Revista Exame

A conta do clima

Lisa Sachs diz que a transição energética chegará a todos quando mudarem as regras de distribuição do dinheiro

Lisa Sachs, diretora do Columbia Center on Sustainable Investment (CCSI) (CCSI/Divulgação)

Lisa Sachs, diretora do Columbia Center on Sustainable Investment (CCSI) (CCSI/Divulgação)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.

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O mesmo projeto solar, com o mesmo painel e sob o mesmo sol pode ser competitivo em um país e impossível de financiar em outro. A diferença não está na engenharia nem na luz, mas no preço do dinheiro. Na África, o custo de capital no setor elétrico passou de 18%, em 2023, ante menos de 5% na Europa e nos Estados Unidos — a exata distância que separa uma usina que sai do papel do projeto que morre no desenho. É esse o paradoxo principal no trabalho de Lisa Sachs, diretora do Columbia Center on Sustainable Investment (CCSI), centro conjunto da Faculdade de Direito e da Climate School da Universidade Columbia, em Nova York. “A poupança global gira em torno de 30 trilhões de dólares anuais, é mais do que suficiente. O problema são os termos em que esse dinheiro está disponível”, diz ela, que comanda ainda o mestrado em Climate Finance da instituição.

Desde que chegou ao CCSI, em 2008, Sachs o transformou em um dos principais polos mundiais de pesquisa sobre como leis, políticas e a arquitetura financeira internacional moldam os fluxos globais de investimento para o desenvolvimento sustentável. Formada em economia por Harvard, com mestrado em assuntos internacionais e doutorado em direito por Columbia, tornou-se referência para governos, bancos multilaterais e agências da ONU. Sua reputação se deve, sobretudo, à defesa de uma tese relativamente óbvia, porém incômoda: o mundo não precisa apenas de mais dinheiro para o clima; precisa mudar as regras que decidem quem tem acesso barato a ele.

A pressão política que a pesquisadora estuda há anos chegou, de certa forma, à sua porta. Atualmente, Sachs observa o fenômeno de perto, dentro de uma instituição que virou um dos alvos prioritários do governo de Donald Trump. Com o segundo mandato, o presidente americano também iniciou uma forte ofensiva contra as universidades. Para Columbia a conta pesou de vez em março, quando o governo federal congelou mais de 400 milhões de dólares em verbas de pesquisa, alegando resposta insuficiente da instituição a episódios de antissemitismo registrados no campus após os protestos ligados à guerra em Gaza.

O imbróglio resultou em um acordo, assinado no último 23 de julho, que incluiu 221 milhões de dólares pagos ao governo e uma lista de contrapartidas que passa pelo fim de programas de diversidade. O documento proíbe a manutenção de iniciativas que busquem “resultados fundamentados em raça, cotas ou metas de diversidade” e obriga o envio de dados demográficos de candidatos aceitos e rejeitados a Washington. Antes disso, ainda em maio, Columbia já havia notificado o desligamento de quase 180 pesquisadores custeados por verbas federais. Críticos chamaram a manobra de extorsão e a resposta da universidade, de capitulação.

O cerco, contudo, extrapolou os muros acadêmicos, atingindo em cheio outro terreno de Sachs, a ciência do clima. Sob Trump, a NOAA, agência que há décadas sustenta estudos climáticos e a previsão do tempo, foi esvaziada por desligamentos em massa. Segundo o governo, a instituição seria parte de uma suposta “indústria do alarme climático”. No plano internacional, os Estados Unidos formalizaram há oito meses a saída do Acordo de Paris e anunciaram deixar também a Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Enquanto isso, portas adentro, o One Big Beautiful Bill Act, pacote de gastos e impostos sancionado por Trump em julho de 2025, reduziu drasticamente os incentivos à energia limpa do Inflation Reduction Act,  maior programa climático da história americana. E o país se retira do combate ao clima justamente quando mais sofre com ele. Julho de 2026 foi o mês mais quente já registrado nos EUA desde 1895, segundo a própria NOAA: a temperatura média chegou a 24,9 °C, com mais de 185 milhões de pessoas sob alerta de calor e incêndios devastando o estado do Oregon.

Diante desse quadro, a acadêmica não vê o recuo dos Estados Unidos como o fim da transição, mas como um erro de cálculo. Para ela, a ausência americana “é uma ferida autoinfligida”, e o custo de capital, uma engrenagem que se pode desmontar. Foi com esse espírito que conversou com a EXAME às vésperas de uma viagem ao Brasil, prevista para a última semana de agosto, em que visitará universidades e instituições do país, entre elas a Saint Paul Escola de Negócios, do mesmo grupo da EXAME. Confira a seguir os principais trechos da conversa.

A senhora diz que “financiamento climático” virou um termo confuso, que envolve descarbonizar a economia, gerir risco de investidor, garantir estabilidade financeira e filantropia. Por que essa confusão importa na prática?

A mudança do clima gera uma cascata de riscos interligados. Existem os riscos planetários, como calor extremo, incêndios, enchentes, secas e elevação do nível do mar. Depois vêm os riscos econômicos, que reduzem produção, infraestrutura e orçamentos públicos, mesmo com os esforços para construir resiliência. E há, por fim, o risco financeiro, o que resta depois de acionados os seguros, a resposta a desastres e outros amortecedores públicos, corroendo o crédito e o valor das carteiras. A única resposta que reduz perigo na origem é a mitigação, e cada ação depende de instituições distintas, com mandatos e instrumentos próprios. Confundir esses riscos culmina em estratégias mal desenhadas e em efeitos contrários ao esperado: por prudência, investidores recuam do que parece arriscado e encarecem ou secam o financiamento onde ele é mais necessário, enquanto uma parte cada vez maior dos custos do clima é transferida para os cofres públicos.

Com a saída do Acordo de Paris e a sinalização de deixar a 26própria Convenção do Clima da ONU, qual é o custo real da ausência americana enquanto a China lidera em tecnologia limpa?

Trata-se de uma ferida terrível e autoinfligida. Os Estados Unidos abriram mão de sua liderança em tecnologia, diplomacia e cadeias de suprimento, e de seu prestígio com os parceiros comerciais. As tecnologias que vão descarbonizar o sistema global de energia são solar, eólica, baterias, veículos elétricos, transmissão de longa distância e, cada vez mais, nuclear. A China produz todas elas em escala e derrubou os custos a ponto de tornar a energia limpa a mais barata na maior parte do globo. Logo, o mundo consegue se descarbonizar sem os Estados Unidos, mas não teria conseguido sem a China. Há custos reais para as instituições e a ciência americana, porém o prejuízo maior é outro: a liderança global mudou de mãos num intervalo tão curto que a virada já é decisiva e, provavelmente, irreversível.

O One Big Beautiful Bill Act, de Trump, esvaziou boa parte dos incentivos de energia limpa do Inflation Reduction Act, a lei climática de Biden. Esse retrocesso é reversível por um próximo governo, ou o mundo já trata os EUA como parceiro instável em clima?

O maior custo não se reverte com facilidade. As indústrias precisam planejar o futuro, mas hoje fazem isso diante de um ambiente político que muda a cada dois anos, enquanto suas obras levam meia década para sair e seus ativos duram várias gerações. Nessas condições, ou adiam ou constroem em outro lugar. A base também foi drenada: a formação de mão de obra, as decisões de onde instalar fábricas, a pesquisa custeada com dinheiro público… Reconstruir isso leva muito mais tempo do que uma votação no Congresso. E o restante do mundo já se adaptou, redirecionando cadeias de suprimento para longe dos Estados Unidos e se protegendo da exposição aos compromissos americanos, ao passo que outros parceiros ganham relevância.

A senhora chamou o movimento anti-ESG de “espetáculo político que inventa um inimigo inexistente”. Com bancos e gestoras recuando de compromissos climáticos, isso é retórica passageira ou muda para onde o dinheiro vai?

O que as instituições faziam em gestão de risco e financiamento de projetos limpos era por prudência e oportunidade, não por pertencer a alguma aliança. Por isso, muito pouco mudou ou vai mudar com a adesão ou a saída de membros das alianças financeiras pela sustentabilidade ou pelo “net zero”, já que elas nunca alteraram o que era financiável na economia real. Ocorre que essas alianças, embora ineficazes, se tornaram muito políticas, a ponto de o simples fato de falar sobre clima virar um ato político nos Estados Unidos. Na realidade, nem gestão prudente de risco, nem o acesso dos mercados financeiros americanos aos sistemas do futuro deveriam ser politizados.

A senhora afirma que não falta capital para a transição, mas ele não chega às economias emergentes. Se não é escassez de dinheiro, o que trava esse fluxo?

A poupança global, de cerca de 30 trilhões de dólares por ano, é mais do que adequada. O problema são os termos em que ela está disponível: ativos de energia são de longa duração e intensivos em capital, então a taxa de juros pesa mais no custo final da eletricidade do que o preço do equipamento. Nos países em desenvolvimento, essa taxa é definida em grande parte pela nota de crédito soberana, que impõe um piso a qualquer projeto, independentemente de seus contratos ou contrapartidas. E os -ratings são movidos, acima de tudo, pelo PIB per capita, de modo que países mais pobres recebem notas mais baixas a despeito de seu potencial de crescimento, de sua governança ou do retorno do investimento público. Isso atinge mais dramaticamente as renováveis, que têm alto custo de construção e operação quase gratuita. Quando o capital é caro, a geração fóssil sai mais barata. Quando é barato, quem vence é a fonte de carbono zero.

É disso que a senhora fala quando diz que o financiamento climático “falhou com a África duas vezes” e que os ratings tratam a pobreza como uma profecia de calote que se cumpre sozinha?

A África enfrenta um duplo desafio, e o financiamento falhou nas duas frentes. O continente precisa se adaptar a um clima que já mudou e, ao mesmo tempo, construir sistemas de energia e transporte descarbonizados. Na adaptação, recebe cerca de 10% do que necessita, e mais da metade disso vem como empréstimo que cobra juros. Então empresta-se dinheiro à África com juros para que ela lide com um estrago que não causou. Na mitigação, o continente detém 60% dos melhores recursos solares do mundo e ainda tem 600 milhões de pessoas sem acesso à eletricidade. Porém, recebe apenas 2% do investimento global em energia limpa. As duas falhas têm a mesma raiz: metodologias de rating que tratam a pobreza como sinônimo de risco de calote e um arcabouço de sustentabilidade da dívida que desestimula o investimento público necessário para essas economias crescerem. Assim, a região fica presa num ciclo, em que é penalizada pelo custo alto que enfrenta e pela transição lenta que esse custo provoca.

Depois da COP30, o Brasil propôs um multilateralismo de dois níveis: consenso para dar legitimidade, coalizões para dar velocidade. É uma saída inteligente ou o atestado de que o processo formal da ONU talvez tenha deixado de funcionar?

O consenso nunca foi capaz de entregar implementação, nem foi feito para isso. Um fórum em que mais de 190 partes precisam concordar é bom para estabelecer direção e conferir legitimidade ao trabalho que outros executam. Contudo, é estruturalmente incapaz de descarbonizar o transporte, o aquecimento e a indústria globais ou de reformar a arquitetura financeira internacional. Cada COP registra compromissos e lacunas, mas não tem mandato nem instrumentos para implementar o que é preciso. Ainda assim, o que oferece de único é o peso político que torna viável o trabalho das coalizões. A proposta brasileira de dois níveis formaliza exatamente essa divisão de tarefas. O consenso proporciona o guarda-chuva de legitimidade. As coalizões equipadas para agir, dos bancos multilaterais de desenvolvimento às agências de rating e aos financiadores, fazem o desenho e a entrega. É inteligente porque é o único jeito de o processo funcionar na escala que a crise exige. Logo, penso que o processo formal não parou de funcionar: ele revelou para que serve de fato.

A senhora trabalha dentro de uma universidade sob forte pressão do governo. O que se perde para a ciência do clima quando a pesquisa pública vira adversária política?

As universidades existem para sustentar o trabalho de longo prazo e não comercial que ninguém mais vai financiar. A pesquisa climática é quase toda desse tipo: séries de observação de vários anos, desenvolvimento de modelos e uma infraestrutura de dados da qual dependem todas as pesquisas que vêm depois. Essa estrutura levou décadas para ser construída e não pode ser reconstruída em um único ciclo orçamentário. O impacto pode ser ainda mais profundo: isso pode desestimular uma geração de cientistas a se dedicar a essas ciências observacionais, levar a uma ciência mais cautelosa e, de outras formas, enfraquecer uma das forças históricas dos Estados Unido: a sua pesquisa científica ancorada nas universidades.



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