A caverna de Homero: cidade turca resgata tradição ligada ao autor de ‘A Odisseia’ (AHMET AYBERK CIMEN /AFP)
Repórter
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 11h52.
Uma caverna localizada em uma encosta nos arredores de Izmir, na Turquia, mantém há gerações uma tradição local que a associa ao lugar onde Homero teria escrito "A Odisseia". Cercado por colinas com oliveiras, o local integra uma área conhecida pelos moradores como Vale de Homero e voltou ao centro das atenções com o lançamento do filme "A Odisseia", dirigido por Christopher Nolan.
"Este lugar sempre foi chamado de Vale de Homero pelos habitantes locais. Viajantes de todo o mundo vinham ver a caverna onde se diz que Homero compôs seus poemas", explicou o pesquisador turco Altan Altin, autor de um livro sobre o tema.
Não há, porém, comprovação sobre o lugar em que Homero escreveu seus poemas épicos. A localização da caverna atribuída ao poeta faz parte de um debate histórico que envolve diferentes pontos do Mar Egeu. O tema ganhou nova exposição com o filme de Nolan.
A associação de Homero com a região de Izmir, na costa turca do Egeu, atravessa séculos. Durante grande parte de sua história, a cidade foi conhecida como a antiga Esmirna. No século II, o cronista e geógrafo grego Pausânias registrou uma referência ao poeta e à região: "Os habitantes de Esmirna têm o rio Meles, com suas águas encantadoras, e em suas nascentes fica a gruta onde dizem que Homero compôs seus poemas".
O relato de Pausânias integra uma discussão que atravessa séculos sobre a vida de Homero e sobre a localização do rio próximo ao qual se acredita que o poeta tenha nascido, no século VIII a.C.O acesso à caverna exige passagem por uma área tomada por rochas. Em seu interior, existem inscrições em grego deixadas nas paredes por visitantes, embora não haja definição sobre quando esses registros foram feitos.
A ilha grega de Quios também aparece entre os locais associados às origens de Homero. A antiga Esmirna e a área vizinha, onde fica Bornova, por sua vez, mantêm uma relação histórica com o poeta.
"Para mim, não há dúvidas: Homero é de Bornova. De qualquer forma, ele é da Jônia, região que engloba Esmirna e Quios. Ele é dessas terras", disse Altin à AFP. A Jônia, antiga região grega, ocupava parte da costa do Mar Egeu no território que hoje pertence à Turquia.
Entre os elementos citados pelo pesquisador está um friso produzido no século III a.C. e dedicado à apoteose de Homero. Altin sustenta que a representação contém características que correspondem à caverna localizada em Bornova.
"Esse baixo-relevo já era conhecido, mas ninguém havia notado os detalhes idênticos aos encontrados na caverna de Homero. É a primeira vez que uma descrição geográfica tão detalhada vem à tona", afirmou.
Dados arqueológicos encontrados na região também são usados para sustentar a associação entre Homero e a antiga Esmirna. Entre os objetos recuperados durante escavações estão moedas com a imagem do poeta.
"As descobertas das escavações, especialmente moedas que trazem a efígie de Homero, mostram que os habitantes da antiga Esmirna consideravam o poeta como um dos seus", disse o arqueólogo Mehmet Akif Erdem. "'A Ilíada' e 'A Odisseia' foram escritas nos dialetos (do grego antigo) jônico e eólio, o que sugere que a antiga Esmirna e Bornova poderiam estar entre as terras natais de Homero", acrescentou.
As moedas indicam que os habitantes da antiga Esmirna associavam Homero à própria cidade, enquanto os dialetos empregados nas obras são citados como outro elemento no debate sobre sua origem.A presença de Homero em Bornova não se limita às discussões acadêmicas. Em Yesilova Hoyuk, sítio neolítico identificado como o assentamento humano pré-histórico mais antigo conhecido em Esmirna, um busto dedicado ao poeta traz a inscrição: "Compilei as epopeias 'Ilíada' e 'Odisseia' nesta terra. Vivi em Bornova."
O município também promove uma feira do livro dedicada a Homero e mantém, em um parque, uma estátua de Heitor, personagem da Guerra de Troia. A administração local planeja reformar a caverna e permitir a visitação, em meio ao novo interesse pelo poeta.
"Preservar o legado de Homero é um dever que temos para com a humanidade. Ele é um dos pais fundadores da literatura", disse à AFP o prefeito de Bornova, Omer Eski. "As histórias que ele conta são sobre esta terra. A questão não é se devemos reivindicar Homero ou não. A história dele também é a nossa", afirmou.
A associação do local ao poeta também provocou uma disputa política. Em 2024, autoridades municipais ligadas ao AKP, partido do presidente turco Recep Tayyip Erdogan, propuseram substituir o nome "Vale de Homero" por uma homenagem a um combatente turco. O argumento apresentado foi que a região não deveria manter um nome grego.
"Apagar o nome de Homero seria uma das piores coisas que poderíamos fazer a Bornova", rebateu o prefeito, cujo objetivo é "tornar Homero conhecido em todo o mundo como alguém de Bornova" e transformar a cidade em uma atração turística.
O lançamento de "A Odisseia" também teve reflexos no mercado editorial local. Mustafa Kocyigit, proprietário da livraria Gargantua, em Izmir, afirmou que o filme de Nolan levou mais leitores a procurar Homero e aumentou as vendas do poema "A Odisseia".
O interesse provocado pelo filme chegou às livrarias de Izmir, onde a procura por "A Odisseia" cresceu após a produção de Christopher Nolan."Eu sabia que Homero era desta terra, mas não sabia que ele era especificamente de Izmir. Temos uma sorte incrível", disse o professor Safak Tosun, em frente a um dos cinemas da cidade onde o filme está sendo exibido. "Sinto orgulho, honra e um profundo privilégio por ser seu compatriota."
Altin também recorre aos próprios textos atribuídos ao poeta para defender uma ligação com a região da Anatólia, península que corresponde a grande parte do atual território turco.
"Quando você mergulha na 'Ilíada', realmente compreende que Homero era anatólio. Você encontra relatos e referências culturais totalmente desconhecidos em outros lugares", disse ele.
Para o pesquisador, a discussão sobre a procedência de Homero não deve ser tratada como uma disputa entre Turquia e Grécia. "Homero remonta a 2.800 anos atrás, enquanto a fronteira turco-grega tem apenas um século", diz ele, dando de ombros. "Homero é grego. Homero é anatólio. Nenhum de nós é mais antigo do que ele; nem mesmo os nossos países."