Ciência

'Geleira do Apocalipse' pode elevar nível do mar duas vezes mais que o previsto

Novo modelo mostra que água quente do oceano avança quilômetros sob a geleira Thwaites e pode acelerar a perda de gelo até o fim do século

Geleira Thwaites: pesquisadores projetam contribuição de até 30 milímetros para a elevação global do nível do mar até 2100 (Freepik)

Geleira Thwaites: pesquisadores projetam contribuição de até 30 milímetros para a elevação global do nível do mar até 2100 (Freepik)

Publicado em 28 de outubro de 2026 às 17h29.

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A geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, pode contribuir para uma elevação do nível global do mar duas vezes maior do que a prevista anteriormente, segundo um novo modelo computacional desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine e do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), da Nasa.

Conhecida como “Geleira do Apocalipse”, Thwaites poderá elevar o nível dos oceanos em até 30 milímetros até 2100, mesmo sem aquecimento climático adicional no cenário analisado.

A descoberta faz parte de um estudo liderado pelo pesquisador Mattia Poinelli. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Communications.

O que está derretendo a geleira Thwaites por baixo?

Os cientistas identificaram que a água oceânica pode penetrar vários quilômetros sob a geleira, alcançando regiões onde o gelo permanece apoiado no fundo do mar.

Modelos anteriores representavam a transição entre o gelo ancorado e o flutuante como uma linha estreita, conhecida como linha de aterramento. O novo estudo considera uma zona de aterramento, que pode se estender por vários quilômetros e permitir a circulação de água sob o gelo.

Com o movimento das marés, a água pressurizada levanta parte da geleira e entra em contato com sua superfície inferior, acelerando o derretimento. Ao incorporar esse processo, o modelo reproduziu alterações observadas em Thwaites desde a década de 1990 que eram até quatro vezes mais intensas do que as representadas por simulações convencionais.

Geleira pode perder uma barreira natural até 2100

A entrada de água oceânica também pode enfraquecer a ligação da geleira com elevações do fundo do mar que ajudam a conter seu movimento. Uma dessas estruturas é a crista Mouginot, responsável por estabilizar temporariamente a região principal de Thwaites.

Segundo os pesquisadores, a perda desse ponto de apoio poderá permitir que o gelo avance mais rapidamente em direção ao oceano.

Nas simulações que consideraram uma zona de aterramento de 4 a 6 quilômetros, o modelo apontou 60% de probabilidade de a geleira perder contato com a crista Mouginot até 2100.

Caso isso aconteça, Thwaites poderá continuar recuando sobre um fundo marinho cuja profundidade aumenta em direção ao interior do continente, até alcançar outra elevação subaquática.

Por que as previsões anteriores subestimavam o derretimento?

A equipe comparou as simulações com mais de duas décadas de observações da geleira. Os pesquisadores também utilizaram medições de radar da constelação de satélites ICEYE, que identificaram movimentos associados à entrada de água oceânica sob o gelo.

Esses dados permitiram representar processos que não eram considerados adequadamente nos modelos tradicionais. Segundo Mattia Poinelli, as observações mostram que a região de contato entre a geleira e o fundo do mar não é uma fronteira estreita e estável.

A água oceânica pode alcançar áreas extensas sob o gelo, alterando a velocidade do derretimento e do recuo da geleira.

'Geleira do Apocalipse' pode ampliar risco de inundações

A geleira Thwaites está localizada na região do mar de Amundsen, na Antártida Ocidental, onde ocorre uma parcela significativa da perda de massa da camada de gelo antártica. Nas últimas décadas, os cientistas observaram o afinamento, o recuo e a aceleração do fluxo de gelo na região.

Para Eric Rignot, professor de ciências do sistema terrestre da Universidade da Califórnia em Irvine e coautor da pesquisa, os resultados indicam que os modelos anteriores não representavam completamente os processos físicos responsáveis pela perda de gelo. Segundo o pesquisador, as novas projeções apontam para riscos maiores de inundações costeiras nas próximas décadas.

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