Cérebro: inflamação cerebral pode provocar sintomas como delírios e alucinações (Getty Images)
Repórter
Publicado em 19 de abril de 2026 às 15h17.
Quadros tratados como transtornos psiquiátricos podem, em alguns casos, ter origem em doenças autoimunes que afetam o cérebro.
A evidência vem de estudos recentes relatados pela New Scientist, que mostram como o sistema imunológico pode desencadear sintomas como alucinações, delírios e alterações de comportamento.
Casos observados em Londres ajudaram a mudar essa percepção. Pacientes inicialmente diagnosticadas com psicose apresentaram, depois, sinais neurológicos mais claros. O diagnóstico final foi encefalite autoimune — inflamação cerebral causada pelo ataque do próprio organismo.
A descoberta rompe a divisão tradicional entre neurologia e psiquiatria e sugere que parte dos transtornos mentais pode ter base biológica ligada ao sistema imune.
O mecanismo envolve falhas no sistema imunológico, que passa a atacar estruturas do cérebro. Um exemplo é a encefalite anti-NMDAR, em que anticorpos afetam receptores neurais e provocam sintomas semelhantes aos da esquizofrenia.
A diferença está no tratamento. Enquanto transtornos psiquiátricos são tratados com antipsicóticos, essas condições podem responder a terapias imunológicas, como imunoglobulina e anticorpos monoclonais — com potencial de reversão dos sintomas.
Pesquisas indicam que até 5% dos pacientes com esquizofrenia apresentam anticorpos no sangue. A parcela com diagnóstico claro de encefalite é menor, mas especialistas avaliam que processos inflamatórios mais amplos podem estar envolvidos.
O avanço abre caminho para uma mudança no tratamento. Medicamentos usados em doenças autoimunes, como o metotrexato, já estão sendo testados em casos de psicose. Procedimentos como plasmaférese também entram no radar.
Ao mesmo tempo, iniciativas buscam ampliar o diagnóstico. Nos Estados Unidos, pesquisadores estudam testar pacientes psiquiátricos para identificar causas autoimunes ainda não detectadas.
Especialistas ressaltam que a maioria dos transtornos mentais não tem origem imunológica. Ainda assim, identificar a fração de casos tratáveis pode evitar anos de terapias ineficazes.