Cáries: gel experimental pode reconstruir o esmalte e fortalecer a camada que protege os dentes (Freepik)
Redatora
Publicado em 5 de novembro de 2026 às 16h54.
Cientistas da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, desenvolveram um gel capaz de regenerar o esmalte dos dentes, camada protetora que não se recompõe naturalmente após ser perdida. A tecnologia utiliza minerais presentes na saliva para reconstruir a estrutura dentária e pode ajudar a prevenir cáries e reduzir a sensibilidade.
A descoberta foi descrita em um estudo publicado na revista científica Nature Communications. Nos testes laboratoriais, o esmalte regenerado apresentou propriedades mecânicas semelhantes às do tecido natural, inclusive em condições que simulam mastigação, escovação e contato com alimentos ácidos.
Os pesquisadores trabalham na comercialização da tecnologia por meio da startup Mintech-Bio, com previsão de lançar o primeiro produto em 2027. O gel, no entanto, ainda precisa passar por validação clínica antes de se tornar um tratamento odontológico estabelecido.
O material foi desenvolvido para reproduzir processos biológicos envolvidos na formação do esmalte durante a infância.
Diferentemente dos tratamentos convencionais com flúor, o novo gel não contém essa substância. Sua composição utiliza proteínas que imitam características das moléculas responsáveis pela formação do esmalte do dente.
Quando aplicado, o produto forma uma camada fina e resistente, capaz de penetrar em fissuras e preencher espaços microscópicos. Essa estrutura atrai íons de cálcio e fosfato, minerais naturalmente presentes na saliva, e orienta sua organização em novos cristais.
O mecanismo é chamado de mineralização epitaxial. Nesse processo, os cristais crescem alinhados à estrutura mineral já existente, permitindo que o novo material se integre à superfície dentária.
Segundo os pesquisadores, essa organização é essencial para recuperar a resistência e a arquitetura microscópica do esmalte saudável.
O esmalte é a camada externa que protege os dentes contra desgastes físicos, químicos e térmicos. Ao contrário dos ossos e de outros tecidos, não possui células vivas capazes de reconstruí-lo após o desenvolvimento completo dos dentes.
A saliva consegue repor parte dos minerais perdidos nos estágios iniciais de desgaste. Entretanto, o organismo não consegue recuperar quantidades significativas de esmalte já destruído.
Tratamentos existentes, como vernizes de flúor e produtos de remineralização, ajudam a proteger os dentes e reparar perdas minerais iniciais, mas não reconstruem completamente a camada perdida.
O novo gel busca superar essa limitação ao estimular a formação de uma estrutura mineral semelhante à original.
Além de regenerar o esmalte, o material apresentou potencial para formar uma camada mineral sobre a dentina exposta, tecido localizado abaixo do esmalte.
A dentina contém pequenos canais que transmitem estímulos aos nervos do dente. Quando fica exposta, pode provocar sensibilidade ao contato com alimentos quentes, frios, doces ou ácidos.
Segundo os pesquisadores, a formação de uma camada semelhante ao esmalte pode ajudar a reduzir esse desconforto. A tecnologia também poderá melhorar a fixação de restaurações dentárias.
Como a deterioração do esmalte contribui para o desenvolvimento de cáries, sua reconstrução poderá oferecer uma nova estratégia de prevenção. Entretanto, os resultados ainda não demonstram que o gel seja capaz de eliminar cáries ou substituir tratamentos odontológicos existentes.
A equipe avaliou as propriedades mecânicas do material em experimentos que reproduziram situações cotidianas, como mastigação, escovação e exposição a alimentos ácidos.
Os resultados indicaram que o esmalte regenerado apresentou comportamento semelhante ao do esmalte saudável. Segundo Abshar Hasan, pesquisador da Universidade de Nottingham e principal autor do estudo, o material estimula o crescimento organizado de cristais minerais, recuperando características da estrutura original.
A capacidade de reproduzir essa organização diferencia a tecnologia de métodos que apenas depositam minerais sobre a superfície dentária. Apesar dos resultados, o estudo aponta que os testes laboratoriais ainda não comprovam a eficácia e a durabilidade do tratamento em pacientes.
Os pesquisadores desenvolveram o material para permitir uma aplicação rápida e simples, semelhante à de tratamentos com flúor já utilizados pelos dentistas.
O gel também foi projetado para fabricação em larga escala e adaptação a diferentes produtos odontológicos.
Segundo Alvaro Mata, professor de Engenharia Biomédica e Biomateriais da Universidade de Nottingham e líder da pesquisa, a equipe iniciou o processo de comercialização por meio da startup Mintech-Bio. A expectativa anunciada pelos pesquisadores é lançar o primeiro produto em 2027.
Antes de sua utilização como tratamento estabelecido, porém, ainda são necessárias etapas adicionais de desenvolvimento e validação clínica.