipes até o uso de tecnologias. Na Dexco, são adotadas cercas virtuais em locais que demandam cuidados especiais, como computadores de bordo que alertam os operadores sobre a proximidade dessas áreas, evitando intervenções indevidas. "Essas tecnologias contribuem para tornar as operações mais precisas e seguras, conciliando eficiência produtiva com maior proteção da fauna", afirma Franciel.

A Suzano, que adotou uma Política de Desmatamento Zero desde 2020, desenvolveu uma Estratégia de Natureza em colaboração com a União Internacional para a Conservação da Natureza, que ajuda a transformar diretrizes em prática no dia a dia das operações. "Fortalecemos ações de prevenção e mitigação de impactos. Dessa forma, reforçamos a aplicação da hierarquia da mitigação — evitar, reduzir, restaurar, regenerar e transformar — como base para planejar e executar as atividades", explica Automare.

Fauna integrada à produção

Algumas empresas têm desenvolvido iniciativas que geram benefícios mútuos entre conservação e produção. A apicultura é um dos exemplos mais bem-sucedidos. A Eucatex mantém desde 2004 o Programa Polinizar, que apoia apicultores locais no desenvolvimento de colmeias, aproveitando a florada do eucalipto. O programa já produziu mais de 320 toneladas de mel e beneficia cerca de 30 famílias de comunidades rurais.

Em um projeto similar, a Klabin conquistou em 2025 a certificação FSC para o mel produzido na Serra Catarinense — um reconhecimento inédito nas Américas. "Esse modelo gera benefícios múltiplos: fortalece a conservação da fauna, promove um produto orgânico e certificado e ainda cria trabalho e renda para produtores locais, incentivando o desenvolvimento sustentável regional", afirma Souza.

Mas a integração da fauna vai além. A Suzano inovou ao utilizar joaninhas para controle biológico de pragas, técnica inédita no Brasil. Em 2024, a empresa liberou 210 mil joaninhas em 57 mil hectares e evitou o uso de 17 toneladas de defensivos agrícolas, gerando economia superior a R$ 3 milhões a partir da utilização desse "exército" de pequenos insetos. "Inovação e sustentabilidade caminham juntas na Suzano, e o uso de joaninhas como controle biológico reflete esse compromisso", destaca Maurício Magalhães Domingues, pesquisador da companhia.

Serviços ecossistêmicos

Para Lima, do FSC Brasil, a fauna desempenha serviços ecossistêmicos fundamentais. "É importante para uma boa produção florestal que haja recursos hídricos sendo fornecidos em bom estado de conservação e de qualidade, para que as florestas cresçam e continuem produzindo conforme o esperado", explica. "Para que isso aconteça, é importante que a gente tenha uma conservação ambiental no entorno dos córregos e riachos. Quem pode desempenhar esse papel pode ser a fauna."

Lima, do FSC Brasil, reforça que os monitoramentos detectam mudanças. "Uma espécie que tem uma certa sensibilidade e ela vem consistentemente sendo registrada e a partir de algum momento essa espécie deixa de ocorrer numa determinada área. Então é para isso que os monitoramentos podem ser adotados, para também detectar mudanças num ambiente que sejam eventualmente negativas e que isso desencadeie uma necessidade de realização de ações para reverter esse quadro."

As empresas têm estabelecido metas ambiciosas. A Suzano divulgou em 2020 o Compromisso para Renovar a Vida de Biodiversidade, com a meta de conectar 500 mil hectares de áreas prioritárias para conservação no Cerrado, Mata Atlântica e Amazônia até 2030. Ao todo, já conectou 157.889 hectares acumulados.

A Klabin também lançou, em 2024, o Plano de Conservação da Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, com meta de alcançar ganho líquido de biodiversidade até 2050.

"Quanto mais se conservar os ambientes e o mais próximo isso tiver em relação à sua integralidade no sentido mais amplo mesmo de conservação, mais benéfico é para todo o ambiente e para as áreas produtivas que estão adjacentes", conclui Lima. "Essa deve ser a busca."

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