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El Niño: projeções climáticas e estimativas de perdas ajudam a orientar investimentos em adaptação, enquanto riscos ambientais seguem fora das principais prioridades corporativas (AFP Photo)
Repórter de ESG
Publicado em 5 de novembro de 2026 às 16h48.
Uma indústria não precisa ser atingida diretamente por uma enchente para registrar prejuízos. Basta que uma estrada fique bloqueada, um fornecedor interrompa as entregas ou uma queda de energia comprometa a produção. Em situações assim, mesmo com as instalações intactas, a operação pode parar — e o custo da interrupção ultrapassar os danos materiais provocados pelo evento climático.
Com a intensificação do El Niño no segundo semestre de 2026, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o risco de paralisações ganha espaço nas discussões sobre adaptação climática das empresas brasileiras. A preocupação não se restringe à possibilidade de enchentes, secas ou ondas de calor, mas também aos efeitos dessas ocorrências sobre cadeias produtivas, infraestrutura e planejamento financeiro.
Os prejuízos das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 ajudam a dimensionar essa exposição. Segundo avaliação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e do Banco Mundial, a indústria gaúcha registrou R$ 7,3 bilhões em danos físicos e outros R$ 6,4 bilhões em perdas de atividade.
A diferença entre os dois valores revela uma dimensão do risco climático que nem sempre é considerada nas decisões empresariais: além da recuperação de estruturas e equipamentos, é necessário calcular o impacto financeiro do período em que a produção ou a prestação de serviços fica comprometida.
E os efeitos não se limitam a desastres de grandes proporções. Em levantamento realizado em 2025 com 200 empresas paulistas, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) identificou que 64,5% haviam sido afetadas por eventos climáticos adversos. Entre as empresas pesquisadas, 44,5% relataram prejuízos financeiros.
A pesquisa considerou diferentes ocorrências, incluindo enchentes, secas, ondas de calor e apagões.Para Sven Feistel, diretor executivo de Seguros Corporativos e Subscrição da Zurich Seguros, um dos principais desafios está nas dependências que sustentam as atividades das empresas, especialmente quando diferentes unidades e fornecedores estão distribuídos pelo país.
"Uma indústria localizada fora de uma área inundada, por exemplo, pode interromper a produção por falta de matéria-prima, energia ou acesso às rotas de transporte. Em empresas com diferentes unidades e fornecedores distribuídos pelo país, um problema localizado acaba afetando outras etapas da atividade", afirma o executivo.
Nesses casos, a extensão dos prejuízos não depende necessariamente da intensidade do fenômeno climático ou dos danos registrados dentro da instalação.
O cálculo das perdas associadas a uma interrupção operacional começa pela identificação das atividades essenciais ao funcionamento da empresa.
Segundo Feistel, é necessário estimar a receita que deixaria de ser gerada durante a paralisação, os custos fixos que permaneceriam mesmo sem atividade, as despesas adicionais para restabelecer a operação e os danos a equipamentos e instalações.
"O cálculo começa pela identificação das atividades essenciais ao negócio e pela estimativa das consequências da interrupção. É necessário considerar a receita que deixaria de ser gerada durante a parada, os custos fixos que permaneceriam, as despesas adicionais de recuperação da operação e os danos a equipamentos e instalações", explica.
O tempo de retomada também entra nessa conta. Uma estrutura crítica pode continuar indisponível mesmo depois que as condições climáticas se normalizam, prolongando os impactos sobre a produção e as entregas.
A análise permite comparar o custo de medidas preventivas com as perdas financeiras que poderiam ser evitadas. É uma mudança na forma de tratar a adaptação climática: em vez de considerar a prevenção apenas como uma despesa, a empresa passa a avaliar seu potencial de reduzir prejuízos futuros.
De acordo com estimativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), mencionada por Feistel, cada dólar investido na redução do risco de desastres pode representar uma economia de aproximadamente sete dólares em perdas e custos de recuperação.
"O desafio é incorporar essa perspectiva às decisões financeiras, com recursos e responsabilidades definidos antes que os prejuízos ocorram", afirma.
Isso exige considerar não apenas ocorrências passadas, mas também projeções sobre como a exposição climática pode mudar ao longo dos próximos anos.
Historicamente, o El Niño favorece chuvas mais intensas no Sul do Brasil e condições mais secas em partes do Norte e Nordeste, embora seus efeitos variem entre regiões e períodos. A ocorrência do fenômeno em um contexto de aquecimento global acrescenta complexidade às avaliações, diante das mudanças na intensidade e na distribuição dos eventos extremos.
Feistel observa que a urbanização, a impermeabilização do solo e as alterações nos sistemas de drenagem também modificam a vulnerabilidade dos territórios. Por isso, instalações próximas podem apresentar níveis diferentes de exposição, dependendo das características do terreno, da infraestrutura e das medidas preventivas adotadas.
"Uma avaliação qualificada dos riscos e seu potencial impacto nos negócios deve, impreterivelmente, acompanhar as decisões sobre as unidades existentes e os novos investimentos", afirma.
Para apoiar esse tipo de avaliação, a Zurich utiliza ferramentas que combinam informações geográficas, registros de sinistros e modelos climáticos.
Uma delas é o Climate Spotlight, desenvolvido para analisar a exposição de ativos a ameaças como inundações, secas, vendavais e ondas de calor. A plataforma considera as condições atuais e projeções que podem chegar a 2100, com base em cenários do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
O objetivo é estimar potenciais perdas financeiras e períodos de interrupção, além de comparar a vulnerabilidade de diferentes unidades de uma mesma empresa.
"Com esse tipo de solução, os gestores passam a ter à mesa algo que faz sentido na hora de tomar decisões de negócios: uma estimativa concreta de quanto custa parar, e o que é necessário fazer para evitar que isso aconteça", afirma Feistel.
Na economia do delivery, entregadores viram novo mercado para seguradorasAs análises também podem ser aprofundadas por engenheiros de riscos, que avaliam as características específicas de cada instalação e recomendam medidas de adaptação.
Um exemplo citado pela seguradora envolve a Maersk, companhia dinamarquesa de transporte marítimo e logística. Em um estudo realizado com ferramentas da Zurich sobre 107 ativos terrestres da empresa, as projeções indicaram um aumento de 130% nos custos médios associados a danos físicos e interrupções operacionais até 2050, em comparação com 2020. A estimativa não representa perdas já registradas, mas um cenário de exposição futura utilizado para orientar decisões de prevenção.
A partir dos resultados, engenheiros realizaram inspeções presenciais em cinco terminais portuários considerados críticos, identificando vulnerabilidades e recomendando intervenções.
"Esse trabalho evidencia o valor de transformar estimativas de perdas futuras em informações para priorizar investimentos preventivos", diz o executivo.
A análise também pode orientar decisões sobre novos empreendimentos. Segundo Feistel, fatores como localização, materiais construtivos e infraestrutura de proteção precisam considerar não apenas as condições atuais, mas os riscos esperados durante a vida útil do projeto.
Apesar do avanço da discussão sobre adaptação, os riscos ambientais ainda disputam espaço com outras preocupações nas estratégias corporativas.
O Global Risks Report 2026, relatório anual do Fórum Econômico Mundial elaborado com base na percepção de mais de 1.300 líderes e especialistas, coloca os eventos climáticos extremos na quarta posição entre os riscos globais mais severos para os próximos dois anos.
Quando o horizonte é ampliado para dez anos, esses eventos passam a ocupar o primeiro lugar.
A percepção de gravidade, porém, não se traduz necessariamente em prioridade empresarial. Ao abordar as estratégias corporativas para a próxima década, o relatório aponta maior preocupação com riscos relacionados à economia, às operações e ao mercado de trabalho do que com ameaças ambientais.
"Mesmo que o assunto esteja em voga nas discussões empresariais, as demandas imediatas do negócio frequentemente prevalecem sobre recursos destinados à redução de vulnerabilidades", afirma Feistel.
Para o executivo, essa diferença ajuda a explicar uma das principais barreiras à adaptação climática: os investimentos em prevenção competem com necessidades imediatas do negócio, enquanto seus benefícios financeiros dependem de eventos cuja ocorrência e momento são incertos.
A dificuldade não está apenas em reconhecer a existência dos riscos, mas em transformá-los em valores que possam ser comparados com outras decisões de investimento.
Mesmo quando uma empresa consegue identificar sua exposição financeira, permanece o desafio de assegurar que a operação possa responder a um evento extremo.
Isso envolve a elaboração de planos de continuidade de negócios, que estabelecem quais atividades devem ser priorizadas, por quanto tempo podem permanecer indisponíveis e quais alternativas precisam ser acionadas durante uma crise.
Na avaliação de Feistel, muitas organizações ainda trabalham com planos gerais de emergência, sem procedimentos específicos para diferentes tipos de ocorrência.
"Pela nossa experiência em engenharia de riscos, observamos que muitas organizações possuem planos gerais, sem procedimentos específicos para diferentes ocorrências. É preciso testar as medidas previstas, capacitar as equipes e verificar se as alternativas funcionam diante de uma crise", afirma.
A existência de um documento, portanto, não garante que as medidas previstas possam ser executadas quando necessário. "Ter um plano documentado não significa que a empresa esteja preparada para colocá-lo em prática", acrescenta.
A preparação também precisa considerar riscos combinados. Uma enchente pode, simultaneamente, comprometer o fornecimento de energia, bloquear o acesso a uma instalação e interromper entregas de fornecedores.
Nesse cenário, o planejamento deixa de considerar apenas a proteção física dos ativos e passa a abranger as relações de dependência entre diferentes etapas da operação.
O executivo aponta ainda limitações externas às empresas, como deficiências da infraestrutura urbana, dos sistemas de alerta e do acesso a informações sobre ameaças locais. São fatores que exigem articulação com o poder público e instituições de pesquisa.
O aumento da exposição climática também tem consequências para a contratação de seguros corporativos. Segundo Feistel, além do histórico de sinistros, as seguradoras consideram medidas de gerenciamento de riscos, planos de continuidade e capacidade de resposta a emergências, especialmente em operações mais complexas.
"Organizações com frentes consistentes de gerenciamento de riscos tendem a apresentar condições mais favoráveis de aceitação e precificação, mesmo que outros critérios também sejam considerados", explica.
Ao mesmo tempo, a perspectiva de eventos extremos mais frequentes e severos pressiona o setor a revisar critérios técnicos e modelos de avaliação, incorporando projeções climáticas às estimativas de exposição.
O desafio é manter a oferta de proteção financeira diante de riscos que podem se alterar ao longo da vida útil dos ativos segurados. "O seguro representa uma camada de proteção, embora não substitua os cuidados que reduzem a exposição dos negócios aos eventos naturais", afirma.
Na própria Zurich, a preparação envolve o acompanhamento dos sinistros climáticos e a atuação de uma central de crises voltada ao atendimento de clientes em situações de catástrofe.
A seguradora também mantém, em parceria com a Zurich Santander, o Movimento União BR e o Instituto da Criança, um Fundo de Catástrofes para assistência a comunidades atingidas por desastres naturais, independentemente de possuírem seguro.
Segundo a companhia, o fundo prevê liberação de recursos em até cinco dias úteis após a solicitação. No primeiro semestre de 2026, foram mobilizados mais de R$ 1 milhão, com atendimento a 48.190 pessoas e distribuição de 74.960 itens essenciais em municípios de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco.
Para as empresas, a necessidade de adaptação envolve uma equação que vai além da contratação de seguros. A proteção financeira pode ajudar na recuperação após um desastre, mas não elimina os impactos de uma interrupção prolongada, sobretudo quando a retomada depende de fornecedores, infraestrutura pública e condições logísticas fora do controle direto da organização.