Escala Richter não é mais usada para medir todos os tipos de terremotos ocorridos no mundo
Colaboradora
Publicado em 25 de junho de 2026 às 12h38.
Os dois fortes terremotos que atingiram a Venezuela no dia 24 de junho de 2026, com magnitudes de 7,2 e 7,5, provocaram mortes e a decretação de estado de emergência no país.
Em meio à cobertura da tragédia, um termo voltou a aparecer com frequência nos noticiários: a escala Richter. Apesar de comum e usada por muitos anos, essa escala foi aposentada pela comunidade científica ainda no final do século 20.
Desde a virada do milênio, os sismólogos trabalham com outro instrumento como padrão: a Escala de Magnitude de Momento, identificada pela sigla Mw.
Introduzida em 1979 pelos pesquisadores Thomas Hanks e Hiroo Kanamori, a Mw é hoje a medida mais comum para a magnitude de terremotos de médio a grande porte, sendo usada por autoridades sismológicas como o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) para relatar grandes tremores.
A confusão é compreensível: as duas escalas produzem valores parecidos para tremores pequenos e médios, o que fez o nome "Richter" se fixar no vocabulário popular mesmo quando, tecnicamente, não é o método em uso.
Desenvolvida em 1935 pelos sismólogos Charles Francis Richter e Beno Gutenberg, ambos do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), a escala Richter tinha como objetivo criar uma forma sistemática de comparar a força dos terremotos registrados na Califórnia, onde os dois pesquisavam.
O método funcionava a partir dos registros de aparelhos chamados sismógrafos, que detectam e registram os movimentos do solo durante um abalo.
A escala analisava a amplitude das ondas sísmicas captadas, ou seja, a intensidade das oscilações registradas pelo equipamento.
A principal característica da escala era o crescimento logarítmico: de um grau para o seguinte, a diferença na amplitude das vibrações é de dez vezes.
E a diferença na quantidade de energia liberada é de 30 vezes. Isso significa que um terremoto de magnitude 6 tem vibrações dez vezes maiores que um de magnitude 5, e cem vezes maiores que um de magnitude 4.
Na prática, um tremor de 8,8 como o ocorrido na Península de Kamchatka libera energia dezenas de vezes superior à de um terremoto de 7,8, e centenas de vezes superior à de um de 6,8. O número parece pequeno, mas cada grau representa uma diferença enorme.
A escala não tem um limite máximo teórico. O maior terremoto já registrado aconteceu em 1960, no Chile, atingindo 9,5 graus e causando milhares de mortes.
O principal problema é que o sistema de vigilância sismológica internacional usa a escala de Richter apenas para terremotos de magnitude entre 2,0 e 6,9, com hipocentros a profundidades de até 400 quilômetros.
Quando o sismo tem magnitude superior a 6,9, a escala de Richter deixa de ser aplicável.
O fenômeno técnico por trás disso chama-se "saturação": acima de certo ponto, os valores calculados pela escala param de crescer proporcionalmente à força real do abalo.
Além disso, a escala foi projetada para um modelo específico de sismógrafo (o Wood-Anderson), que não reflete com precisão os instrumentos modernos e eventos de grande escala.
A Escala de Magnitude de Momento (Mw) está mais diretamente relacionada à energia de um terremoto do que outras escalas e não apresenta saturação, ou seja, não subestima as magnitudes em nenhuma situação. É por isso que ela foi adotada como padrão global.
Medir terremotos vai além de registrar um número no noticiário. Os dados sísmicos são essenciais para sistemas de alerta, planejamento urbano e gestão de riscos.
A aplicação mais imediata é a prevenção de tsunamis. Assim que um terremoto submarino é detectado, os sistemas de monitoramento usam sua localização e magnitude para calcular se há risco de onda gigante, em qual direção e com quanto tempo de antecedência a população costeira deve ser avisada.
Os dados sísmicos também fundamentam normas de construção civil e zoneamento de cidades, especialmente em regiões com histórico de abalos mais frequentes.
Outro ponto importante: a magnitude não é o único fator que determina a gravidade de um terremoto. A profundidade do hipocentro, a proximidade com áreas densamente habitadas e a qualidade das construções locais são igualmente determinantes.
O terremoto de 7,0 graus que atingiu o Haiti em 2010 foi menos poderoso que muitos outros registrados no mesmo período, mas foi devastador, com centenas de milhares de mortos, em razão da fragilidade da infraestrutura.
O país é frequentemente associado à ideia de imunidade a terremotos. A percepção não está de todo errada, mas merece contexto.
O Brasil é um país relativamente estável em termos de atividade sísmica, especialmente quando comparado com Chile, Japão e outros países do Círculo de Fogo do Pacífico.
Isso se deve ao contexto geológico único do país, situado no centro de uma placa tectônica. Ainda assim, tal hipótese não pode ser descartada.
Em nosso país, ocorrem, em média, 20 sismos de magnitude maior que 3,0 e dois com magnitude maior que 4,0 por ano. A região mais ativa é o Nordeste, especialmente em torno da bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte.
Os principais terremotos já documentados no território brasileiro foram:
Apesar dos números modestos em comparação com países do "Anel de Fogo" do Pacífico, o Brasil mantém uma rede de monitoramento permanente.
A Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), coordenada pelo Observatório Nacional, conta com mais de 90 estações sismográficas espalhadas pelo território, que conectam dados em tempo real via internet e satélites, armazenando e disponibilizando gratuitamente informações à sociedade.