'A Odisseia': filme dirigido por Christopher Nolan retrata uma jornada ambientada após a Guerra de Troia (Universal/Divulgação)
Redatora
Publicado em 29 de agosto de 2026 às 09h03.
A história de “A Odisseia”, filme de Christopher Nolan, se passa em um período marcado por guerras, migrações e mudanças profundas no Mediterrâneo. Agora, um estudo publicado na revista científica Science Advances levanta uma possível explicação para a crise que atingiu a região há mais de 3 mil anos.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Estocolmo, aponta que uma combinação de mudanças climáticas e períodos prolongados de seca pode ter contribuído para o colapso de sociedades no fim da Idade do Bronze.
O período foi marcado pela desintegração ou declínio de diferentes reinos e sociedades da região. Estudos anteriores já haviam relacionado períodos de seca a esse processo, mas ainda havia dúvidas sobre os mecanismos climáticos que produziram condições tão severas.
A pesquisa identificou uma tendência de ressecamento que vinha ocorrendo há milhares de anos. O fenômeno afetou o sistema de monções da África Ocidental e contribuiu para a transformação do Saara em uma região mais árida.
Com menos chuvas no norte da África, houve também redução da precipitação em áreas do Mediterrâneo. Esse processo ocorreu paralelamente a ciclos naturais do Atlântico que alternavam períodos de maior umidade e estiagem. Segundo os pesquisadores, a combinação desses fenômenos agravou as condições ambientais da região.
Os cientistas analisaram evidências presentes em esporos de plantas, núcleos de gelo, rochas de cavernas e outros registros naturais. Depois, utilizaram modelos climáticos para analisar as condições em diferentes regiões do planeta ao longo de milhares de anos. A abordagem permitiu observar padrões de precipitação e temperatura em uma escala mais ampla.
Os resultados não apontam para um único evento climático responsável pelo colapso. Em vez disso, indicam que mudanças graduais podem ter se acumulado até ultrapassar a capacidade de adaptação das sociedades.
A redução da disponibilidade de água poderia ter afetado as colheitas e aumentado a pressão sobre as populações. Esse cenário pode ter contribuído para migrações, conflitos e instabilidade política.
Katherine Power, primeira autora do estudo, afirma que não é possível determinar apenas pelo clima por que determinados grupos migraram. No entanto, condições ambientais cada vez mais difíceis podem ter sido um dos fatores envolvidos.
“A Odisseia” é uma das obras mais conhecidas da literatura da Grécia Antiga e acompanha a jornada de retorno de Odisseu após a Guerra de Troia.
A história se desenvolve em um contexto associado ao Mediterrâneo da Antiguidade. O novo filme de Christopher Nolan utiliza esse universo para apresentar uma adaptação cinematográfica da obra atribuída a Homero.
O estudo não afirma que os acontecimentos narrados em “A Odisseia” foram provocados diretamente pelas mudanças climáticas identificadas. A pesquisa trata de um contexto histórico mais amplo, marcado pelo colapso de sociedades no final da Idade do Bronze.
Para os pesquisadores, a descoberta também ajuda a discutir os riscos relacionados às mudanças climáticas contemporâneas. Os ciclos naturais de umidade e seca identificados no estudo continuam existindo. A diferença é que eles ocorrem atualmente em um planeta que está se aquecendo devido principalmente à emissão de gases de efeito estufa pela atividade humana.
O arqueólogo Eric H. Cline, da Universidade George Washington, também vê paralelos entre os dois períodos. Para ele, secas, doenças e outros fatores contribuíram para uma combinação de crises que ajudou a desestabilizar as sociedades da Idade do Bronze.