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Conferência de Bonn termina com ataques à ciência, adaptação sem acordo e vazio da COP31

Batalha geopolítica entre países ricos e em desenvolvimento pela narrativa científica foi a maior surpresa: "Recuamos 30 anos", destacou coordenador do Observatório do Clima à EXAME

Bonn reuniu mais de 180 países, mas frustração marcou o desfecho: impasses deixaram caminho difícil rumo à COP31 na Turquia (UN Climate Change | Lara Murillo /Flickr)

Bonn reuniu mais de 180 países, mas frustração marcou o desfecho: impasses deixaram caminho difícil rumo à COP31 na Turquia (UN Climate Change | Lara Murillo /Flickr)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 18 de junho de 2026 às 19h47.

Última atualização em 18 de junho de 2026 às 23h33.

Ataques à ciência, impasse em adaptação climática e uma presidência da COP31 que parecia sem rumo: foi assim que a Conferência de Bonn terminou, deixando o caminho até a Turquia mais nebuloso e difícil do que o esperado.

A plenária final da 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da UNFCCC (SB64), conferência preparatória para a 31º Conferência do Clima da ONU em novembro, não tinha hora para acabar nesta quinta-feira, 18, e mostrou, mais uma vez, o custo do consenso num processo com mais de 180 países à mesa.

À EXAME, especialistas relataram um sentimento geral dentro da sala de negociação: frustração.

"Se ouvia que todos estavam desapontados e insatisfeitos que não chegamos a um acordo. O trabalho acumula para a COP31", destacou Claudio Angelo, coordenador de políticas internacionais do Observatório do Clima, que acompanhava o desfecho em Bonn.

O elemento mais inesperado não foi a falta de consenso na agenda espinhosa de adaptação climática, mas sim a batalha geopolítica que se travou contra a ciência.

"Ninguém esperava que a relação com a narrativa climática virasse um objeto contencioso e de disputa", disse Ângelo.

Um item de agenda sobre o papel do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) expôs a resistência de alguns países frente ao 1,5°C do Acordo de Paris, justamente o limiar que os relatórios do principal órgão científico da ONU sustentam ao documentar os impactos irreversíveis do aquecimento global.

O movimento foi protagonizado por China, Índia e Arábia Saudita. A tática: usar o processo do IPCC como veículo para questionar evidências científicas estabelecidas, como o limite do aumento de temperatura.

A Arábia Saudita, cuja economia depende das exportações de petróleo e gás, opôs-se à linguagem que expressava preocupação com o El Niño e resistiu a que o órgão da ONU fornecesse atualizações regulares sobre a ciência climática. A Índia, que ainda depende fortemente do carvão, foi além: sugeriu eliminar qualquer referência a "mudanças irreversíveis" dos textos de negociação.

Segundo o especialista do Observatório do Clima, o argumento apresentado pelos resistentes foi o de "aparência de equidade": os relatórios do IPCC não sairiam a tempo de representar a ciência dos países em desenvolvimento. Na prática, o efeito é outro.

"É uma briga para reinterpretar a ciência", diz Angelo.

A reação veio numa coalizão improvisada chamada de "Amigos da Ciência", encabeçada por diplomatas de Fiji, Nepal, União Europeia, Suíça, Serra Leoa e Panamá.

Em uma sala lotada de negociadores, prometeram garantir que a tomada de decisões no processo climático continue baseada na "melhor ciência disponível".

Na plenária final, o confronto ficou bastante exposto. De um lado, ilhas vulneráveis, nações menos desenvolvidas e a União Europeia defendendo que a ciência deve guiar as decisões.

Do outro, China e Índia, que também afirmam "defender as evidências científicas", mas com uma condição implícita: desde que ela considere suas realidades econômicas e seus modelos de desenvolvimento.

O resultado foi um encerramento de Bonn em que cada grupo reinterpretou o mesmo conceito a seu favor e nenhum consenso emergiu. Para Angelo, o episódio tem dimensão histórica: "Recuamos 30 anos."

O movimento chama ainda mais atenção depois do protagonismo inédito do Pavilhão científico na COP30, em Belém, quando pela primeira vez a ciência foi formalmente integrada às negociações climáticas da ONU. Na Conferência de Santa Marta, a pauta foi novamente para o centro das discussões de transição energética. 

Adaptação travada

Se a ciência foi a surpresa amarga de Bonn, a adaptação foi o fracasso mais concreto. As negociações em torno da Meta Global de Adaptação (GGA), que define como os países vão se preparar para os impactos severos da crise climática, terminaram sem acordo e a “regra 16” foi invocada.

O que isso significa na prática é duro: todo o trabalho técnico produzido durante a sessão é descartado e o tema "recomeça do zero" na próxima reunião. No caso, a bola segue para a COP31. "É o equivalente a apertar o botão de autodestruição do processo", frisou Angelo.

Divergências sobre financiamento e sobre os indicadores da chamada Visão Belém-Addis impediram acordos nos pontos centrais.

O resultado adia decisões que os países mais vulneráveis ao clima e os mesmos na linha de frente dos "Amigos da Ciência", mais precisam.

Impulso dos combustíveis fósseis, mas decisão adiada

A transição para longe dos combustíveis fósseis também saiu de Bonn com avanços parciais. A presidência brasileira da COP30 conduziu discussões sobre os "roadmaps" ou "mapas do caminho" de transição lançados como grandes legados da COP em Belém e o impulso construído pela Conferência de Santa Marta, realizada em abril, ajudou a manter o tema na mesa.

Mas as conversas terminaram sem uma decisão clara sobre como a eliminação gradual dos fósseis poluentes será incorporada às discussões oficiais da COP31. Para especialistas, a lacuna precisará ser resolvida pelas presidências de Turquia e Austrália antes de novembro.

Para agravar o desafio, os dois países que dividem a liderança da COP31 chegaram a Bonn sem prioridades políticas claras.

A principal iniciativa apresentada foi uma meta de 35% de eletrificação global até 2035, no qual o formato ainda não está definido e a adesão segue incerta.

Enquanto isso, foi a presidência brasileira da COP30, liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago, que continuou dominando as discussões em torno da Decisão Mutirão lançada em Belém.

"Ninguém acha que a COP de Antália vai mudar o mundo", afirmou Angelo. "Não há nada de vida e morte para ser debatido".

Entre os impasses, o que avançou

Apesar da frustração, nem tudo travou. Os países avançaram na operacionalização do Mecanismo de Transição Justa, instrumento central para garantir que a saída dos combustíveis fósseis não abandone trabalhadores e comunidades. O mecanismo deve se tornar operacional ainda este ano.

Nos bastidores, André Corrêa do Lago protagonizou uma jogada regimental: usou as regras da UNFCCC para pressionar pela criação de um item formal de financiamento na pauta da COP31, uma agenda que, sem a manobra, ficaria fora do espaço de debate.

"Enquanto a dupla presidência turco-australiana ainda tenta se entender e se posicionar no tabuleiro, o que testemunhamos foi a continuidade da liderança brasileira", acrescentou Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima.

Na melhor das hipóteses, as lacunas devem ser resolvidas pela Turquia e Austrália antes da grande conferência climática em novembro. A Semana de Clima de Londres, na próxima semana, será o próximo teste.

No processo climático da ONU de difícil consenso, porém, nada é garantido. "Aqui, até o passado é difícil de prever", resumiu o coordenador do Observatório do Clima.

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