Ciência

Pela primeira vez, IA ajuda cirurgiões em tempo real durante cirurgia cerebral

Britânico de 48 anos passou por retirada de tumor com ferramenta capaz de identificar vasos e nervos durante o procedimento

Hospital do Reino Unido: tecnologia ajudou médicos a localizar estruturas próximas a um tumor na hipófise (Reprodução/Hospital Nacional de Neurologia e Neurocirurgia do Reino Unido)

Hospital do Reino Unido: tecnologia ajudou médicos a localizar estruturas próximas a um tumor na hipófise (Reprodução/Hospital Nacional de Neurologia e Neurocirurgia do Reino Unido)

Publicado em 29 de agosto de 2026 às 09h00.

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O britânico Rhys Hibbert, de 48 anos, tornou-se o primeiro paciente do mundo a passar por uma cirurgia cerebral com assistência de inteligência artificial em tempo real. Durante o procedimento, realizado no University College London Hospital, no Reino Unido, a ferramenta analisou imagens e indicou aos cirurgiões a localização de vasos sanguíneos e nervos importantes.

O objetivo era permitir a retirada do máximo possível do tumor cerebral, preservando estruturas próximas. De acordo com informações divulgadas nesta quinta-feira, 27, pelo UCLH, sem o procedimento Hibbert poderia ter perdido a visão.

Tumor afetava a visão do paciente

Hibbert começou a apresentar problemas cerca de 18 meses antes da cirurgia. Durante uma caminhada, perdeu a consciência e passou a sofrer convulsões. Exames identificaram um tumor não canceroso de 11 milímetros na hipófise, uma glândula localizada na base do crânio.

A massa estava próxima das artérias carótidas e dos nervos ópticos. À medida que o tumor pressionava essas estruturas, Hibbert perdeu parte da visão periférica. Ele também passou a apresentar tonturas, cansaço intenso e dificuldade para perceber objetos ao redor.

Como a IA ajudou na cirurgia

O procedimento foi realizado com um endoscópio introduzido pelo nariz até a base do crânio. O aparelho possui uma câmera que transmite imagens da região operada. Na área do tumor, vasos e nervos importantes ficam próximos da massa e podem estar escondidos por estruturas ósseas e membranas.

A ferramenta de IA funcionou em uma segunda tela durante a operação. O sistema analisava o vídeo em tempo real, acompanhava os instrumentos usados pelos médicos e indicava estruturas anatômicas relevantes.

Os pontos identificados eram destacados na tela para orientar a equipe sobre as regiões mais seguras para a retirada da massa.

Para desenvolver a tecnologia, pesquisadores utilizaram centenas de vídeos de cirurgias para retirada de tumores da hipófise. Os especialistas marcaram nas imagens os contornos de vasos sanguíneos e nervos. Essas informações foram usadas para treinar o sistema a reconhecer as estruturas durante novos procedimentos.

A proposta é que a ferramenta funcione como um apoio adicional para o cirurgião, sem substituir sua decisão. “Ele foi projetado para ajudar a reconhecer anatomia crítica, instrumentos cirúrgicos e interações teciduais em tempo real, auxiliando o cirurgião durante procedimentos extremamente delicados”, afirmou a Dra. Sophia Bano, professora associada de robótica e inteligência artificial na University College London e líder técnica do sistema.

Paciente relata melhora na visão

Após a cirurgia, Hibbert afirmou ter percebido uma melhora significativa na visão. Segundo ele, a mudança foi perceptível logo depois do procedimento. Nas semanas seguintes, relatou que sua visão continuou melhorando.

O britânico também afirmou ter recuperado energia e deixado de sentir alguns dos efeitos que apresentava antes da operação. “Sinto como se tivesse uma visão panorâmica de 360 graus de tudo ao meu redor”, disse Hibbert.

Antes do procedimento, os profissionais estimavam entre 25% e 50% a possibilidade de não conseguirem retirar todo o tumor. Também havia uma chance estimada entre 0,5% e 2% de lesionar um vaso sanguíneo importante.

A ferramenta foi criada justamente para ajudar a equipe a identificar estruturas delicadas durante o procedimento e orientar a retirada da massa.

Tecnologia ainda está em desenvolvimento

Apesar do resultado inicial, a ferramenta continua sendo experimental. Os pesquisadores agora trabalham em um estudo maior para avaliar seu desempenho em mais procedimentos.

A equipe também pretende ampliar as funções do sistema. Uma das ideias é desenvolver uma ferramenta capaz de oferecer aos cirurgiões orientações durante diferentes tipos de operações.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que a decisão continua nas mãos do médico. A inteligência artificial atua como suporte durante o procedimento, e não como responsável pela cirurgia.
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