Startups nucleares crescem com promessa de reduzir custos e atrasos na produção (koto_feja/Getty Images)
Colaboradora
Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 15h06.
Última atualização em 12 de janeiro de 2026 às 15h38.
A indústria nuclear vive um "renascimento" nos Estados Unidos. Impulsionado por investimentos em startups que prometem reatores menores e baratos e pela reforma de usinas antigas, o setor angariou cerca de US$ 1,1 bilhão apenas nas últimas semanas de 2025, segundo um levantamento da TechCrunch.
Essa disparada se deu pela expectativa dos investidores na capacidade dos pequenos reatores modulares de superar entraves históricos de custo e prazo, tão presentes na indústria nuclear tradicional, segundo artigo assinado pelo jornalista Tim de Chant.
Nos EUA, as unidades Vogtle 3 e 4, na Geórgia, usam toneladas de concreto, conjuntos de combustível com mais de quatro metros de altura e capacidade superior a 1 gigawatt cada. Mesmo com toda essa estrutura, atrasaram mais de oito anos a produção e superaram em mais de US$ 20 bi o orçamento original.
Agora, o objetivo das startups do setor é construir reatores menores, replicáveis e fáceis de serem produzidos em escala industrial. Uma lógica semelhante a de outros mercados: aumentar a produção, padronizar componentes e reduzir custos.
Ainda não há dados concretos sobre o ganho de eficiência com essa estratégia, mas empresas emergentes apostam nela para viabilizar o modelo.
O principal desafio do renascimento da indústria é a execução, uma vez que a fabricação em assa exige uma cadeia industrial robusta, algo que o setor nuclear dos EUA perdeu ao longo de décadas.
Milo Werner, sócia da gestora de capital de risco DCVC, afirmou ao TechCrunch que a indústria depende hoje de insumos que não são mais produzidos no país.
"Tenho vários amigos que trabalham na cadeia de suprimentos para a indústria nuclear, e eles conseguem listar de cinco a dez materiais que simplesmente não fabricamos nos Estados Unidos. Precisamos comprá-los no exterior. Esquecemos como produzi-los", pontuou.
De acordo com a executiva — que liderou lançamentos de produtos na Tesla e participou da abertura de fábricas na China —, há dois grandes obstáculos para qualquer empresa que queira fabricar em escala.
O primeiro deles é o capital financeiro, já que as fábricas exigem investimentos elevados. Como há capital de sobra no setor nuclear, esse fator não tem tanto impacto.
O segundo desafio é a falta de capital humano. Segundo Werner, o fato dos EUA não construírem grandes instalações industriais desde a década de 1980 resultou na perda de experiência prática. "É como se tivéssemos ficado sentados no sofá assistindo à TV por 10 anos e, no dia seguinte, levantássemos e tentássemos correr uma maratona. Não é bom", argumentou.
A escassez, conforme a executiva, vai além dos operadores de máquinas: envolve supervisores, gestores financeiros e membros de conselhos que entendam de manufatura. "Certamente existem algumas pessoas nos Estados Unidos que fazem isso, mas não temos o número necessário de pessoas para que todos tenham uma equipe completa de profissionais experientes em manufatura", completa.
Apesar dos dois problemas apontados, Werner ainda tem esperanças para o setor nuclear. Isso porque muitas startups estão desenvolvendo versões iniciais de seus produtos bem perto de suas equipes técnicas, o que reduz os ciclos de teste e aprimoramento e, de quebra, reaproxima a produção do território americano.
Para colher os benefícios dessa produção em massa, a melhor estratégia para as startups seria crescer de forma gradual. Ela usa o termo "modularidade", que permite iniciar com volumes reduzidos, coletar dados do processo de produção e registrar a eficiência ao longo do tempo.
"Apostar na modularidade é muito importante para os investidores", diz, reiterando que esse "renascimento" a partir na produção em massa tende a ser lento. "Muitas vezes, leva uma década para chegar lá", pontua.