Picada de cobra: estudo investigou por que o envenenamento pode desencadear complicações neurológicas, incluindo AVC (Freepik)
Redatora
Publicado em 5 de setembro de 2026 às 13h16.
Uma picada de cobra pode provocar uma série de complicações além dos efeitos conhecidos sobre a coagulação. Entre elas está o acidente vascular cerebral (AVC), que pode ocorrer mesmo quando a vítima recebe atendimento médico poucas horas após o envenenamento.
A associação foi investigada por pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado. A revisão, publicada na revista PLoS Neglected Tropical Diseases, reuniu 130 casos de AVC relacionados a envenenamento por serpentes.
Os registros vieram de 22 países. Índia, Brasil e Sri Lanka concentraram a maior parte dos casos analisados. Entre os pacientes, 61,5% tiveram AVC isquêmico, enquanto 38,5% apresentaram a forma hemorrágica. A mortalidade chegou a 23,4%.
A relação entre o acidente ofídico e o AVC está ligada à ação das toxinas sobre o sistema circulatório. Dependendo da espécie, o veneno pode interferir na coagulação, nas plaquetas e nos vasos sanguíneos.
Algumas substâncias favorecem sangramentos ao comprometer os mecanismos responsáveis pela coagulação. Outras podem estimular processos inflamatórios e a formação de coágulos.
Esses efeitos ajudam a explicar por que os dois principais tipos de AVC aparecem após o envenenamento. No AVC isquêmico, um vaso é obstruído por um coágulo. Já no hemorrágico, ocorre o rompimento de um vaso e o sangramento cerebral.
A ação do veneno também não fica necessariamente restrita ao cérebro. Alterações na coagulação podem provocar trombos ou hemorragias em diferentes órgãos, incluindo coração, pulmões e rins.
Um dos achados que chamaram a atenção dos pesquisadores foi a ocorrência de AVC mesmo entre pacientes atendidos rapidamente. Segundo Wuelton Marcelo Monteiro, um dos autores do estudo, uma parcela relevante dos casos recebeu soro antiofídico em menos de seis horas após a picada e ainda assim desenvolveu a complicação neurológica.
Isso não significa que o atendimento precoce seja pouco importante. O soro continua sendo fundamental para neutralizar as toxinas do veneno e reduzir suas consequências.O problema é que algumas alterações podem começar antes da administração do antiveneno. Por isso, os cientistas destacaram que o tratamento rápido não garante que todas as complicações serão evitadas.
Os acidentes por serpentes ocorrem com frequência em áreas rurais e regiões onde o acesso aos serviços de saúde é limitado. Na Amazônia, por exemplo, grandes distâncias podem dificultar tanto o atendimento quanto a realização de exames.
Essa situação também pode contribuir para que casos de AVC não sejam reconhecidos. A falta de tomografia e de equipes especializadas dificulta a confirmação do diagnóstico, sobretudo em localidades afastadas dos centros urbanos.
Os pesquisadores avaliam que o problema pode estar subestimado justamente por essas limitações. A revisão reuniu casos descritos na literatura, mas não permite determinar a frequência real da complicação entre todas as pessoas picadas por serpentes.
No Brasil, o Ministério da Saúde registrou 28.626 acidentes envolvendo serpentes em 2025. Ao todo, 149 pessoas morreram após esses acidentes.
Os sintomas de um AVC associado ao envenenamento são semelhantes aos observados em outros tipos de AVC. Fraqueza súbita, dificuldade para falar, alterações na visão e perda de consciência estão entre os sinais de alerta. Náuseas, vômitos e alterações neurológicas também podem indicar agravamento do quadro após uma picada.
Qualquer acidente com serpente peçonhenta exige atendimento médico imediato. O soro antiofídico deve ser administrado em ambiente de saúde, conforme avaliação da equipe.
Também não é recomendado fazer torniquetes ou esperar o surgimento de sintomas para procurar ajuda. Quanto mais cedo a vítima receber atendimento adequado, maiores são as possibilidades de identificar e tratar complicações do envenenamento.