Ciência

Dormir mal pode atrasar sua aposentadoria — e a ciência explica por quê

Estudo encontrou associação entre distúrbios do sono e menor expectativa de permanência no mercado de trabalho depois dos 50 anos

Sono: estudo analisou como a qualidade do descanso se relaciona à vida profissional (Freepik)

Sono: estudo analisou como a qualidade do descanso se relaciona à vida profissional (Freepik)

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 16h34.

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Dormir mal pode afetar mais do que a disposição no dia seguinte. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Turku, na Finlândia, e divulgado pelo jornal britânico The Guardian, encontrou uma associação entre problemas de sono na meia-idade e menor tempo de permanência no mercado de trabalho após os 50 anos.

Entre os participantes com distúrbios graves do sono, a expectativa de vida profissional foi cerca de oito meses menor do que entre aqueles sem problemas de sono. Para os resultados, a pesquisa analisou dados de dois grandes estudos finlandeses sobre saúde, hábitos de sono e condições de vida.

Os pesquisadores avaliaram tanto a duração do sono quanto sintomas como dificuldade para adormecer, despertares durante a noite, despertar precoce e sensação de sono não reparador.

Como o estudo avaliou o sono

Para a análise, os pesquisadores dividiram os participantes em três grupos conforme a duração do sono noturno. O primeiro reunia pessoas que dormiam menos de sete horas. O segundo incluía quem dormia entre sete e 8,5 horas. Já o terceiro grupo era formado por participantes que relatavam dormir nove horas ou mais por noite.

Os distúrbios do sono também foram classificados de acordo com a frequência e a intensidade dos sintomas relatados nas quatro semanas anteriores à avaliação. Os resultados indicaram uma relação entre a gravidade dos distúrbios do sono e a duração da vida profissional após os 50 anos.

Pessoas com problemas moderados de sono apresentaram uma expectativa de trabalho cerca de cinco meses menor. Entre aquelas com distúrbios graves, a diferença chegou a aproximadamente oito meses.

O que aconteceu com quem dormia mais

A duração do sono também apresentou diferenças nos resultados. Participantes que dormiam pouco ou estavam na faixa intermediária tiveram uma expectativa de vida profissional de cerca de 13 anos e dois meses depois dos 50. Entre aqueles que dormiam nove horas ou mais, o período ficou em aproximadamente 12 anos e cinco meses.

Os pesquisadores, porém, não encontraram uma diferença significativa entre quem dormia menos de sete horas e quem estava na faixa intermediária. Segundo Saana Myllyntausta, pesquisadora do departamento de psicologia e patologia da fala e da linguagem da Universidade de Turku, o resultado foi inesperado. Estudos anteriores haviam associado o sono curto à aposentadoria mais precoce.

O sono prolongado, por outro lado, também já foi relacionado a uma menor expectativa de vida profissional e a piores indicadores de saúde. Uma possibilidade é que condições de saúde estejam por trás dessa associação. Isso não significa que dormir nove horas ou mais seja, por si só, responsável por reduzir o tempo de trabalho.

Mulheres tiveram maior expectativa de vida profissional

Os resultados também variaram conforme o sexo e o tipo de ocupação. A maior expectativa de permanência no mercado de trabalho, próxima de 14 anos após os 50, apareceu entre mulheres em ocupações profissionais que não apresentavam distúrbios do sono.

Na outra ponta estavam homens em empregos considerados rotineiros e com distúrbios graves do sono. Nesse grupo, a expectativa de vida profissional ficou em torno de 12 anos e meio.

Para os pesquisadores, os resultados indicam que a relação entre sono e trabalho envolve diferentes fatores. Condições socioeconômicas, características das ocupações e estado de saúde podem influenciar tanto a qualidade do sono quanto a permanência no emprego.

Sono também está ligado às condições de vida

A situação socioeconômica também aparece como um ponto importante na pesquisa. Os autores destacam a necessidade de atenção aos problemas de sono entre pessoas em condições socioeconômicas menos favoráveis. Segundo Myllyntausta, medidas para promover a saúde do sono e tratar distúrbios durante a meia-idade podem ser especialmente importantes nesse grupo.

Entre as possibilidades estão tratamentos para insônia oferecidos por serviços de saúde ocupacional. A pesquisadora também cita ações educativas e programas de promoção da saúde relacionados ao sono no ambiente de trabalho.

No Brasil, dados do Ministério da Saúde, divulgados no final do ano passado, indicam que 31,7% dos brasileiros apresentam sintomas de insônia.

Sono não é o único fator envolvido

Os próprios pesquisadores destacam que o trabalho apresenta limitações. A análise não conseguiu considerar completamente todos os fatores que podem influenciar a permanência das pessoas no mercado de trabalho.

Entre eles estão condições de saúde física e mental, doenças preexistentes, comportamentos relacionados à saúde e características das ocupações. O trabalho em turnos, por exemplo, também pode afetar a qualidade do sono e a trajetória profissional.

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