Pimenta: apesar de efeitos positivos observados em laboratório, o consumo excessivo delas pode ser responsável por câncer de esôfago (Carmen Fukunari/Exame)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 16 de julho de 2026 às 08h18.
A pimenta é ingrediente tradicional na culinária de bilhões de pessoas e há anos desperta o interesse da ciência por seus possíveis efeitos sobre a saúde.
Enquanto estudos de laboratório sugerem que a capsaicina, composto responsável pela ardência, pode reduzir inflamações e até combater células cancerígenas, pesquisas com seres humanos vêm apresentando resultados contraditórios.
Uma revisão publicada na revista Frontiers in Nutrition reforça essa discussão. Após reunir dados de 14 estudos observacionais com mais de 11 mil participantes, pesquisadores encontraram uma associação entre o consumo elevado de pimenta e um maior risco de alguns cânceres do trato gastrointestinal, especialmente o de esôfago, a causa de morte do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica.
Os autores, porém, destacam que os resultados não demonstram que a pimenta seja a causa da doença e afirmam que estudos mais robustos ainda são necessários.
A análise comparou pessoas que consumiam grandes quantidades de pimenta com aquelas que tinham a menor ingestão do alimento.
No grupo de maior consumo, o risco de desenvolver cânceres do trato gastrointestinal foi 64% superior. A associação mais forte apareceu no câncer de esôfago: os participantes que ingeriam mais pimenta apresentaram um risco quase três vezes maior de desenvolver esse tipo de tumor.
Para outros cânceres digestivos, os resultados foram menos consistentes. Embora tenha sido observada uma tendência de maior incidência de câncer de estômago entre consumidores frequentes, a diferença não alcançou significância estatística. O mesmo ocorreu com o câncer colorretal.
Os pesquisadores também identificaram diferenças importantes entre as regiões analisadas.
Estudos realizados na Ásia, África e América do Norte, em geral, encontraram maior risco entre pessoas que consumiam grandes quantidades de pimenta. Já pesquisas conduzidas na Europa e na América do Sul não observaram aumento do risco ou chegaram a identificar associações opostas.
Segundo os autores, essas diferenças podem estar relacionadas à quantidade consumida, ao tipo de pimenta utilizado, às formas de preparo dos alimentos, além de fatores como genética, consumo de álcool, tabagismo e hábitos alimentares de cada população.
A principal substância ativa da pimenta é a capsaicina, responsável pela sensação de ardor ao ativar receptores nervosos conhecidos como TRPV1.
Experimentos em laboratório já mostraram que ela pode reduzir inflamações, alterar o metabolismo e até destruir células cancerígenas em determinadas condições. Por outro lado, outros estudos sugerem que, dependendo da dose e do contexto biológico, o composto também pode favorecer irritações persistentes nos tecidos e estimular o crescimento de tumores.
Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que a exposição frequente a alimentos extremamente picantes possa provocar irritação crônica no revestimento do esôfago em pessoas mais suscetíveis, aumentando o risco de alterações celulares ao longo do tempo. No entanto, essa explicação ainda não foi comprovada.
Os autores ressaltam que todas as pesquisas incluídas na revisão são observacionais. Isso significa que elas conseguem identificar associações, mas não estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Outros fatores, como infecções, condições socioeconômicas, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas ou padrões gerais de alimentação, também podem influenciar o desenvolvimento dos tumores observados.
Além disso, ainda não se sabe qual seria o limite seguro de consumo. Os estudos analisaram principalmente pessoas que ingeriam grandes quantidades de pimenta, sem esclarecer se o consumo moderado apresenta o mesmo risco.
Enquanto novas pesquisas acompanham essa relação ao longo dos próximos anos, os cientistas afirmam que as evidências continuam inconclusivas e recomendam cautela na interpretação dos resultados.