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Ela perdeu parte da visão aos 10 anos. Hoje tem uma empresa que dá voz a 1.200 rótulos da Nestlé

Caroline Dall’Acua, cofundadora da Alia Inclui, transformou a experiência pessoal em uma plataforma que soma 50 mil downloads e ganha semanalmente cerca de 1.800 usuários

Caroline Dall’Acua, Tatiana Macedo Duarte e Débora Rosati, dócias da Alia Inclui.

Caroline Dall’Acua, Tatiana Macedo Duarte e Débora Rosati, dócias da Alia Inclui.

Caroline Marino
Caroline Marino

Jornalista especializada em carreira, RH e negócios

Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 14h00.

Aos 10 anos, Caroline Domanski Dall’Acua começou a perder a visão por conta de uma doença degenerativa da retina, a retinose pigmentar, e precisou reaprender a viver em um mundo pouco preparado para quem não enxerga. Com o apoio dos pais, o diagnóstico marcou o início de um processo de adaptação. Hoje, com cerca de 10% de visão residual, condição classificada pela medicina como cegueira legal, ela transformou essa vivência em base para um negócio de impacto. É sócia-fundadora e diretora técnica de acessibilidade da Alia Inclui, startup que desenvolveu um aplicativo que oferece informações de produtos em áudio para pessoas com deficiência visual, dificuldade de leitura, baixo letramento e outros públicos que podem se beneficiar de conteúdos em áudio.

O app, lançado em abril de 2023, soma quase 50 mil downloads, cresce a uma média de 1.800 novos usuários por semana e já atende mais de 40 empresas, como a Nestlé, que escolheu a solução para “dar voz” a mais de 1.200 rótulos do portfólio no Brasil. Na lista de clientes estão também Salton, Doces Guimarães e Sorvetes Urca. Para este ano, a meta é dobrar o número de companhias aliadas e triplicar o de downloads.

O encontro que deu origem ao negócio

Natural de Vacaria, uma cidade do Rio Grande do Sul com pouco mais de 64 mil habitantes, Caroline construiu sua trajetória profissional no Direito e atua até hoje como servidora pública, conciliando as atividades em turnos distintos. A decisão de empreender surgiu de um encontro inesperado em um salão de beleza. Naquela tarde, conheceu Tatiana Macedo, fundadora da Xtreteggy, especializada em inteligência de mercado, que estudava a demanda de um cliente interessado em inserir Braille nas embalagens das mercadorias. “Começamos a compartilhar experiências e a pensar em soluções.”

Segundo a advogada, embora essencial, o método tem custo elevado, demanda cuidados logísticos e apresenta dificuldades de uso em recipientes de vidro e alumínio. Além disso, cerca de dois terços das pessoas cegas não foram alfabetizadas em braille, especialmente aquelas que perderam a visão ao longo da vida. “Elas aprenderam pelo método tradicional, assim como eu, utilizando lápis e borracha.”

Diante disso, surgiu a ideia de criar uma alternativa que ampliasse o acesso às informações dos produtos. A advogada Débora Rossati juntou-se à dupla, dando início à construção da Alia.

Entre desafios, revisões e crescimento

Os primeiros passos envolveram a criação da marca e o desenvolvimento de um MVP, em parceria com uma empresa da área. A versão inicial funcionava por QR Code, mas logo as fundadoras perceberam que o modelo criava uma barreira para a indústria, que precisaria alterar embalagens já existentes. A estratégia foi revista e passou a adotar a leitura de códigos de barras, indispensável em todo item de consumo e que não exige alterações.
“Mesmo com a mudança, o sistema ainda não refletia o que havíamos idealizado e optamos por trocar o parceiro de desenvolvimento, formar uma nova equipe técnica e reconstruir a solução com outra base tecnológica”, explica Caroline. Na época, Anderson Nunes, especialista em TI, entrou na sociedade. O resultado foi uma plataforma mais funcional, acessível e intuitiva. A reformulação marcou uma virada. No lançamento oficial, a Alia Inclui recebeu duas premiações no Gramado Summit: o Sebrae Like a Boss e um investimento de venture capital.

O aplicativo funciona de forma simples. Com leitores de tela ativados (TalkBack, no Android, ou VoiceOver, no iOS), o usuário seleciona a função “Leitor de Produto” e aponta a câmera para o código de barras. O app orienta por voz e dá o direcionamento para que a pessoa localize o código e, em poucos segundos, faz a leitura do nome do item e de suas principais informações. Também oferece recursos como leitor de textos e descrição por imagem, ampliando o uso para outras situações do dia a dia, incluindo ouvir descrições de fotos, imagens da galeria ou selfies, além de bilhetes, documentos e livros.

Validação em larga escala

Um dos marcos da trajetória da Alia, que significa acessibilidade, liberdade, inclusão e autonomia, veio a partir da parceria com a Nestlé. A oportunidade surgiu a partir de uma demanda interna, apresentada por Regiane Nunes, nutricionista da organização, que possui deficiência visual e enfrentava dificuldades para obter, de forma autônoma, dados nos rótulos. O acordo impulsionou a evolução da plataforma, que passou a incorporar uma tecnologia proprietária de IA, permitindo que o consumidor faça perguntas em linguagem natural sobre ingredientes, presença de alergênicos, teor de açúcar, lactose e valor calórico, por exemplo.

O sucesso do negócio, segundo Caroline, está relacionado ao propósito de tornar produtos acessíveis para milhões de indivíduos, à equipe técnica e à rede de apoio. “Não seríamos nada sem as pessoas que nos amam e nos apoiam incansavelmente dia após dia”, diz.

Para iniciar no mundo do empreendedorismo, destaca a importância do autoconhecimento, do estudo contínuo, da definição dos objetivos e do estabelecimento de métricas realistas de crescimento. No caso das mulheres com deficiência, que enfrentam diferentes tipos de barreiras de acesso – físicas, tecnológicas ou atitudinais –, o caminho tem contornos mais complexos.

“Saber identificar essas barreiras e tratá-las com naturalidade (apesar da dor) é o primeiro passo para conseguir superá-las por meio de novas soluções. Todas temos capacidades incríveis que podem e devem ser aprimoradas. Uma mulher consciente de seus talentos e que investe em aprimorar suas habilidades é imparável.”

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