Ciência

Cientistas testam terapia que combate câncer de pulmão e perda muscular ao mesmo tempo

Estratégia usa nanopartículas para levar mRNA aos tumores e apresentou resultados promissores em camundongos

Câncer de pulmão: tratamento experimental também combateu a caquexia em animais (Freepik)

Câncer de pulmão: tratamento experimental também combateu a caquexia em animais (Freepik)

Publicado em 6 de outubro de 2026 às 15h53.

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Uma terapia experimental conseguiu reduzir tumores de pulmão e, ao mesmo tempo, combater a perda de massa muscular associada ao câncer em camundongos. A estratégia utiliza nanopartículas para transportar RNA mensageiro (mRNA) diretamente às células tumorais.

Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon, nos Estados Unidos, a abordagem busca enfrentar simultaneamente o câncer de pulmão e a caquexia, síndrome que provoca perda acentuada de peso e músculos em alguns pacientes. Os resultados foram publicados no Journal of Controlled Release.

Como funciona a nova terapia contra o câncer de pulmão?

Um dos principais desafios das terapias com mRNA é fazer o material chegar ao local desejado após entrar na corrente sanguínea. Nanopartículas lipídicas convencionais tendem a se acumular no fígado. Para contornar essa limitação, os pesquisadores desenvolveram partículas com maior capacidade de alcançar tumores pulmonares.

Depois da administração intravenosa, elas se ligaram à vitronectina, uma proteína presente no sangue. Essa interação favoreceu o direcionamento das partículas para receptores encontrados em abundância no microambiente tumoral.

As nanopartículas então transportaram mRNA da folistatina até os tumores. O material genético fornece instruções para que as células produzam a proteína, relacionada tanto à supressão do crescimento tumoral quanto ao crescimento do tecido muscular.

Segundo os pesquisadores, a estratégia conseguiu uma redução da carga tumoral aproximadamente 2,5 vezes maior do que a obtida com nanopartículas convencionais que produziam folistatina sistemicamente.

Tratamento também preservou músculos

A escolha da folistatina tinha outro objetivo: enfrentar uma complicação grave associada ao câncer. A caquexia cancerosa provoca perda involuntária de peso, gordura e massa muscular. Diferentemente de uma perda de peso relacionada apenas à alimentação, a condição pode persistir mesmo quando o paciente recebe nutrientes adequados.

Nos camundongos, o tratamento ajudou a manter o peso corporal e preservar tecidos musculares e adiposos. Os pesquisadores também observaram melhora na ingestão de alimentos.

A estratégia, portanto, atuou em duas frentes no mesmo experimento: reduziu a carga tumoral e amenizou sinais da caquexia. Segundo Oleh Taratula, um dos pesquisadores responsáveis pelo trabalho, o objetivo foi desenvolver uma terapia capaz de atingir simultaneamente o tumor pulmonar e a perda muscular associada à doença.

Novo método tenta superar obstáculo das terapias com mRNA

A administração de mRNA pela corrente sanguínea enfrenta uma dificuldade importante: controlar onde as nanopartículas vão se acumular no organismo.

No caso das formulações convencionais, uma parcela significativa pode chegar ao fígado. Isso dificulta o uso do material genético quando o alvo está em outro órgão. No novo estudo, a ligação das nanopartículas à vitronectina ajudou a mudar esse direcionamento.

A proteína formou uma espécie de camada ao redor das partículas na corrente sanguínea. Essa estrutura favoreceu a interação com receptores de integrina abundantes no tecido pulmonar e superexpressos no ambiente tumoral.

Com isso, os pesquisadores observaram acúmulo preferencial das nanopartículas nos tumores em comparação com o tecido pulmonar ao redor.

Terapia ainda precisa passar por novos testes

Os resultados não significam que a estratégia já possa ser utilizada contra o câncer de pulmão em pacientes. Os experimentos foram realizados em camundongos, etapa anterior aos ensaios clínicos. Resultados positivos em animais não garantem que um tratamento apresente a mesma segurança ou eficácia em seres humanos.

Os pesquisadores afirmam que serão necessários outros estudos pré-clínicos antes de considerar os testes em pessoas. Essas etapas deverão avaliar questões como segurança, possíveis efeitos adversos, dose adequada e capacidade de reproduzir os benefícios observados nos animais.

Caso os resultados sejam confirmados nas próximas fases, a estratégia poderá abrir caminho para uma abordagem que tente tratar simultaneamente o tumor e uma de suas complicações mais debilitantes.

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