Cérebro: estudo identificou alterações na organização do DNA após estresse precoce (Freepik)
Redatora
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 18h48.
Experiências traumáticas nos primeiros anos de vida podem provocar mudanças duradouras no cérebro. Um estudo da WashU Medicine identificou uma alteração molecular que deixou neurônios mais preparados para reagir ao estresse posteriormente.
A pesquisa foi realizada em camundongos e investigou como experiências adversas durante o desenvolvimento modificam a organização do DNA dentro de células cerebrais. O trabalho foi publicado na revista Neuron no início deste mês.
Os pesquisadores se concentraram na área tegmental ventral, uma região do cérebro que contém neurônios produtores de dopamina. Esse neurotransmissor participa do processamento de experiências como recompensas e situações adversas.
A equipe analisou o epigenoma, conjunto de marcas moleculares que ajuda a controlar a atividade dos genes. Essas marcas não alteram a sequência do DNA, mas podem modificar o quanto determinados genes ficam acessíveis.
Para entender esse processo, é preciso considerar como o DNA fica organizado dentro das células. Ele é enrolado em proteínas chamadas histonas, que ajudam a manter o material genético mais compacto ou mais aberto.
Nos camundongos jovens expostos ao estresse, os pesquisadores encontraram níveis elevados da enzima SETD7 nos neurônios dopaminérgicos.
A SETD7 adiciona ao sistema de organização do DNA uma marca química chamada H3K4me1. Segundo os pesquisadores, essa alteração favorece uma estrutura menos compacta. Com o DNA mais aberto, genes relacionados à resposta ao estresse ficam mais acessíveis para serem ativados.
Para testar se a SETD7 poderia provocar esse efeito, os cientistas aumentaram artificialmente seus níveis em camundongos jovens que não haviam sofrido estresse.
Na fase adulta, os animais apresentaram uma estrutura de DNA mais aberta nos neurônios produtores de dopamina. Essas estruturas também ficaram mais reativas, e os camundongos demonstraram comportamento mais ansioso.
Dessa forma, os resultados indicaram que a alteração ocorrida durante o desenvolvimento poderia permanecer mesmo depois de os animais crescerem.
Na etapa seguinte, os pesquisadores fizeram o movimento contrário. Após expor os camundongos ao estresse precoce, reduziram a atividade da SETD7. A intervenção evitou o excesso da marca H3K4me1 e manteve o DNA mais compactado nos neurônios analisados.
Na idade adulta, esses animais não apresentaram a mesma sensibilidade elevada ao estresse observada nos camundongos com atividade normal da enzima.
Mesmo depois de enfrentar uma nova situação estressante, eles mantiveram comportamento semelhante ao dos animais que não haviam passado por estresse no início da vida. A atividade dos neurônios dopaminérgicos também permaneceu em níveis considerados normais pelos pesquisadores.
Os experimentos sugerem que o estresse durante o desenvolvimento pode produzir alterações duradouras na forma como o DNA é organizado dentro dos neurônios. Nesse processo, a SETD7 e a marca H3K4me1 aparecem associadas à maior acessibilidade de genes envolvidos na resposta ao estresse.
Os pesquisadores descrevem esse mecanismo como uma possível memória molecular das adversidades enfrentadas no início da vida.
A descoberta também oferece um mecanismo específico para investigar como experiências precoces podem influenciar respostas ao estresse muitos anos depois.