Tempestade solar: projeto StormWall propõe criar uma barreira de plasma para reduzir os impactos de eventos extremos (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
Redatora
Publicado em 14 de julho de 2026 às 20h51.
Uma tempestade solar extrema tem potencial para provocar apagões em larga escala, interromper sistemas de comunicação, danificar satélites e comprometer infraestruturas críticas em todo o planeta.
Para reduzir esse risco, cientistas propuseram um projeto que lembra um cenário de ficção científica: criar um escudo artificial no espaço capaz de reforçar temporariamente a proteção natural da Terra.
Batizado de StormWall, o conceito foi desenvolvido por pesquisadores dos Estados Unidos. Os resultados foram publicado na revista científica AGU Earth and Space Science e detalhada pelo The Wall Street Journal.
Segundo os pesquisadores, a tecnologia poderia ser construída com recursos que já existem ou que devem estar disponíveis nas próximas décadas, embora ainda dependa de diversos avanços científicos e de engenharia.
A Terra possui uma proteção natural chamada magnetosfera, formada pelo campo magnético gerado no interior do planeta. Essa estrutura desvia grande parte das partículas carregadas emitidas pelo Sol, impedindo que atinjam diretamente a atmosfera.
Durante tempestades solares muito intensas, porém, essa barreira pode ser parcialmente sobrecarregada. Nesses casos, partículas altamente energéticas conseguem interagir com a magnetosfera, provocando tempestades geomagnéticas capazes de afetar equipamentos eletrônicos e infraestruturas críticas.
Para reduzir esse impacto, o StormWall prevê o uso de seis satélites posicionados em órbita geossíncrona. Quando uma ejeção de massa coronal extremamente intensa fosse detectada, eles liberariam centenas de toneladas de materiais como bário, lítio ou sódio.
A radiação solar transformaria rapidamente esse material em uma nuvem de plasma ionizado, criando uma barreira temporária capaz de reduzir a transferência de energia das partículas solares para a magnetosfera. Segundo os pesquisadores, essa proteção poderia durar cerca de seis horas.
O Sol libera continuamente partículas carregadas em direção ao Sistema Solar por meio do chamado vento solar. Na maior parte do tempo, essas partículas são desviadas pela magnetosfera terrestre.
O problema ocorre durante as ejeções de massa coronal, grandes explosões de plasma e campo magnético que podem lançar enormes quantidades de partículas em direção à Terra. Quando esses eventos atingem o planeta, podem provocar falhas em satélites, interrupções em sistemas de GPS, problemas nas comunicações por rádio e danos às redes elétricas.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 1989, quando uma tempestade solar deixou a província de Quebec, no Canadá, sem energia por cerca de nove horas. Em 2024, outra tempestade intensa causou interferências em sistemas de navegação utilizados por agricultores nos Estados Unidos e levou operadores da rede elétrica da Nova Zelândia a adotar medidas preventivas.
Embora o conceito seja considerado fisicamente plausível por especialistas em clima espacial, sua implementação ainda está distante. O principal obstáculo é transportar aproximadamente 380 toneladas de material ionizável para a órbita geossíncrona, localizada a cerca de 36 mil quilômetros da Terra. De acordo com o estudo, atualmente, essa capacidade de lançamento ainda não existe.
Os autores apontam que futuros foguetes de grande porte, como a Starship, da SpaceX, e o Longa Marcha 9, em desenvolvimento na China, poderão tornar esse tipo de missão viável.
Além disso, será necessário aperfeiçoar os sistemas capazes de prever tempestades solares com antecedência suficiente para permitir o acionamento do StormWall.
Segundo os pesquisadores, o StormWall não substituiria a proteção natural da magnetosfera, tampouco seria utilizado rotineiramente.
A proposta é que o sistema funcione apenas diante de tempestades solares excepcionais, aquelas que podem ocorrer, em média, uma vez por século e que têm potencial para provocar impactos globais sobre redes elétricas, satélites, centros de dados, sistemas de navegação e infraestrutura crítica.
Os autores estimam que, mesmo que um projeto desse tipo custe dezenas ou até cerca de US$ 100 bilhões, o investimento poderia ser pequeno diante dos prejuízos econômicos que uma tempestade solar extrema seria capaz de causar em uma sociedade cada vez mais dependente de tecnologias espaciais e sistemas eletrônicos.