Genética: protista encontrado em água doce apresentou código incomum (Freepik)
Redatora
Publicado em 13 de outubro de 2026 às 06h00.
Um organismo microscópico encontrado em um lago na Inglaterra revelou uma exceção surpreendente a uma regra do código genético considerada quase universal. O protista utiliza dois sinais genéticos que normalmente indicam o fim da produção de uma proteína para codificar dois aminoácidos diferentes.
O achado ocorreu por acaso durante testes de uma técnica de sequenciamento de DNA desenvolvida para analisar quantidades muito pequenas de material genético.
A descoberta foi publicada originalmente em 2023 na revista PLOS Genetics. Estudos posteriores encontraram outras alterações em organismos relacionados, reforçando a diversidade do código genético entre esses microrganismos.
O organismo, identificado como Oligohymenophorea sp. PL0344, foi coletado em um lago no Oxford University Parks, na Inglaterra.
Pesquisadores do Earlham Institute e da Universidade de Oxford não estavam procurando alterações no código genético. O objetivo era testar uma técnica capaz de sequenciar DNA a partir de quantidades extremamente pequenas de material, potencialmente de uma única célula.
Ao reconstruírem o genoma do protista, porém, os cientistas perceberam que estavam diante de uma espécie até então desconhecida com uma característica genética incomum.
Para produzir proteínas, as células leem as informações genéticas em conjuntos de três letras chamados códons. A maioria deles corresponde a aminoácidos, componentes utilizados na construção das proteínas.
Existem também códons que funcionam como sinais de parada. Eles indicam quando a célula deve encerrar a produção de determinada proteína. Normalmente, TAA, TAG e TGA exercem essa função no DNA.
Alguns organismos já eram conhecidos por atribuir outras funções a esses sinais. Entre determinados ciliados, por exemplo, códons de parada podem passar a representar aminoácidos. O que surpreendeu os pesquisadores foi a maneira como isso ocorreu no novo organismo.
Até então, TAA e TAG pareciam apresentar uma relação evolutiva estreita. Quando deixavam de funcionar como sinais de parada, os dois geralmente passavam a representar o mesmo aminoácido. No novo protista, isso não aconteceu.
O TAA passou a codificar lisina, enquanto o TAG passou a representar ácido glutâmico. O TGA permaneceu como o único dos três códons convencionais responsável por indicar o fim da produção de proteínas.
Segundo os pesquisadores, foi o primeiro exemplo relatado em que TAA e TAG foram reatribuídos para aminoácidos diferentes. O resultado mostrou que os dois códons não estão evolutivamente tão ligados quanto se imaginava.
Os cientistas encontraram moléculas especializadas de RNA de transferência associadas aos códons modificados. Essas moléculas ajudam a relacionar as instruções presentes no RNA mensageiro aos aminoácidos utilizados para construir proteínas.
A descoberta reforçou que o código incomum fazia parte do funcionamento do organismo e não era resultado de um erro no sequenciamento.
Os pesquisadores também encontraram vários códons TGA depois das regiões responsáveis por codificar proteínas. Uma hipótese é que esses sinais adicionais funcionem como uma espécie de segurança caso a maquinaria celular ultrapasse o ponto correto de parada.
A descoberta levou os pesquisadores a investigar se outros ciliados apresentavam alterações semelhantes. Em um estudo publicado em 2024, a equipe identificou novas mudanças no código genético em diferentes linhagens desses organismos.
Em três espécies analisadas, o códon UAG, normalmente utilizado como sinal de parada, aparentemente passou a representar o aminoácido leucina. Outros dois ciliados apresentaram evidências de que o mesmo códon codificava glutamina.
As análises indicaram que essas alterações surgiram de maneira independente em diferentes momentos da evolução. Os resultados reforçam a possibilidade de que existam outras variações do código genético ainda desconhecidas em organismos microscópicos.
Para os pesquisadores, estudar essas exceções pode ajudar a entender como um sistema tão conservado ao longo da evolução consegue adquirir novas funções.