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Brasil quer exportar tecnologia de agricultura tropical para este pequeno país africano

ApexBrasil assina acordo com agência da Zâmbia para ampliar negócios em agro, proteínas e energia; comércio entre os dois países somou US$ 7,5 milhões em 2025

Missão Brasil-Zâmbia: paises querem ampliar comércio (André Martins/Exame)

Missão Brasil-Zâmbia: paises querem ampliar comércio (André Martins/Exame)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 29 de agosto de 2026 às 09h00.

Última atualização em 29 de agosto de 2026 às 13h25.

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De Lusaca, Zâmbia*

Em meio ao esforço para abrir novos mercados após o tarifaço dos Estados Unidos, o Brasil mira um país africano de economia pequena, mas com potencial estratégico para a produção de alimentos.

A Zâmbia busca modernizar sua agricultura e ampliar o processamento de cadeias como milho, soja, trigo e mandioca, enquanto empresas brasileiras podem oferecer tecnologia e conhecimento desenvolvidos em um ambiente tropical semelhante ao brasileiro.

A aproximação ganhou um marco nesta sexta-feira, 28, com a assinatura de um memorando de entendimento entre a ApexBrasil, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, e a Agência de Desenvolvimento da Zâmbia (ZDA), que cria uma estrutura de cooperação para ampliar comércio, investimentos e intercâmbio empresarial entre os dois países.

Brasil e Zâmbia movimentaram US$ 7,5 milhões em 2025, valor equivalente a menos de 1% da corrente comercial registrada entre Brasil e África do Sul no mesmo período.

A assinatura ocorreu durante o Seminário Brasil-Zâmbia, realizado em Lusaca, capital zambiana, e foi acompanhada por uma agenda empresarial com rodadas de negócios entre companhias dos dois países.

O encontro reuniu representantes de setores como alimentos, laticínios, cosméticos, saúde, agricultura, indústria e tecnologia. Entre as empresas presentes estavam a Tirolez, do setor de laticínios, companhias de cosméticos, a Fiocruz, ligada à área de saúde e pesquisa, e empresas relacionadas à produção e armazenamento de grãos.

O acordo entre ApexBrasil e ZDA estabelece uma base para ações conjuntas de promoção comercial, atração de investimentos e aproximação entre empresas brasileiras e zambianas. Para os dois países, o desafio é transformar uma relação comercial ainda pequena em uma agenda de negócios mais ampla.

O país, que é apenas a 21ª economia africana, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), tem como principal característica a dependência de recursos naturais, especialmente o cobre, mas o país tenta diversificar sua base produtiva com agricultura, processamento de alimentos, energia e serviços.

A Zâmbia cresceu acima de 5% por três anos consecutivos, em 2021, 2022 e 2023. Após enfrentar uma forte seca, o país avançou "apenas" acima de 3%. A projeção para 2026, segundo o FMI, é alta de 4,3% em 2026.

Apesar dos bons números, o país convive com uma alta dúvida pública, cerca de 93% do PIB. O valor já foi maior, cerca de 103% em 2023, mas é um desafio para o governo recém reeleito de Hakainde Hichilema.

Segundo o presidente da ApexBrasil, Laudemir André Müller, a aproximação com países africanos voltou a ocupar espaço na estratégia comercial brasileira. Durante a abertura do evento, ele afirmou que a retomada da cooperação econômica com a África é uma prioridade do governo brasileiro.

“E por que a África é tão importante? Primeiro, porque temos uma profunda conexão histórica e cultural. Além disso, os países africanos são parceiros estratégicos para enfrentar desafios globais”, afirmou Müller durante abertura do seminário.

O presidente da ApexBrasil destacou que o comércio entre Brasil e África passou por diferentes fases nas últimas décadas. Segundo ele, a corrente comercial chegou a aproximadamente US$ 28 bilhões em 2020, mas perdeu força posteriormente. Em 2025, o intercâmbio comercial voltou a crescer e alcançou cerca de US$ 24 bilhões, conforme dados apresentados pelo presidente da ApexBrasil.

Zâmbia busca experiência brasileira em agricultura

A agricultura aparece como uma das principais frentes de cooperação entre os dois países. A Zâmbia busca ampliar a industrialização de cadeias produtivas de milho, trigo, mandioca e soja, enquanto o Brasil apresenta sua experiência em tecnologia e máquina agrícola, produção de alimentos e genética animal.

Para Müller, os países possuem características que podem aproximar suas cadeias produtivas. Ele afirmou que o Brasil pode contribuir com conhecimento técnico para apoiar o desenvolvimento agrícola zambiano.

“A Zâmbia busca reduzir a pobreza e modernizar sua agricultura, e o Brasil possui experiência em tecnologia agrícola, genética animal e produção de alimentos, soluções que podem ser adaptadas às condições climáticas semelhantes entre os dois países”, disse.

O diretor-geral da Agência de Desenvolvimento da Zâmbia, Albert Halwampa, afirmou que o país africano quer aprender com o modelo brasileiro de produção em larga escala.

Segundo Halwampa, o Brasil possui mais de 200 milhões de cabeças de gado, enquanto a Zâmbia tem cerca de 7 milhões, uma diferença de escala que mostra, segundo ele, o espaço para cooperação no setor pecuário.

O executivo também citou o interesse da Zâmbia em conhecer a experiência brasileira na produção de etanol. Segundo ele, o Brasil produz cerca de 40 bilhões de litros por ano e pode contribuir para reduzir a dependência do país africano de combustíveis importados.

“Se aprendermos com o Brasil a cultivar mais soja e mais milho e produzir alguns desses produtos e subprodutos, como o etanol, poderemos começar a reduzir a dependência das importações”, afirmou Halwampa.

Empresas brasileiras avaliam oportunidades em infraestrutura e energia

Além da agricultura, a agenda entre Brasil e Zâmbia envolve setores como indústria, inovação, tecnologia agrícola, saúde e energia.

A Zâmbia busca atrair empresas brasileiras para o Corredor Econômico de Lobito, eixo de infraestrutura e logística que pretende ampliar a conexão da região com a costa atlântica e facilitar o transporte de produtos.

Na área energética, a ApexBrasil apontou oportunidades em fontes renováveis, biogás e segurança energética. Segundo Müller, o Brasil pode contribuir com soluções para apoiar o desenvolvimento industrial do país africano.

Brasil tenta ampliar presença econômica no continente africano

A aproximação com a Zâmbia faz parte de um esforço mais amplo do Brasil para ampliar sua presença comercial na África.

Desde 2023, a ApexBrasil informou ter realizado oito missões empresariais no continente em parceria com o Ministério das Relações Exteriores, com participação de mais de 600 empresas e 92 iniciativas comerciais.

Em 2025, mais de mil empresas receberam apoio da agência para processos de internacionalização, segundo Müller.

Para a ApexBrasil, o potencial africano está relacionado ao crescimento populacional, à disponibilidade de terras agrícolas e à presença de minerais considerados estratégicos para a transição energética.

Na relação específica com a Zâmbia, os números ainda são reduzidos. As exportações brasileiras para o país foram lideradas por máquinas não elétricas, com 29,8% da pauta, seguidas por móveis, com 23,3%, e carnes de aves, com 22,3%. O país também abriu recentemente seu mercado para o café verde brasileiro.

O diretor-geral da ZDA afirmou que o próximo passo é transformar o memorando de entendimento em iniciativas práticas.

“Não queremos apenas assinar um documento. No fim das contas, precisamos implementar”, disse Halwampa.

*O jornalista viajou a convite da ApexBrasil.

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