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Desastre entre Nepal e Tibete revela como mudanças climáticas ampliam riscos em cadeia

Especialistas apontam que o aquecimento global pode estar alterando a estabilidade de geleiras e montanhas, tornando desastres mais complexos

Evento na fronteira entre Nepal e China combina fatores geológicos e climáticos em uma região que perdeu parte significativa de sua cobertura de gelo nas últimas décadas (Prabin RANABHAT/AFP)

Evento na fronteira entre Nepal e China combina fatores geológicos e climáticos em uma região que perdeu parte significativa de sua cobertura de gelo nas últimas décadas (Prabin RANABHAT/AFP)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 27 de agosto de 2026 às 18h09.

Última atualização em 27 de agosto de 2026 às 18h11.

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Uma enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete, na China, que deixou ao menos 165 mortos e cerca de 1.500 desaparecidos, colocou em evidência uma combinação de fatores que cientistas associam ao aumento da vulnerabilidade das regiões de alta montanha: o derretimento de gelo, a instabilidade de encostas e a ocorrência de eventos extremos em sequência.

Segundo especialistas ouvidos pela Reuters, o desastre desta semana provavelmente começou com o desprendimento de gelo e rochas nas encostas do pico Langtang Lirung, no Nepal. O material teria descido em direção ao rio Lhende Khola, no lado tibetano, provocando uma onda de água, sedimentos e pedras que atingiu áreas habitadas e estruturas de infraestrutura.

A causa exata do colapso ainda está sendo investigada. Inicialmente, autoridades nepalesas levantaram a possibilidade de um terremoto ter desencadeado o evento, mas o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) afirmou que a energia sísmica registrada teria sido consequência do próprio colapso de rochas e gelo, seguido pelo fluxo de detritos.

Imagens de satélite analisadas pela Reuters indicam que uma parte da frente de uma geleira pode ter se desprendido a cerca de 5.200 metros de altitude e caído aproximadamente 1.200 metros até o fundo do vale. Segundo especialistas, o desprendimento teria arrastado grandes volumes de rochas e sedimentos.

O episódio chamou atenção para o conceito de evento composto, quando diferentes fatores naturais se combinam e produzem impactos maiores do que causariam isoladamente. Segundo Benjamin Horton, reitor da Escola de Energia e Meio Ambiente da Universidade da Cidade de Hong Kong, uma combinação entre terremotos, derretimento de geleiras, degelo do permafrost, solo permanentemente congelado, e instabilidade de encostas pode gerar desastres mais complexos.

Mudanças climáticas aumentam instabilidade nas montanhas

Cientistas afirmam que o aquecimento global não deve ser apontado como único fator responsável pelo desastre, mas pode ter contribuído para criar condições mais favoráveis ao colapso.

O aumento das temperaturas pode reduzir a sustentação do gelo em encostas íngremes, elevar o volume de água proveniente do derretimento e alterar os ciclos de congelamento, degelo e precipitação. Esses processos podem enfraquecer estruturas naturais das montanhas e aumentar a possibilidade de grandes deslizamentos em determinadas áreas.

Simon Cox, cientista-chefe do programa “Das Montanhas ao Mar”, da Earth Sciences New Zealand, afirmou que as mudanças climáticas estão criando condições capazes de desestabilizar rochas e gelo em regiões de alta altitude, favorecendo desabamentos e desastres em cadeia.

O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas (ICIMOD), organização sediada no Nepal, afirma que inundações, deslizamentos, avalanches e secas estão se tornando mais frequentes e intensos na região do Hindu Kush, cadeia montanhosa que inclui parte do Himalaia.

Para Farooq Azam, especialista sênior em criosfera, a parte da superfície terrestre coberta por gelo, o aumento das temperaturas tornou essa região mais vulnerável do que no passado.

Infraestrutura também entra na cadeia de impactos

Além das perdas humanas, o desastre afetou estruturas econômicas da região. Pelo menos seis grandes centrais hidrelétricas e infraestruturas localizadas no centro comercial do Porto de Gyirong foram danificadas após o colapso inicial.

O fluxo de água, lama e rochas também alterou leitos de rios mais de 100 quilômetros abaixo do ponto inicial do deslizamento, próximo à fronteira com a Índia.

A região já havia registrado eventos semelhantes em menor escala nos últimos anos. Entre eles estão uma inundação em Gyirong, em 2025, o rompimento de um lago glacial na vila sherpa de Thame, em 2024, e outro evento no estado indiano de Sikkim, em 2023.

Perda de gelo aumenta preocupação de longo prazo

A tendência de redução das geleiras no Nepal tem sido observada por organismos internacionais. Em 2023, a Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que as montanhas nevadas do país perderam quase um terço da cobertura de gelo em pouco mais de três décadas.

Na mesma avaliação, a ONU apontou que as geleiras nepalesas derreteram 65% mais rápido na década anterior do que na década anterior a ela.

O desastre desta semana ainda depende de novas análises para determinar o peso de cada fator envolvido. Mas, para especialistas, compreender como diferentes riscos ambientais se combinam será fundamental para aumentar a capacidade de prevenção e resposta em regiões de alta montanha.

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