Crocodilos: relação desses animais com o clima ao longo de milhões de anos pode ajudar a explicar sua sobrevivência à extinção em massa (Freepik)
Redatora
Publicado em 31 de outubro de 2026 às 06h00.
Há 66 milhões de anos, o impacto de um asteroide provocou uma extinção em massa que eliminou os dinossauros não aviários. Entretanto, os ancestrais dos crocodilos conseguiram sobreviver. Agora, um novo estudo aponta uma possível explicação: a preferência desses animais por climas quentes.
Pesquisadores da University College London (UCL), no Reino Unido, descobriram que a linhagem dos crocodilos acompanhou mudanças de temperatura durante milhões de anos. Quando o planeta esfriava, esses animais tendiam a se concentrar nas regiões tropicais.
Os resultados, publicados na revista científica Science Advances, sugerem que áreas próximas ao Equador podem ter funcionado como refúgios após a colisão, permitindo a sobrevivência de algumas populações.
Para investigar essa questão, os cientistas analisaram mais de 7 mil registros fósseis e informações sobre mais de 400 espécies atuais e extintas. A equipe combinou esses dados com modelos computacionais que reconstruíram a geografia e o clima da Terra ao longo de 245 milhões de anos.
As análises indicaram que os ancestrais dos crocodilos geralmente permaneciam em ambientes com temperaturas elevadas. Durante períodos de aquecimento, expandiam sua distribuição geográfica. Quando o clima esfriava, recuavam para regiões mais quentes.
Esse comportamento pode ter favorecido a sobrevivência após o impacto do asteroide de Chicxulub. Segundo os pesquisadores, as áreas tropicais e subtropicais permaneceram climaticamente adequadas para parte dessa linhagem, mesmo diante das mudanças ambientais provocadas pela colisão.
O impacto lançou materiais na atmosfera, reduzindo a entrada de luz solar e alterando as condições climáticas. Para avaliar essas consequências, os pesquisadores simularam diferentes cenários de redução da radiação solar.
Quando a diminuição foi de 5% ou 10%, regiões próximas ao Equador continuaram apresentando temperaturas adequadas para parentes dos crocodilos. Entretanto, em um cenário mais extremo, com redução de 15%, até essas áreas deixaram de oferecer condições favoráveis.
Os autores observam que esse último cenário é considerado improvável. As simulações também avaliaram alterações nos níveis atmosféricos de dióxido de carbono, sem identificar mudanças relevantes na disponibilidade de climas adequados para os animais.
Os resultados sugerem que a distribuição geográfica dos crocodilos pode ter sido uma vantagem durante a crise ambiental. Entretanto, o estudo ainda não consegue demonstrar que o clima foi o único responsável pela sobrevivência.
Os crocodilos atuais representam apenas parte da diversidade de uma linhagem evolutiva muito mais ampla. Ao longo de milhões de anos, seus ancestrais e parentes desenvolveram diferentes tamanhos, formas corporais e hábitos alimentares.
Entre os exemplos está o Sarcosuchus, predador pré-histórico que podia atingir aproximadamente 12 metros de comprimento. Outro representante foi o Postosuchus, animal terrestre capaz de se locomover sobre duas ou quatro patas.
A linhagem mais ampla, conhecida como pseudossúquios, também incluía espécies herbívoras e animais adaptados a diferentes ambientes. Apesar dessa diversidade, a pesquisa identificou uma tendência persistente de associação com climas quentes.
Há cerca de 50 milhões de anos, durante um período de temperaturas globais elevadas, parentes dos crocodilos chegaram a habitar regiões de altas latitudes, incluindo a Antártida.
Com o resfriamento gradual do planeta, sua distribuição voltou a se concentrar em áreas tropicais.
Além da preferência por regiões quentes, outras características podem ter contribuído para a sobrevivência dos crocodilos. Entre elas estão a capacidade de viver parcialmente na água, a alimentação variada e as necessidades energéticas relativamente baixas.
Como animais ectotérmicos, os crocodilos dependem de fontes externas de calor para regular a temperatura corporal. Isso permite que utilizem menos energia para manter suas funções vitais do que animais que produzem grande parte do próprio calor corporal.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que a sobrevivência provavelmente resultou da combinação de diferentes fatores.
A pesquisa também apresenta implicações para a conservação dos crocodilos modernos. Ao longo de sua história evolutiva, esses animais frequentemente responderam às mudanças climáticas deslocando-se para regiões com temperaturas adequadas.
Atualmente, porém, a expansão de cidades, estradas e áreas agrícolas pode dificultar esses movimentos.
Philip Mannion, professor do Departamento de Ciências da Terra da UCL, afirma que a disponibilidade de habitats será importante para a adaptação das espécies ao aquecimento global.
No entanto, os pesquisadores ressaltam que a disponibilidade de ambientes favoráveis, que pode ter ajudado os ancestrais dos crocodilos a sobreviver no passado, não garante a sobrevivência desses animais diante das mudanças climáticas atuais.