Jogadores da NFL: pesquisadores analisaram cérebros doados para investigar a prevalência da CTE (Freepik)
Redatora
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 16h25.
Pelo menos um em cada quatro ex-jogadores da NFL pode ter desenvolvido encefalopatia traumática crônica (CTE), uma doença neurodegenerativa relacionada a impactos repetidos na cabeça. A estimativa foi apresentada em um estudo publicado na última terça-feira, 25, no The BMJ, que analisou cérebros de atletas que morreram entre 2016 e 2021.
Os pesquisadores avaliaram dados de 878 ex-jogadores, dos quais 235 doaram os cérebros para análise. O trabalho buscou reduzir o viés de estudos anteriores, que examinavam principalmente atletas cujos sintomas já haviam levado à realização de autópsias.
Entre os cérebros examinados após a morte, a maioria apresentou sinais da CTE. Ao considerar também o grupo mais amplo de jogadores que morreram no período, os pesquisadores estimaram que pelo menos 25% apresentava a doença.
Os autores ressaltam, porém, que esse número não representa necessariamente a prevalência da CTE entre todos os ex-jogadores da NFL. O estudo não avaliou diretamente os jogadores que não doaram seus cérebros.
A verdadeira frequência da doença pode, portanto, ser maior, segundo os pesquisadores.
A encefalopatia traumática crônica está associada a impactos repetidos na cabeça. Esses traumas podem estar relacionados ao acúmulo anormal da proteína tau em determinadas regiões do cérebro.
Com o passar dos anos, essa proteína pode se espalhar para outras áreas. O processo pode afetar regiões envolvidas na cognição e no processamento emocional. Em estágios avançados, a doença pode estar associada à demência.
A autópsia consegue identificar alterações características da CTE, incluindo acúmulos de lesões em regiões profundas do córtex. Atualmente, esse é o método mais confiável para confirmar a doença.
O diagnóstico da CTE em pessoas vivas continua sendo um dos principais desafios para os pesquisadores. Exames de imagem usados para acompanhar a proteína tau na doença de Alzheimer não apresentam o mesmo desempenho para identificar a CTE. Os exames de sangue disponíveis também não conseguem distinguir com segurança a doença de Alzheimer da encefalopatia traumática crônica.
Por isso, os pesquisadores investigam novas possibilidades. Um estudo realizado por cientistas da Universidade de Washington em St. Louis avaliou um exame de sangue experimental que pode identificar a proteína tau associada à CTE.
O resultado inicial foi considerado uma possibilidade para novos métodos de diagnóstico, mas ainda são necessários mais estudos para determinar sua utilidade clínica.
Outro problema é que muitos sinais associados à CTE também aparecem em outras doenças. Alterações de personalidade, por exemplo, podem ocorrer em diferentes transtornos psiquiátricos e doenças neurodegenerativas. A CTE também pode existir ao mesmo tempo que condições como Alzheimer e Parkinson.
Nos últimos anos, pesquisadores desenvolveram critérios clínicos para tentar identificar a doença em pessoas vivas. Um estudo recente, porém, indicou que esses critérios apresentam desempenho insatisfatório quando comparados aos diagnósticos feitos após a morte. Isso aumenta a preocupação com possíveis falsos positivos e consequências psicológicas para atletas e ex-atletas.
Pesquisadores afirmam que a principal forma de reduzir o risco é evitar impactos repetitivos na cabeça. Estudos também buscam desenvolver capacetes mais seguros para o futebol americano. Ainda assim, a prevenção não depende apenas do equipamento, segundo os especialistas.
Os sintomas suspeitos da doença podem ser tratados com alguns medicamentos usados em outras condições neurológicas e psiquiátricas. Até o momento, porém, não existe um tratamento comprovado capaz de impedir a progressão da CTE.
Um estudo em andamento acompanha centenas de ex-jogadores profissionais e universitários ainda vivos. A pesquisa utiliza técnicas como ressonância magnética, PET e exames neurológicos para procurar características que possam identificar a CTE.
Os pesquisadores também trabalham na identificação de um biomarcador que permita detectar a doença em pessoas vivas.
Caso um marcador seja validado, ele poderá facilitar tanto o diagnóstico quanto o desenvolvimento de tratamentos. Entre as possibilidades está testar terapias experimentais voltadas à proteína tau em pessoas com CTE.
Por enquanto, porém, a confirmação da encefalopatia traumática crônica continua dependendo da análise do cérebro após a morte, enquanto novas pesquisas tentam tornar possível a identificação da doença ainda durante a vida.