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Por que investir na natureza virou estratégia — e não filantropia

Do avanço dos investimentos de impacto à escala do reflorestamento no Brasil, líderes globais mostram como natureza, capital e retorno financeiro passaram a falar a mesma língua

Daniela Raik (Conservation International), Niall O’Sullivan (Mercer), Melanie Nakagawa (Microsoft) e Gerrity Lansing (BTG Pactual): executivos debateram como grandes alocadores de capital, empresas e ONGs estão investindo em mercados de carbono e conservação.

Daniela Raik (Conservation International), Niall O’Sullivan (Mercer), Melanie Nakagawa (Microsoft) e Gerrity Lansing (BTG Pactual): executivos debateram como grandes alocadores de capital, empresas e ONGs estão investindo em mercados de carbono e conservação.

Gabriella Sandoval
Gabriella Sandoval

Editora de projetos especiais

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 11h31.

*De Davos, na Suíça

Durante décadas, investir na natureza era algo tratado como relevante do ponto de vista reputacional, mas distante do núcleo das decisões financeiras. Essa leitura já não se sustenta. Em meio à intensificação das agendas ESG e à pressão por resultados concretos, ganha força uma abordagem mais pragmática: menos rótulos, mais evidência; menos promessas, mais método.

Foi nesse cenário que o painel “Investindo bilhões no planeta”, realizado durante o Fórum Econômico Mundial na Brazil House, reuniu alguns dos principais nomes globais em investimentos, sustentabilidade corporativa e conservação.

No painel mediado por Gerrity Lansing, diretor e sócio do BTG Pactual e chefe do Grupo de Investimento Timberland, a mensagem foi de que impacto ambiental só se sustenta quando vem acompanhado de retorno econômico, governança e escala.

Abrindo a conversa, Niall O’Sullivan, CIO global de soluções da consultoria Mercer, trouxe números que ajudam a explicar o momento de transição vivido pelos grandes alocadores de capital. Segundo ele, o entusiasmo com investimentos sustentáveis diminuiu — mas deu lugar a algo mais sofisticado.

“Nós realizamos uma pesquisa de alocação de ativos com os maiores proprietários de ativos do mundo — algo em torno de US$ 2 trilhões sob gestão. No ano passado, analisamos as mudanças e vimos que entre 20% e 30% menos pessoas pretendiam fazer investimentos sustentáveis como parte de suas alocações neste ano, em comparação com o ano anterior. A boa notícia é que, ao mesmo tempo, mais de 30% afirmaram que fariam alocações voltadas a impacto. O que estamos vendo no mercado é que as decisões estão cada vez mais individualizadas e alinhadas aos valores e ao impacto que as pessoas querem gerar.

“No passado, investir com impacto era ‘fazer o bem’. Hoje, é fazer o bem com método, mensuração e evidência”
Niall O’Sullivan, da consultoria Mercer

Hoje, o investimento de impacto cresce a uma taxa anual composta de cerca de 26%, com aproximadamente US$ 1,5 trilhão sob gestão. Se antes o foco estava concentrado quase exclusivamente em clima, agora temas sociais e soluções baseadas na natureza ganham força.

Para O’Sullivan, a principal virada é conceitual. “Há uma evolução clara: no passado, investir com impacto era ‘fazer o bem’. Hoje, é fazer o bem com método, mensuração e evidência.”

A estratégia por trás da remoção de carbono

Na sequência, Melanie Nakagawa, Chief Sustainability Officer da Microsoft, explicou como a empresa transformou compromissos climáticos ambiciosos em uma estratégia operacional — e por que o Brasil se tornou peça-chave nesse processo.

“Na Microsoft, estabelecemos em 2020 uma meta que chamamos de ‘moonshot’ de carbono. Guiados pela ciência, assumimos o compromisso de nos tornar carbono negativos até 2030 e, até 2050, remover da atmosfera todo o carbono que emitimos direta ou indiretamente desde a fundação da empresa, em 1970.”

A decisão partiu do reconhecimento de que apenas reduzir emissões não basta. “Se quisermos permanecer dentro dos limites planetários, precisamos de remoções de carbono de alta integridade e alta durabilidade. Apenas reduções não serão suficientes — há emissões que simplesmente não podem ser eliminadas e precisam ser removidas.”

Desde então, a Microsoft vem construindo um portfólio global de remoções de carbono — hoje estimado em cerca de 30 milhões de toneladas. Quase metade desse volume vem do Brasil. “Isso mostra o papel central do Brasil — tanto por seus ativos naturais quanto pela força do setor florestal — para empresas que buscam cumprir compromissos globais. Esse ecossistema é vital, e o Brasil é absolutamente estratégico.”

Quando conservação encontra escala financeira

A ponte entre capital e natureza foi aprofundada por Daniela Raik, CEO interina da Conservation International, organização que há quase quatro décadas defende que conservação só acontece em escala quando o setor privado participa ativamente.

“Desde 1987, partimos da ideia de que, para conservar a natureza e todos os serviços que ela oferece à vida no planeta, precisamos tornar essa ‘tenda’ o maior possível. Isso inclui governos, sociedade civil, academia e, claro, o setor privado.”

Segundo Raik, mesmo grandes organizações ambientais não conseguem avançar sozinhas — e nem o financiamento público ou filantrópico dá conta do desafio. “A escala e o impacto positivo que o setor privado pode alcançar são incomparáveis.”

Um exemplo concreto é a parceria com o Templeton Investment Group, do BTG Pactual, em uma estratégia de reflorestamento que combina silvicultura comercial de alto valor com restauração florestal. Pelo menos metade da área dos projetos é dedicada à restauração, com critérios rigorosos de impacto climático, biodiversidade e desenvolvimento local.

“Em apenas alguns anos, a primeira propriedade restaurou uma área sete vezes maior do que o exigido por lei. Projetamos a restauração para priorizar áreas ribeirinhas e conectividade entre fragmentos florestais. Com monitoramento rigoroso, vimos o retorno de espécies que não apareciam há décadas — além da geração de empregos: de poucas dezenas para mais de 500 postos em uma única propriedade. Para dar uma dimensão de escala: essa primeira área tem o tamanho da ilha de Manhattan. Isso muda o jogo — e estamos só começando.”

Impacto, retorno e tempo

Mais do que uma tendência, o que se desenha é uma mudança estrutural na forma como o capital enxerga risco, retorno e responsabilidade. Investimentos baseados na natureza exigem tempo, método e confiança — e não funcionam como soluções imediatas ou mercados de curto prazo. Ainda assim, os sinais de demanda já estão postos.

Para empresas e investidores, a mensagem é clara: em um cenário de pressão climática crescente, escassez de recursos naturais e pressão de stakeholders, a inação tende a sair mais cara do que o investimento bem estruturado. E, nesse novo mapa do capital, a natureza deixou de ser custo para se tornar estratégia.

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