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Enquanto seleções treinam para o confronto na Copa do Mundo 2026, países disputam a liderança no uso de fontes renováveis para gerar energia elétrica
Repórter de ESG
Publicado em 1 de julho de 2026 às 17h05.
Enquanto as seleções de Brasil e Noruega se preparam para entrar em campo neste domingo, 5, pelas oitavas de final da Copa do Mundo 2026, os dois países também aparecem entre os protagonistas de outra disputa, agora fora do gramado: a liderança global da energia limpa.
Segundo dados da thinktank de energia Ember, a Noruega gerou 98% de sua eletricidade a partir de fontes de baixo carbono em 2024 — um dos índices mais altos do mundo e muito acima da média global, de 41%, calculada pela mesma organização.
A hidrelétrica responde por 89% dessa eletricidade limpa no país, enquanto eólica e solar somam 9% e combustíveis fósseis ficam com apenas 2%. A intensidade de emissões do setor elétrico norueguês também é baixa: 0,9 tonelada de CO2 por habitante em 2024, ante 1,8 tonelada por habitante na média global, segundo a Ember.
O Brasil também figura entre as matrizes elétricas mais limpas do planeta. De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 88,2% da eletricidade gerada no país em 2024 veio de fontes renováveis — resultado da combinação entre hidrelétricas, eólica, solar e biomassa.
Enquanto a Noruega ocupa a liderança nesse ranking, a França aparece com 92% de eletricidade limpa, em segundo lugar. O Brasil é o terceiro colocado, e em seguida, o Canadá, embora estudos variem entre 81% e 66%, a depender do ano e do critério considerado — já que comparações internacionais desse tipo dependem da metodologia usada por cada fonte.
A diferença mais reveladora entre os dois países, porém, aparece quando a conta sai da eletricidade e passa a olhar para toda a economia. É aí que mora o retrato mais completo da transição energética de cada um.
A Noruega segue fortemente dependente do petróleo e do gás em sua matriz energética mais ampla — que inclui, além da eletricidade, transporte, indústria e aquecimento.
O governo norueguês mantém e defende a produção de petróleo e gás, inclusive sob o argumento de manter a segurança energética europeia. Ou seja, a liderança em eletricidade limpa não se traduz em uma economia descarbonizada: a Noruega é um caso de transição elétrica bem-sucedida, mas não de descarbonização integral.
O Brasil caminha em direção diferente. Em 2024, a matriz energética brasileira atingiu 50% de renovabilidade, segundo o Ministério de Minas e Energia e a EPE — o que significa que metade de toda a energia ofertada no país, e não apenas a eletricidade, veio de fontes renováveis.
O resultado foi sustentado principalmente por hidrelétrica e biomassa da cana, com crescimento de solar, eólica, licor preto e biocombustíveis, além de queda no consumo final de derivados de petróleo e gás natural. Na prática, o Brasil é forte não só na eletricidade, mas também em parte do consumo energético total — ainda que continue dependente de fontes fósseis em transporte e indústria.
É esse contraste que dá à disputa fora de campo um enredo mais interessante do que um simples ranking. A Noruega mostra o que acontece quando um país descarboniza quase toda a eletricidade; o Brasil mostra o desafio de fazer isso em uma economia ainda puxada por combustíveis fósseis fora do setor elétrico.
Do lado norueguês, o principal ensinamento é a consistência de longo prazo na eletrificação com baixas emissões: o país mantém 98% da eletricidade em bases de baixo carbono e usa essa vantagem como plataforma para eletrificar outros setores, como o de transporte.
A experiência também mostra que alinhar infraestrutura, política pública e sinal econômico acelera a troca tecnológica, em vez de depender apenas da disponibilidade natural de recursos — um ponto útil para o Brasil especialmente em mobilidade, expansão de redes, integração de renováveis variáveis e planejamento de carregamento e armazenamento.
Ao mesmo tempo, o caso norueguês funciona como aviso: liderança elétrica não elimina dependência de petróleo e gás, e a transição precisa ser lida na escala da economia inteira, não apenas do setor elétrico.
Do lado brasileiro, a lição é que já é possível combinar hidrelétrica, biomassa, eólica e solar em uma matriz energética que chegou à metade renovável — mesmo com o consumo total do país ainda marcado pelo peso de petróleo e gás.
O melhor contraste entre os dois países, portanto, não é sobre quem é mais verde, mas sobre quem conseguiu descarbonizar primeiro a eletricidade e quem ainda precisa avançar no restante da economia.
A Noruega já venceu a etapa da geração; o Brasil ainda tem uma janela grande para usar sua matriz relativamente limpa como base de uma transição mais ampla. Antes de decidir a vaga nas quartas de final em campo, os dois países já disputam, cada um a seu modo, a corrida pelas energias do futuro.