Ciência

Veneno de escorpião e pimenta viram 'arma' contra superbactérias

Pesquisadores mexicanos identificaram moléculas capazes de combater tuberculose e bactérias resistentes a antibióticos, uma das maiores ameaças à saúde global

Escorpião: veneno foi usado para criar moléculas antibacterianas (Getty Images)

Escorpião: veneno foi usado para criar moléculas antibacterianas (Getty Images)

Publicado em 12 de maio de 2026 às 11h39.

Moléculas extraídas de veneno de escorpião e da pimenta habanero podem abrir caminho para uma nova geração de antibióticos contra bactérias resistentes, incluindo a causadora da tuberculose.

A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Nacional Autônoma do México e surge em meio ao avanço global da resistência antimicrobiana. As informações foram publicadas na WIRED.

Para a análise, os cientistas desenvolveram três compostos com potencial terapêutico: dois derivados do veneno de escorpião e um obtido a partir de um peptídeo presente na pimenta. Os resultados ainda estão em fase experimental, mas indicam eficácia contra patógenos considerados prioritários pela saúde pública.

Como o veneno de escorpião virou antibiótico

Os pesquisadores isolaram duas moléculas do veneno do escorpião Diplocentrus melici, encontrado no México. Essas substâncias, chamadas benzoquinonas, apresentaram propriedades antimicrobianas relevantes.

Uma das moléculas demonstrou ação contra a bactéria Mycobacterium tuberculosis, enquanto a outra foi eficaz contra Staphylococcus aureus, associada a quadros que vão de infecções de pele a doenças graves. Testes em modelo animal indicaram que a substância ativa contra tuberculose pode funcionar como um antibiótico potente.

Além disso, os compostos também mostraram capacidade de eliminar outras bactérias resistentes, como Acinetobacter baumannii, um microrganismo associado principalmente a infecções hospitalares graves que podem atingir pulmões, sangue, trato urinário e feridas.

Pimenta habanero também mostrou potencial

Em paralelo, outro grupo de pesquisa identificou um peptídeo com ação antimicrobiana na pimenta habanero (Capsicum chinense). A molécula, chamada defensina J1-1, demonstrou eficácia contra a bactéria Pseudomonas aeruginosa.

A partir dessa descoberta, os cientistas desenvolveram um composto chamado XisHar J1-1, produzido por meio de engenharia genética e técnicas industriais de fermentação. O objetivo é viabilizar a produção em larga escala.

Resultados promissores, mas ainda iniciais

Apesar dos avanços, os pesquisadores destacam que os testes ainda têm limitações. No caso da pimenta, os experimentos foram realizados com cepas de laboratório, e não com amostras diretamente isoladas de pacientes. Além disso, há desafios relacionados à estabilidade das moléculas no organismo humano, o que exige novas etapas de desenvolvimento antes de qualquer aplicação clínica.

A resistência a antibióticos é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma das maiores ameaças à saúde global. Bactérias resistentes dificultam tratamentos e aumentam o risco de infecções graves e mortes.

Nesse contexto, os cientistas afirmam que a descoberta de novas moléculas com mecanismos diferentes dos antibióticos atuais pode ampliar as alternativas terapêuticas no futuro. Os compostos derivados do veneno de escorpião já foram patenteados no México e na África do Sul.

Agora, os pesquisadores destacam que a próxima etapa envolve testes clínicos e o desenvolvimento de tecnologias capazes de garantir segurança e eficácia no uso humano. Para isso, as equipes afirmam que ainda serão necessários investimentos e parcerias com a indústria farmacêutica.

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