Ciência

Como as cobras perderam as patas? Entenda a evolução que transformou esses répteis

Fósseis, análises genéticas e imagens em 3D ajudam cientistas a reconstruir as mudanças que permitiram às serpentes conquistar diferentes ambientes

Cobras: estudos revelam como a perda dos membros favoreceu a adaptação da espécie (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Cobras: estudos revelam como a perda dos membros favoreceu a adaptação da espécie (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 9 de agosto de 2026 às 08h24.

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As cobras nem sempre tiveram o corpo alongado e sem patas que conhecemos hoje. Novos fósseis, análises genéticas e reconstruções em 3D estão ajudando cientistas a entender como esses répteis passaram por uma das transformações mais marcantes da evolução animal ao longo de mais de 100 milhões de anos.

As informações foram reunidas em uma reportagem publicada pela Live Science, baseada em um artigo da Knowable Magazine, que reúne pesquisas recentes sobre a evolução das serpentes. Os estudos mostram que perder as patas, longe de representar uma desvantagem, permitiu que as cobras ocupassem florestas, desertos, oceanos e ambientes subterrâneos.

Onde surgiram as primeiras cobras?

Os cientistas estimam que os ancestrais das serpentes apareceram há cerca de 160 milhões de anos, durante o período Jurássico. No entanto, ainda não existe consenso absoluto sobre como eram esses primeiros animais, já que o registro fóssil permanece incompleto.

Durante décadas, pesquisadores discutiram se as primeiras cobras eram marinhas, subterrâneas ou terrestres. Atualmente, a hipótese mais aceita é que elas tenham surgido em terra firme, possivelmente em regiões arenosas, onde conseguiam se deslocar pela superfície e também utilizar o subsolo ocasionalmente.

Segundo o biólogo evolucionista Tiago Simões, da Universidade de Princeton, os fósseis mais antigos foram encontrados em ambientes muito diferentes, o que dificulta reconstruir essa etapa inicial da evolução das serpentes.

Como as cobras perderam as patas?

A perda das patas das cobras ocorreu gradualmente entre aproximadamente 150 milhões e 125 milhões de anos atrás. De acordo com Alex Pyron, biólogo evolucionista da Universidade George Washington, um corpo mais alongado facilitava a locomoção em vegetação densa, espaços estreitos e túneis, onde os membros poderiam atrapalhar o deslocamento.

Um dos fósseis mais importantes já encontrados é o da espécie Najash rionegrina, descoberta na Patagônia e datada de cerca de 95 milhões de anos. O animal ainda preservava membros posteriores, indicando que a perda das patas aconteceu de forma progressiva.

Apesar dessa descoberta, os cientistas ainda procuram um ancestral de quatro patas que conecte definitivamente os lagartos às serpentes modernas.

Quais adaptações fizeram das cobras predadores tão eficientes?

Um grande estudo publicado na revista Science em 2024 revelou que, há cerca de 125 milhões de anos, as serpentes passaram por mudanças rápidas na coluna vertebral, no crânio, na alimentação e na forma de locomoção.

Ao longo desse processo, elas perderam os membros anteriores e posteriores, desenvolveram um corpo formado por centenas de vértebras e adquiriram um crânio altamente flexível.

Segundo Frank Burbrink, curador de herpetologia do Museu Americano de História Natural, essa combinação de características permitiu que as cobras explorassem ambientes muito diferentes e se adaptassem rapidamente sempre que surgiam novas oportunidades ecológicas.

O crânio flexível ampliou a dieta das serpentes

Uma das mudanças mais importantes ocorreu na estrutura da cabeça. Nas cobras, a caixa craniana forma uma estrutura rígida que protege o cérebro, enquanto os demais ossos permanecem móveis. Para Michael Caldwell, da Universidade de Alberta, essa transformação pode até ter começado antes do desaparecimento completo das patas.

Ligamentos elásticos permitem que partes das mandíbulas se afastem e que diferentes regiões da boca se movimentem de forma independente para empurrar a presa até a garganta.

Essa anatomia tornou possível engolir animais muito maiores que a própria cabeça e ampliou enormemente a variedade de alimentos consumidos pelas serpentes, incluindo peixes, lesmas, caracóis e até outras cobras.

O que a genética revela sobre a evolução das cobras?

Os fósseis contam apenas parte da história. Estudos genéticos também ajudam a explicar como o corpo das serpentes evoluiu. Pesquisas indicam que a perda dos membros está relacionada à redução da atividade de uma sequência reguladora chamada ZRS, responsável pelo desenvolvimento das patas durante o crescimento embrionário.

Os cientistas também identificaram que as serpentes perderam o gene responsável pela produção da grelina, hormônio ligado à sensação de fome, o que pode explicar a capacidade de algumas espécies permanecerem longos períodos sem se alimentar.

Agora, os pesquisadores pretendem sequenciar os genomas completos de mais de 100 espécies para reconstruir com maior precisão essa trajetória evolutiva.

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