Golfinhos: pesquisa mostrou que baleias-piloto aumentam o volume das vocalizações em região com intenso tráfego marítimo (Getty Images)
Redatora
Publicado em 17 de maio de 2026 às 06h45.
O barulho constante de navios pode estar dificultando a comunicação de baleias-piloto no Estreito de Gibraltar, uma das rotas marítimas mais movimentadas do planeta. Segundo um novo estudo, os animais chegam a aumentar o volume das vocalizações para tentar se ouvir em meio à poluição sonora causada pelas embarcações.
As análises são dos cientistas da Universidade de Aarhus em parceria com instituições da Espanha, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos. Os resultados foram publicados na revista científica Journal of Experimental Biology.
Os pesquisadores analisaram baleias-piloto-de-barbatana-longa (Globicephala melas), espécie de golfinho extremamente social que se comunica por meio de cliques, assobios e diferentes vocalizações durante deslocamentos e buscas por alimento.
Segundo os cientistas, os animais apresentaram um comportamento conhecido como “Efeito Lombard”, fenômeno também observado em humanos quando pessoas falam mais alto em ambientes barulhentos.
Para investigar o impacto da poluição sonora, a equipe monitorou 23 baleias-piloto entre 2012 e 2015 com gravadores presos aos animais por meio de ventosas. Os dispositivos registraram mais de 1.400 sons emitidos pelas baleias.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores analisaram o ruído provocado pelas embarcações que cruzam o Estreito de Gibraltar, rota marítima por onde passam mais de 60 mil navios por ano.
Segundo o estudo, os níveis de ruído ambiente variavam entre 79 e 144 decibéis.
As baleias-piloto costumam emitir sons entre 94 e 160 decibéis. Mesmo assim, os pesquisadores descobriram que os animais nem sempre conseguiam aumentar o volume o suficiente para compensar o ruído marítimo.
O aumento das vocalizações foi identificado principalmente em sons de alta frequência e pulsos curtos, considerados mais suaves. Já os chamados de baixa frequência, usados para comunicação a longas distâncias e localização de integrantes do grupo, praticamente não apresentaram aumento de intensidade.
Segundo os cientistas, isso pode indicar que essas baleias já estariam vocalizando próximo do limite máximo possível para manter contato entre si.
Durante o estudo, os pesquisadores também perceberam que as baleias vocalizavam com menos frequência em períodos de ruído mais intenso causado pelos navios.
Apesar de os dados ainda serem insuficientes para conclusões definitivas, os cientistas sugerem que os animais possam evitar emitir sons em situações de barulho extremo. Segundo Frants H. Jensen, pesquisador da Universidade de Aarhus e coautor do estudo, o aumento da poluição sonora reduz o alcance efetivo da comunicação entre as baleias-piloto.
Diante disso, Jensen acredita que compreender os impactos ecológicos desse fenômeno será fundamental para reduzir os efeitos do ruído marítimo sobre espécies que dependem da comunicação sonora para sobreviver