Parceiro institucional:
As necessidades de adaptação na saúde já quantificadas pelos países em desenvolvimento indicam um custo mínimo de US$ 3,3 bilhões por ano (Imagem gerada por IA/EXAME)
Repórter de ESG
Publicado em 29 de outubro de 2026 às 06h00.
Uma década após o histórico Acordo de Paris, os danos das mudanças climáticas à saúde crescem mais rápido do que as respostas globais. O calor já mata mais pessoas, a seca ameaça a produção de alimentos e as temperaturas elevadas reduzem a capacidade de trabalho.
É o que revela a 10ª edição do Lancet Countdown, relatório publicado pela revista médica britânica The Lancet, às vésperas da COP31 na Turquia, reunindo 146 pesquisadores de mais de 100 instituições em mais de 30 países.
Diante do cenário, os especialistas defendem que as mudanças climáticas sejam formalmente declaradas uma "emergência global de saúde", com uma resposta coordenada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que oriente tanto políticas climáticas como prioridades de financiamento.
A discussão ganha peso enquanto países precisam transformar compromissos de redução de emissões em medidas capazes de conter o aquecimento e proteger a população de seus efeitos mais dramáticos.
"O que falta não são evidências, mas vontade política para agir com base nelas”, diz Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e presidente do conselho do Lancet Countdown.
Entre 2016 e 2023, as mudanças climáticas causaram quase 3 milhões de mortes por calor, segundo as estimativas do relatório. O número corresponde à parcela das mortes associadas às altas temperaturas que os pesquisadores atribuem ao aquecimento provocado pela atividade humana.
Somente em 2023, o calor esteve associado a 710 mil mortes no mundo, recorde da série analisada. Desse total, 71,5% foram atribuídas a um sistema climático em desequilíbrio.
Na média anual entre 2016 e 2023, foram estimadas 540.800 mortes relacionadas ao calor, das quais 68% tiveram como causa as mudanças climáticas. Na década anterior, de 2006 a 2015, essa participação era de 55%.
O avanço dos danos ocorre apesar dos benefícios já obtidos com energia mais limpa, sistemas de alerta e preparação dos serviços de saúde.
“No entanto, o progresso tem sido lento demais, pequeno demais e não está chegando a quem mais precisa", diz Marina Romanello, diretora-executiva do Lancet Countdown.
As temperaturas elevadas também impõem perdas à economia. Em 2025, a redução da capacidade de trabalho provocada pelo calor representou uma perda estimada de US$ 1,07 trilhão em renda potencial, equivalente a 0,91% da produção econômica mundial.
Foi o terceiro ano consecutivo em que o valor ultrapassou US$ 1 trilhão. Agricultura e construção concentraram 38% e 29% das perdas, respectivamente. Os dois setores dependem de atividades ao ar livre e de esforço físico, o que aumenta a exposição dos trabalhadores.
O impacto foi desigual entre as regiões. No Sudeste Asiático, as perdas corresponderam a 3,9% do PIB; na África, a 3,2%. Nas Américas, foram equivalentes a 1,5%, ante 0,2% na Europa.
Na África, a agricultura respondeu por 71% da renda potencial perdida em razão do calor.
A pressão sobre a produção de alimentos também aparece nos indicadores de seca. Em 2025, 51,8% da superfície terrestre foi atingida por seca extrema durante pelo menos um mês, o segundo maior nível já registrado, atrás de 2023.
Ao mesmo tempo, chuvas de intensidade extrema atingiram, em média, 17,2% da superfície terrestre por ano entre 2016 e 2025, ante 14,8% na década anterior. Esses episódios elevam os riscos de enchentes, deslizamentos e doenças transmitidas pela água.
“Os riscos se tornam ainda maiores quando consideramos como diferentes ameaças interagem e se somam”, complementa Romanello.
O relatório também identifica resultados das medidas adotadas para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Em pelo menos 77 países onde a poluição do ar causada por essas fontes caiu desde 2016, a melhora da qualidade do ar evita cerca de 323 mil mortes por ano.
O investimento global em energia limpa cresceu 7,2% em 2025, atingindo o recorde de US$ 2,1 trilhões. O valor foi 82% superior ao US$ 1,16 trilhão destinado aos combustíveis fósseis.
Ainda assim, petróleo, gás e carvão fornecem mais de 80% da energia mundial. E a poluição atmosférica associada continua a causar cerca de 2,8 milhões de mortes por ano, segundo o documento.
“Temos provas de que a ação climática centrada na saúde funciona: ar mais limpo, serviços de saúde mais resilientes e sistemas de alerta estão protegendo a saúde e salvando vidas”, diz Anthony Costello, copresidente do Lancet Countdown.
Por outro lado, o especialista destaca que o ritmo e a escala da redução das emissões continuam descompassados em relação aos danos.
Segundo o levantamento, as 100 maiores companhias do setor planejam produzir, em 2040, um volume de combustíveis fósseis 150% superior ao compatível com a limitação do aquecimento global a 1,5°C. Na edição anterior, o excesso projetado era de 138%.
O apoio público a essas fontes também cresceu. Os subsídios líquidos aos fósseis dobraram desde 2016 e somaram US$ 6,2 trilhões no período desde a adoção do Acordo de Paris.
Em 2024, dez países gastaram mais com esses subsídios do que com seus sistemas de saúde.
O apelo de reconhecimento de uma emergência global inclui a criação de um instrumento da OMS para coordenar a resposta internacional. Os autores defendem que a saúde oriente as metas de emissões e a distribuição dos recursos destinados ao enfrentamento da crise climática.
Uma das propostas é ampliar o financiamento da adaptação por meio de doações, em vez de empréstimos, para que os países possam preparar seus serviços sem aumentar o endividamento.
As necessidades de adaptação na saúde já quantificadas pelos países em desenvolvimento indicam um custo mínimo de US$ 3,3 bilhões por ano.
Em 2024, porém, os compromissos financeiros somaram US$ 1,1 bilhão, cerca de um terço da necessidade declarada.
Dos 194 Estados-membros da OMS, 56 já têm um plano nacional de adaptação dos serviços de saúde ao clima, ante 14 em 2015. Na COP30 em Belém, o Brasil anunciou uma iniciativa internacional para abordar a relação entre as duas agendas.
Segundo o relatório, a falta de dinheiro e de profissionais está entre as principais barreiras para colocar esses planos em prática.