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Com 18 mil cuidadores, Acuidar prepara profissionais para a economia prateada

Com diárias a partir de R$ 200 e planos de até R$ 12 mil, empresa capacitou cuidadores para atender idosos, pessoas com deficiência e recém-operados — e cresce em meio à redução do tamanho das famílias e à mudança na divisão do cuidado

Jéssica Ramalho, fundadora da Acuidar: empresa já conta com 18 mil cuidadores e cresce em meio a economia do cuidado e o envelhecimento da população (Acuidar/Divulgação)

Jéssica Ramalho, fundadora da Acuidar: empresa já conta com 18 mil cuidadores e cresce em meio a economia do cuidado e o envelhecimento da população (Acuidar/Divulgação)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 13 de outubro de 2026 às 18h47.

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O envelhecimento da população brasileira começa a movimentar um mercado que, por décadas, esteve concentrado principalmente dentro das famílias. Em 20 anos, o consumo relacionado à economia prateada, mercado formado por produtos e serviços voltados sobretudo à população mais velha, deve chegar a R$ 3,8 trilhões no Brasil.

Para empresas que trabalham com cuidado, essa transformação amplia a demanda. É o caso da Acuidar, criada em João Pessoa, na Paraíba, em 2016. A rede chegou a 375 unidades e reúne mais de 18 mil cuidadores em todo o país. Desse total, aproximadamente 11 mil trabalham com idosos.

“As pessoas antes tinham mais filhos e, consequentemente, tinham mais possibilidade de pessoas que pudessem cuidar. Hoje as pessoas têm menos filhos, ou muitas vezes não têm filhos”, afirma Jéssica Ramalho, fundadora da Acuidar.

Segundo ela, essa mudança dentro das famílias tende a tornar o cuidado profissional mais frequente.

Acuidar: empresa, que nasceu focada no cuidado de idosos, já conta com profissionais preparados para recém-operados, pessoas com deficiência e crianças com autismo (Acuidar/Divulgação)

“Eu tenho vários casais de amigos que já falaram: ‘Jéssica, quando eu envelhecer já deixa meu pacote aí na Acuidar porque o meu cachorrinho não tem como cuidar de mim’”, conta.

A história da empresa também começou dentro de casa. Ramalho conta que passou a cuidar do pai ainda criança. Ele era diabético, hipertenso, enfrentava alcoolismo e desenvolveu demência.

“Com apenas sete anos de idade, percebi que meu pai já estava idoso e que ele precisava de cuidados”, afirma. Segundo ela, naquela época ainda era comum que famílias recorressem a trabalhadoras domésticas para acompanhar idosos e outras pessoas dependentes.

Ainda criança, Ramalho diz ter aprendido a verificar sinais vitais, medir a glicemia e aplicar insulina no pai. A experiência influenciou posteriormente sua decisão de se formar em fisioterapia. Depois da graduação, começou a atender idosos em domicílio e afirma ter encontrado problemas semelhantes aos que observara em casa.

“Era a mesma precariedade do serviço, pessoas despreparadas, domésticas que cuidavam e davam as medicações erradas porque não tinha esse controle.”

Ela cita como exemplo casos em que medicamentos destinados ao período noturno eram administrados pela manhã. O idoso passava o dia dormindo e à noite acordado, agitado dentro de casa. "A gente chegava para fazer a fisioterapia e ele não conseguia fazer porque estava dopado da medicação", conta.

Foi nesse contexto que surgiu a ideia de criar uma empresa de cuidadores. Ramalho discutiu o projeto com o marido, estudava medicina e posteriormente se tornou médico geriatra. O casal abriu a primeira operação em João Pessoa com um empréstimo de R$ 10 mil feito no Banco do Nordeste.

Segundo Ramalho, a empresa começou pequena e foi estruturando protocolos para tarefas que iam da higiene pessoal ao acompanhamento de atividades recreativas.

“Eu sempre pensava no meu pai. Pensava assim: se fosse para cuidar do meu pai, como seria essa avaliação? Eu queria que entendessem da escovação dos dentes, higienização íntima, passeios, lazer, qualidade de vida, atividades lúdicas e recreativas.”

Depois de cerca de um ano, a operação tinha aproximadamente 40 cuidadores. A segunda unidade foi aberta no Recife.

Da assistência aos idosos a outros públicos

Embora os idosos continuem representando a maior parte dos atendimentos, a Acuidar passou a trabalhar também com pessoas com deficiência, pacientes em recuperação de cirurgias, mães no pós-parto e crianças que precisam de acompanhamento.

A expansão para outros públicos, segundo Ramalho, ocorreu a partir de demandas das próprias famílias.

“A gente cuidava de uma idosa e a filha dela teve um AVC. Essa idosa perguntou: ‘Jéssica, vocês cuidam também de pessoas jovens, mas que têm alguma limitação?’” A resposta inicial foi negativa.

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“Eu falei que não. E ela respondeu: ‘Eu queria tanto que vocês também cuidassem da minha filha’. E aí eu pensei: a gente precisa levar cuidado para quem precisa.” A empresa também passou a treinar profissionais para atender recém-operados e mães de múltiplos.

“Uma colega minha que tem uma filha autista perguntou: ‘Jéssica, vocês cuidam de crianças com autismo?’. A gente não tinha esse nicho e eu pensei: por que não especializar pessoas para também cuidar dessas crianças?” Para o atendimento infantil, a rede afirma buscar profissionais com formações complementares como curso de pedagogia ou algum curso voltado para a formação de crianças, que também trabalhem o desenvolvimento infantil.

Homens começam a entrar em uma atividade historicamente feminina

Outra frente adotada pela empresa foi aumentar a presença de cuidadores homens. Segundo Ramalho, a decisão surgiu da percepção de que alguns idosos do sexo masculino preferiam receber ajuda de outros homens em situações que envolvem banho e higiene pessoal.

“Eles falavam: ‘Vai me ver tomando banho, então eu vou ficar constrangido se for uma mulher. Eu prefiro que seja um homem’.” A busca por profissionais masculinos, porém, esbarra em uma característica histórica da economia do cuidado: esse trabalho ainda é exercido majoritariamente por mulheres.

“Nós mulheres somos estimuladas desde a infância a cuidar. Os meninos ganham carrinhos e a gente, bonecas.” Essa diferença também aparecia nos processos seletivos da rede, que por muitas vezes não recebiam a inscrição de nenhum homem.

A companhia passou então a direcionar parte das campanhas de formação para o público masculino. Segundo Ramalho, a presença de um cuidador homem também pode facilitar a aceitação do atendimento por idosos que resistem à ideia de serem cuidados. “Eu tenho muitos clientes, principalmente na região Nordeste, que têm essa dificuldade de aceitar o cuidado. Então eles aceitam mais uma ajuda e não o cuidado em si.”

Na prática, isso significa preservar o máximo possível da autonomia da pessoa. “Muitos falam: ‘Eu quero um suporte, não um cuidador aqui me tocando e fazendo o que tem que ser feito’.” Ela diz que essa postura é mais frequente entre idosos com cognição preservada.

Jéssica Ramalho, fundadora da Acuidar: companhia quer chegar a 500 unidades no Brasil e planeja a expansão internacional para Lisboa (Acuidar/Divulgação)

Serviço pode custar de R$ 200 a R$ 12 mil

O preço do cuidado profissional varia conforme região, frequência e carga horária. Na Acuidar, as diárias começam em aproximadamente R$ 200. Os planos mensais podem chegar a R$ 12 mil nos casos de assistência durante 24 horas, todos os dias da semana.

“Muda bastante de região para região. Tem regiões do país em que o custo de vida é bem inferior, então a remuneração dos cuidadores acaba sendo inferior e, consequentemente, a precificação do contrato fica inferior", explica.

A empresa também trabalha com planos adaptados à rotina das famílias. Uma pessoa pode contratar o serviço apenas no horário comercial, em finais de semana ou em determinados dias. Esse modelo expõe uma das questões que acompanham a profissionalização do cuidado: mesmo com o envelhecimento da população, contratar um profissional continua dependendo da capacidade financeira de cada família.

A transformação da Acuidar em uma rede de franquias começou em 2020, justamente no início da pandemia de covid-19. “Era janeiro ainda. A pandemia não tinha explodido aqui no Brasil. Treinamos as cinco primeiras unidades", diz.

Segundo Ramalho, enquanto diferentes empresas reduziram ou suspenderam operações naquele período, a demanda por cuidadores aumentou. “Foi um período muito difícil para vários negócios, mas para o nosso foi um período de crescimento. Foi o maior faturamento da nossa história."

Ela afirma que o marido criou protocolos específicos para profissionais que precisavam atender pessoas infectadas pelo coronavírus. Para a empresa, a pandemia também funcionou como acelerador da expansão por franquias. “De lá para cá, a gente vem crescendo cada vez mais", conta. Seis anos depois do início da expansão, a empresa chegou a 375 unidades.

 

Próxima parada: Lisboa

A companhia pretende chegar a 500 unidades no Brasil até o fim de 2027. Segundo Ramalho, esse é o limite estimado pela própria empresa para o território brasileiro. “Hoje estamos com 375 unidades. Queremos chegar a 500 unidades no Brasil. É o nosso pico máximo porque realmente não temos tanto território para comportar mais unidades.”

O cálculo, segundo ela, foi feito a partir de um estudo interno de geomarketing, análise territorial usada para definir áreas de expansão. Paralelamente, a empresa prepara sua primeira operação internacional, em Lisboa. A unidade portuguesa será própria, e não uma franquia.

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“Eu quero ter know-how para poder expandir. Pelo estudo que a gente já fez, tudo é bem diferente do Brasil, tanto na parte tributária quanto na contratação de pessoas e montagem de escala.” A ideia é testar primeiro o funcionamento da operação antes de reproduzir o modelo em outras franquias.

“A técnica quero manter a mesma, mas a parte documental, administrativa e estratégica é diferente. Então eu preciso ter uma unidade nossa em operação, para conseguir ter know-how suficiente para passar para as franquias.”

A expansão ocorre enquanto o envelhecimento brasileiro muda também a estrutura do cuidado. Com menos filhos, maior participação feminina no trabalho remunerado e uma população que vive por mais tempo, uma atividade antes concentrada dentro das famílias começa a migrar, ao menos em parte, para um mercado profissional.

“A expectativa é que a necessidade só aumente”, diz Ramalho. “Então nosso mercado cresce acompanhando a evolução da economia prateada.”

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