Ciência

O que acontece se uma usina nuclear for atingida em um ataque?

Risco não está na explosão, mas na falha de sistemas críticos, que pode levar à liberação de radiação

Usina nuclear: risco está na falha de sistemas críticos, não no impacto inicial (Wikimedia Commons)

Usina nuclear: risco está na falha de sistemas críticos, não no impacto inicial (Wikimedia Commons)

Publicado em 26 de abril de 2026 às 07h10.

Ataques a usinas nucleares costumam gerar preocupação imediata, mas o principal risco não está na explosão. O perigo surge quando sistemas essenciais de segurança são comprometidos, o que pode resultar na liberação de material radioativo. É o que aponta uma análise da WIRED Middle East, com base em dados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Na maioria dos casos, instalações nucleares modernas são projetadas para suportar impactos e contam com várias camadas de proteção. Mesmo quando atingidas, essas estruturas tendem a desligar automaticamente seus reatores, reduzindo o risco imediato de um acidente grave.

Onde começa o risco

O impacto inicial raramente é o principal problema. O risco aumenta quando há danos a sistemas internos essenciais. Se a estrutura crítica permanece intacta, a probabilidade de contaminação é baixa. Por outro lado, falhas em componentes como fornecimento de energia ou controle operacional podem agravar a situação.

Relatos recentes de ataques a instalações no Irã, como Natanz e Isfahan, não indicaram vazamentos de radiação até o momento, segundo monitoramento da agência internacional.

Falha de resfriamento é o principal perigo

Mesmo após o desligamento automático, o núcleo do reator continua gerando calor. Esse processo exige controle constante por meio de sistemas de resfriamento. Caso esses mecanismos parem de funcionar — por falta de energia, danos estruturais ou falhas mecânicas — a temperatura interna pode subir rapidamente.

Com isso, há acúmulo de gases e degradação do combustível nuclear. É nesse momento que o risco de liberação de radiação se torna mais elevado.

Situações que podem agravar um acidente

  • Perda de energia elétrica: compromete o funcionamento dos sistemas de controle e monitoramento;
  • Falha nos sistemas de resfriamento: impede a dissipação do calor do núcleo, aumentando o risco de superaquecimento;
  • Danos estruturais ao reator: podem afetar a contenção do material nuclear;
  • Destruição de geradores de emergência: elimina a principal fonte alternativa de energia em situações críticas.

Se essas falhas ocorrem em conjunto, o cenário pode evoluir para a liberação de elementos radioativos. Entre eles está o césio-137, um dos mais preocupantes por permanecer no ambiente por longos períodos e contaminar solo, água e alimentos.

Casos históricos ajudam a entender o risco. No desastre de Chernobyl, houve liberação massiva de radiação após falhas graves no reator. Já em Fukushima, o problema começou após a perda de energia e dos sistemas de resfriamento, horas depois do evento inicial.

Liberação de radiação depende da gravidade do dano

A dispersão de material radioativo varia conforme o tipo de substância liberada e as condições ambientais. Alguns elementos se dissipam rapidamente, enquanto outros podem permanecer no solo, na água e nos ecossistemas por décadas.

Se houver liberação significativa, os efeitos podem ultrapassar a área diretamente atingida. A contaminação pode se espalhar pelo ar, água e solo, dependendo de fatores como vento, correntes marítimas e características do território.

Em regiões costeiras, como o Golfo Pérsico, há um fator adicional de risco: a dependência de água dessalinizada. Caso o mar seja contaminado, o abastecimento de milhões de pessoas pode ser diretamente afetado.

Como o mundo reage a um incidente nuclear

De acordo com Amgad Shokr, diretor do Centro de Incidentes e Emergências da AIEA, o processo internacional de resposta começa com a verificação das informações junto às autoridades nacionais e a avaliação do potencial impacto.

Shokr destacou que a Agência Internacional de Energia Atômica atua como centro de coordenação, reunindo dados, monitorando a situação e divulgando atualizações. A análise inclui a verificação de funções essenciais, como fornecimento de energia, resfriamento e integridade estrutural, além da simulação da possível dispersão da radiação.

Cenários mais prováveis e mais graves

Na maioria das situações, mesmo após ataques, a contaminação tende a ser limitada e controlada. Isso ocorre porque os sistemas de segurança são projetados para evitar falhas em cadeia.

O cenário mais grave envolve a perda contínua de sistemas críticos, sobretudo o resfriamento do reator. Nessa situação, pode ocorrer um colapso do núcleo, com liberação significativa de material radioativo no ambiente.

Acompanhe tudo sobre:Usinas nuclearesCuriosidades

Mais de Ciência

Macacos comem terra para aliviar dor no estômago - e a causa é o ser humano

Dentes brancos? Nem sempre é sinal de saúde bucal

Material quântico 'falso' engana cientistas e revela novo estado da matéria

Ruivos venceram a seleção natural por 10 mil anos, aponta estudo de Harvard